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Fome é realidade para 19 milhões de brasileiros

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Em Goiânia, auxiliar de serviços gerais desempregada fazia a comida do dia com uma lata de sardinha para ela e para os sete filhos em um fogão à lenha, para fugir da fome.

Dia 12 de outubro de 2021. 17 horas. Por telefone, a auxiliar de serviços gerais Rosângela de Oliveira Silva, de 39 anos, concede entrevista sobre a prisão de um de seus filhos, principal suspeito da morte de uma criança na região oeste de Goiânia.

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Angustiada com os dissabores da vida, acaba falando que buscou na casa de alguém uma lata de sardinha emprestada para fazer a comida do dia para ela e os outros sete filhos com quem mora em uma casa cujo aluguel está atrasado. Não tem gás. A comida será feita no fogão à lenha improvisado. Desde que o filho foi apontado como suspeito do crime ela foi expulsa da ocupação onde morava e vive de aluguel, mas também não consegue mais emprego. Falta dinheiro para tudo e a comida, quando tem, vem de doações.

Retrato da fome

Rosângela é o retrato fiel do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexo da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), realizado pelo Vox Populi. De acordo com o estudo , a fome no Brasil tem gênero (o feminino), cor (mulheres pretas e pardas) e grau de escolaridade (a maioria não tem o Ensino Fundamental completo).

O documento foi feito com base na pesquisa feita em 2.180 domicílios nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste (em áreas urbanas e rurais), de forma presencial, entre 5 e 24 de dezembro de 2020, com moradores de 1.662 domicílios urbanos e 518 rurais.

De acordo com o Mapa Humano da fome no Brasil, 11,1% dos lares chefiados por mulheres estavam enfrentando a fome; 10,7% dos lares chefiados por pessoa preta ou parda estavam enfrentando a fome e 14,7% dos lares chefiados por pessoa com baixa escolaridade estavam passando fome. Do total de 211,7 milhões de brasileiros, 116,8 milhões conviviam com algum grau de insegurança alimentar, e destes, 43, 4 milhões não tinham alimentos em quantidade suficiente. 19 milhões de brasileiros enfrentavam a fome.

Pandemia

Durante a pandemia de Covid-19 a insegurança alimentar aumentou 19% nos domicílios onde algum morador havia perdido o emprego ou houve o endividamento em razão da pandemia. Um dos resultados do inquérito é a necessidade urgente de se investir em políticas públicas para a geração de emprego e renda para a população e o combate às desigualdades sociais no país.

Insegurança Alimentar

A insegurança alimentar é a dificuldade de acesso a uma alimentação adequada e é dividida em três níveis pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ela é leve, quando a família tem receio de passar fome em um futuro próximo; moderada, quando há restrição na quantidade de comida para a família; grave, quando falta alimento na mesa.

Quanto mais pobre a família, maior a proporção de renda gasta com alimentação. De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, as despesas com comida representam pouco mais de 20% das do orçamento familiar. Porém, pode chegar a 90% em alguns locais do nordeste do Brasil.

Ainda segundo as informações coletadas, quase 20 milhões de brasileiros passam um dia ou mais sem ter o que comer; 24,5 milhões não sabem se poderão comer no dia seguinte e 74 milhões temem passar fome. A pesquisa revela que a insegurança moderada e grave desaparece por completo nos domicílios com renda familiar mensal acima de um salário-mínimo per capita. A ocorrência da fome foi quatro vezes superior entre aquelas com trabalho informal e seis vezes superior quando a pessoa estava desempregada. A solução para erradicar a fome passa, então, por políticas de geração de emprego e renda.

A fome dói

Desempregada e mãe de uma menina de 4 anos, Arineide de Souza, 24 anos, disse que foi abandonada pelo marido no início da pandemia, quando as “coisas” em casa começaram a faltar e as dívidas com aluguel, água e luz ficaram mais difíceis de serem pagas.

“Vendi meu celular e a televisão para pagar as despesas, mas acabei tendo de vender tudo e sair do barracão e voltar a morar com a minha mãe.”

Arineide era auxiliar de cozinha e perdeu o emprego no início da pandemia, quando bares e restaurantes fecharam. O marido adoeceu assim que a abandonou e acabou morrendo de Covid-19. Ela, a mãe, Antônia de Souza, de 49, e a filha sobrevivem com a aposentadoria de um salário mínimo de Antônia. “A fome dói. Tivemos de comprar carcaça de frango pra fazer uma canja outro dia.”

Antônia é cadastrada em uma obra social da igreja e recebe uma cesta básica como ajuda mensal. “É o que nos salva.” Já Arineide deve voltar a trabalhar em novembro. “Espero sair dessa crise logo.”

Carcaças

A venda de carcaça e dorso de frango subiu 45% e 60% respectivamente no país. “Nas lojas de São Paulo, Minas, Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, todos confirmaram que essas carnes foram mais vendidas por conta da crise”, diz o cofundador da Rede Mais Açougues, Diego Moscato ao site Tribuna da Imprensa.

Além disso, a publicação acrescenta que a “Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) não disponibiliza dados sobre desses cortes e a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) se restringe a carnes de primeira e de segunda ou ao produto como um todo, no caso do frango e porco.”


Rosana Melo

Rosana Melo é jornalista, vencedora dos prêmios: Prêmio AMB de Jornalismo da Associação dos Magistrados Brasileiros - Regional Centro Oeste; 13º Prêmio Embratel Regional Centro Oeste; 2º Prêmio MP-GO de Jornalismo; Prêmio OAB-GO de Jornalismo - todos em primeiro lugar e menção honrosa como finalista em dois Prêmios Esso categoria Jornal Impresso.