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Em meio a polêmica no BBB22, transsexuais e travestis relatam episódios de transfobia na vida pessoal

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Nos últimos dias a transfobia virou assunto nas redes sociais e em todo mundo. A pauta começou a ser comentada, após o anuncio da participação da cantora Linn da Quebrada no reality Big Brother Brasil 2022 na Rede Globo. Já nas primeiras horas de participação, a artista já sofreu preconceito dos outros participantes ao ser chamada de “ELE”, levantando um questionamento de transfobia dentro do reality, que é qualquer ação ou comportamento que se baseia no medo, intolerância, rejeição, aversão, ódio ou discriminação às pessoas trans por conta de sua identidade de gênero.

Segundo o relatório “Trans Murder Monitoring”, de 2019, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. A pesquisa, foi desenvolvida pela organização Transgender Europe, e busca quantificar o número de homicídios praticados contra travestis e transexuais motivados pela transfobia. Os dados também apontam que entre outubro de 2018 e setembro de 2019, 130 pessoas trans foram assassinadas no país, mais que o dobro do México, segundo colocado, com 63 mortes.

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Casos de transfobia não é visto somente no caso da Linn, mas também na vida de trans em todo Brasil e principalmente em Goiás. A falta do pronome feminino vem sendo classificado como uma das principais agressões sofridas pelas mesmas, no dia a dia.

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Importância do pronome feminino para trans

Para a Beth Fernandes, que é psicóloga e ativista política mestre em Saúde Mental e presidente da Astral Goiás e do Fórum de Transexuais de Goiás e Conselho Municipal da Mulher, é importante o uso do pronome feminino para o tratamento, para ser falado de identidade de gênero, para falar de identidade das pessoas e de respeito.

 

Beth Fernandes Psicóloga e ativista política mestre em Saúde Mental e presidente da Astral Goiás e do Fórum de Transexuais de Goiás e Conselho Municipal da Mulher. Imagem: Reprodução

“Perguntar para o outro como você quer ser tratado é o mais natural possível, é respeito. A humanidade tem que aprender dentro das relações de cultura, de masculino e feminino, o respeito, ou seja, a não identificação com e/a ou ele/ela”, explica Beth.

A ativista, de 56 anos, conta que durante todo esse tempo defendendo a causa, já passou por diversas situações constrangedoras e desrespeitosas, principalmente em locais de movimentos de mulheres.

“Passei por essas situações e ainda passo com políticos e com pessoas que insistentemente dentro de uma área conservadora, não querem falar o ele ou ela. Dependendo da situação, eu reajo ensinando as pessoas e vejo como uma forma de agressão do outro, vendo que a pessoa vive dentro de uma política de mulheres, “ complementa Fernandes

A Amanda Souto é advogada, Coordenadora da Área Jurídica da Aliança Nacional LGBTI+ e Diretora Jurídica da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, (Abrafh), ela revela que já passou por situações idênticas da Beth e que geralmente corrige a pessoa, mas se insistir no erro, ela pergunta qual é a razão da ofensa.

Amanda Souto Baliza, Coordenadora da Área Jurídica da Aliança Nacional LGBTI+ e Diretora Jurídica da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, Abrafh / Imagem: Reprodução

“Antigamente sempre fazia as aplicações das injeções de hormônio em uma farmácia aqui perto de casa. Certo dia o lugar estava lotado e a farmacêutica disse “Vai querer aquela de sempre AMIGO?”, aquilo foi extremamente constrangedor, ao meu ver a situação poderia até ter gerado dano moral. Nunca mais comprei nada daquele lugar e sempre que algum parente ou amigo pede recomendação, indico a concorrência”, revela Amanda.

Segundo a Barbara Bombom, que também é trans, a luta contra a transfobia fez ela vivenciar um episódio em que perdeu o emprego em que trabalhava, por exigir ser chamada de Barbara.

Barbara Bombom / Imagem: Reprodução

“Fui mandada embora do trabalho por exigir ser chamada de Barbara. O próprio dono da empresa falou que não iria me chamar de Barbara, porque no meu documento tinha outro nome. Foi bem constrangedor e eu sai da empresa sem direito nenhum e sem olhar para a trás”, explica Bombom.

Luta psicológica

Segundo a psicóloga Thais Christina, as questões relacionadas a pessoas transgêneros vão muito além do uso correto dos pronomes, sejam eles femininos ou masculinos. Além da luta social é necessário entender a luta psicológica travada por trás de todo o processo. Comumente, nossa construção de gênero é determinada em nosso nascimento e posteriormente a escolha do nosso nome.

“Para pessoas trans esse processo não ocorre a partir desta perspectiva de nascimento, em um dado momento esse não se reconhecer dentro do gênero vem carregado de angústias por causa da tradicional construção social de gênero. Quando o processo do reconhecimento de identidade se inicia, várias barreiras são impostas a eles em uma das mais difíceis dentro deste processo e o reconhecimento do outro perante a sua identidade de gênero”, explica Thais.

A psicóloga ainda acrescenta que o uso do pronome correto válida toda a luta que aquele ser humano vem travando há tantos anos com ele mesmo e com a sociedade, por isso é tão importante a educação sexual e emocional nas escolas ou uso correto do pronome feminino ou masculino, vai muito além do “usar porque é correto“ é uma questão de empatia pelo outro e pela história por detrás desse pronome.

“Para elas, é importante adotar isso para causar uma identificação e reconhecimento perante a sociedade, pois nós como seres humanos buscamos reconhecimento e aceitação, e quando negamos chamar a pessoa pelo pronome que a pessoa se identifica, estamos nos recusando a aceitar essa pessoa socialmente”, conclui a psicóloga.