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Forme seu imaginário: só a inteligência nos resgata de uma existência miserável

Com um título tão ruim, percebe-se que a primeira a precisar de ajuda é a própria jornalista

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Diziam que o avô que não conheci era quatro homens num homem só. Falecido há exatos trinta anos, a lenda remanescente relata feitos extraordinários como construir uma casa inteira em três dias, começar um patrimônio (que até hoje nos sustenta) fazendo viagens de bicicleta da roça até a cidade, às 5h da manhã, e ser extremamente inteligente na vida prática.

Iletrado, andava com o queixo para cima, exalando confiança e autoridade em sua postura: certa vez, reza o causo que um de seus afilhados estava de cama, à beira da morte. O rapaz, que havia se ferido num grave acidente, teve o tronco completamente engessado pelos médicos locais. “Para melhorar“, diziam, embora o menino só piorasse.

Nisso chega meu avô, certa noite, quando os parentes já se amontoavam para visitar o moço em seus finalmentes. Tira então o canivete da bainha (lembra dos canivetes na bainha do cinto?), abre caminho por entre os pais do garoto, que só observavam, e corta o gesso por completo: “Ele tá morrendo por causa disso!“, percebeu. Final da história? Hoje é velho, aquele que padecia.

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Portanto, o pai de minha mãe tornou-se como um mito, para mim. E o que são mitos? Além de apelidos dados a políticos, mitos são experiências humanas condensadas em histórias cheias de significado, que iluminam nossas ações. O mito do gesso, por exemplo, mesmo que fato cravado, deixou-me lições de como ter coragem e confiança naquilo que meus olhos veem, mesmo se contrariarem opiniões de “especialistas”.

Não trair os próprios olhos: é o que eu precisava para ser uma boa jornalista. Já o avô que conheci, cujo sonho de viver para ver-me casar não pôde ser realizado, era um compêndio ambulante de lições de vida: cinco filhos altos e fortes, alimentados no capinar repetitivo da enxada. Iletrado, contava histórias, recitava poesias e rezava terços de joelhos, até morrer: os causos só não gravamos mais de baixo que falava, o tal Francisco.

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Creio que contava com mais homens assim o Brasil do passado. Num passado recente, até. Esses cavalheiros que não tiveram estudo, mas, ao que tudo indica, tiraram de letra uma vida que era muito mais dura do que a nossa. Por que? Jogo minhas fichas todas numa palavra só: inteligência.

Porque a inteligência não se mostra na quantidade de alternativas corretas em gabaritos de Enem, muito menos no quanto você está atualizado sobre as novas normas de falar ou pensar, inauguradas sei lá por quem, e aderidas por quase todo mundo: a inteligência não só está, como é a própria capacidade de entender a realidade, articulando conceitos abstratos com a vida diária.

É por isso que a roça estava repleta de gênios, e as universidades já não cabem de idiotas: ao contrário de nossos avós, fomos para a escola, jogamos segundo as regras, submetemo-nos ao sistema e ao processo que nos prometia tanto sucesso e iluminação… e acabamos como a geração mais confusa e perdida das últimas décadas, cuja decisão entre dois sabores de sorvete torna-se um trabalho de horas.

Se a contemplação do diploma emoldurado na parede te traz uma satisfação vaidosa de, por aquilo mesmo, ser agora todo inteligência, cuidado: além de iludido, você é forte candidato a burro de carga do quarteirão. Como Madre Tereza de Calcutá dizia: no seu julgamento, Deus não perguntará sobre as graduações acumuladas, mas sobre o amor vivido, e doado ao próximo.

Amor esse que só pode existir onde existe inteligência: o amor corajoso que salva a vida de um garoto na decisão brusca de romper um gesso a canivete. O desinteligente, por sua vez, acredita e repercute discursos descolados da experiência, porque é incapaz de conferi-los na realidade: e acaba na sina de defender, com termos bonitos, coisas pavorosas: o aborto, por exemplo (que gosto de chamar, por causa desse sangue inconveniente que me corre nas veias, de sanha para “matar menino”).

O burro, além de burro, é mau. E nasceu para sofrer: é outra máxima que repito à exaustação (burro nasceu para sofrer!). Então, como faremos para sair deste estado miserável? Xexelento? Demodê, mas ainda assim todo convencido, ó pobre? Pois eu descobri alguns métodos para sair da ralé intelectual, e vou lhes contar.

amor pela verdade é a coisa primordial: saber que, antes do discurso, existe a realidade. Antes de falarmos sobre ela, ela fala a nós a todo momento. A ordem natural, disposta e pronta desde antes de nascermos, que permanece irritantemente imutável, é a pista mais forte de que há algo aí que devemos descobrir: o sentido disso tudo e da nossa própria existência. O porquê e o para quê.

Depois, tenha na cabeça os mitos, que são repletos de exemplos de como pessoas que viveram antes de nós agiram naquela mesma situação em que hoje, eventualmente, também precisamos agir: o que muitos chamam de “figurinhas” –homens e mulheres, errantes como nós, mas que agiram heroicamente na hora oportuna, e nos deixam seus exemplos.

Onde acharemos isso? Na vida e na literatura. Eu mesma tive na vida as mais didáticas figurinhas: mas pode ser que você não tenha isso à sua volta. E, se sua existência está rodeada de péssimos exemplos humanos (de como ser um pai, amigo, irmão…) a boa notícia é que sua salvação existe e está na literatura universal.

Nós só podemos agir no mundo a partir do repertório que guardamos no coração: você fará o bem se tiver a imagem do que seja esse bem, e evitará o mal se souber exatamente o que é esse mal. Do mesmo modo, seus sentimentos e expressões também são delimitados pela capacidade de linguagem: quanto mais palavras você sabe, mais você se aproxima de expressar exatamente aquilo que sente; caso contrário, você sufoca-se na própria incapacidade de se definir.

Machado de Assis era negro, pobre, órfão e doente. Foi alfabetizado pela iniciativa de um padre, aprendeu francês com um padeiro generoso e lia os livros que conseguia pegar emprestado. Assim nasceu o maior gênio da literatura brasileira, cujo trunfo maior era justamente a percepção da realidade: e agora você fica sem desculpas para não ser inteligente.

Meu conselho: faça o que fiz. Siga a página “A Formação do Imaginário“, no Instagram, e entre na Escola de Literatura, criada por eles. Ali você, mesmo sem prática de leitura, lê livros selecionados e é guiado com a ajuda de um professor, que oferece aulas espetaculares para o entendimento das obras, e, finalmente, da vida real. Pareceu propaganda? Pois dane-se: é a minha vida e a sua que estão em jogo, ora!