Igreja Católica deve desculpas à sociedade

Depois de desastrosas consequências de sua existência para o mundo, uma católica pede perdão em nome de todos

Em

Não dormi bem na última noite. Deve ser pela culpa que me consome desde dentro: sou cúmplice de um crime. Quem dera, na verdade, fosse apenas um: são muitos os delitos que carrego nos ombros, pesando-me a consciência, obrigando-me importunamente a virar de um lado para o outro na cama, a mover o travesseiro sem jeito, a olhar para o teto… sem resultado.

É por isso que decidi tirar o peso que me acabrunha: hoje mesmo. Agora mesmo, e aqui. Confesso a vocês, como confessaria mesmo a um padre: sou católica, e não suporto mais viver assombrada pelos fantasmas da vileza desta instituição milenar.

Tanto quanto confio no seu perdão, caro leitor, tenho esperança na sua inclinação à bondade amorosa também diante dos crimes que posso vir a me esquecer: pois são tantos… além do fato de que, nas confissões, é muito comum nos envergonharmos diante daquele que escuta, que é, certamente, muito justo e correto.

• Compartilhe essa notícia no Whatsapp• Compartilhe essa notícia no Telegram

Minha confissão será geral: pois é do tamanho da civilização inteira o meu pecado, que esmiuçarei com afinco para que você me veja como realmente sou, desnuda; sem defesas: ou melhor, para que você veja como a Igreja realmente é – o que está por trás do véu dos sacrários.

Sinto a necessidade de pedir perdão primeiro a todas as mulheres: já no Império Romano, imediatamente após a morte de Nosso Senhor, começamos a pregar coisas estranhas, importunando os homens daquele tempo a não mais despedir suas mulheres, sem mais nem menos, com cartas de divórcio, ou matar seus filhos, indesejados por eles, causando abortos forçados.

LEIA TAMBÉM

• Tatá Werneck é ameaçada por hacker que pede dinheiro para não divulgar ‘conversas íntimas’• Goiânia recebe feira de discos de vinil, com muita música e várias atrações• Tiago Ramos se arrepende e cobre tatuagem feita em homenagem à Nadine, mãe de Neymar

Sinto muita vergonha, aliás, de inaugurarmos um novo modelo de matrimônio monogâmico, há mais de dois mil anos, para dar estabilidade à mulher, até então objetificada, ordenando: “marido, ame a sua esposa, assim como Cristo amou sua igreja e deu a vida por ela!”. Infinitamente pior foi o que fizemos nos séculos seguintes: enquanto não eram sequer ouvidas pelo resto do mundo, lamentavelmente fizemo-nas doutoras, filósofas e escritoras.

E nem me fale do Direito! Perdi muitos fios de meus longos cabelos negros a remoer o que obraram Tomás de Aquino e Francisco de Vitória, na Idade Média, quando tiraram do nariz que, por uma suposta lei natural, todos os humanos eram iguais em direitos: o branco, o preto, o amarelo, o batizado, o pagão, o cego e até mesmo o vesgo. Oh, meu Deus, sim… fomos nós que viemos primeiro com essa conversa de direitos humanos! Arrependo-me tanto…

Pior: Vitória chegou a defender que os índios do Novo Mundo tinham tanto direito sobre suas terras quanto os espanhóis sobre as deles! Aquela coisa antiquada de propriedade privada… absurdo atrás de absurdo! Não bastasse, inventamos um papo de que a vida humana era importante numa espécie de nível sagrado, e essa mentira deslavada não só pegou como sustentou muita tolerância e supressão de violência pelos séculos que vieram.

Na economia, nossa vergonha é tão grande que não se pode esconder: sim, tivemos mea culpa na fundação da teoria monetária! Por meio de cardeais, bispos e escolásticos, teorizamos o livre mercado, a inflação, a lei da oferta e da procura e sobre o valor subjetivo. O que nos causa, em segredo, um pavor que só!

Entretanto, é só o começo da história. Queria eu não poder dizer que um dia tivemos a ideia de que, para conhecer verdadeiramente a Deus, a nós mesmos e o mundo, a razão era indispensável. Desgraçado seja esse dia: uma vez plantada a semente do mal, chegamos a cabo de, no século XII, criar as primeiras universidades e toda a vida acadêmica.

Mas foram nas ciências naturais que pecamos mais desordenadamente. Nossos padres, monges e fiéis leigos se meteram nos estudos astrológicos, físicos, matemáticos, anatômicos: passamos por todas as modalidades possíveis dessa falha moral. De modo especial, peço que nos perdoem pela genética do sacerdote Mendel, suas ultrajantes cristas de galo e suas ervilhas multiplicadas criminalmente. Sem falar no Padre Lamaître, que deve muitas desculpas pela Teoria do Big Bang.

Estudamos demais, inventamos muitas coisas, decidimos ser filósofos e pensadores, ou ainda escritores. Sobre este ponto… preciso desabafar: foram nossos monges, no deserto, que viviam com votos de pobreza e castidade, os grandes culpados por preservar as obras literárias do mundo antigo que chegaram até nós, modernos. Escreviam à pena, por dias a fio… o motivo da nossa vergonha. São Bento foi, dentre eles, o pior: começou a erguer, das ruínas do Império Romano, a cultura e a civilização europeias com seu lema “ora et labora” –ora e trabalha.

E essa nova civilização, sustentada pela Igreja com suas barbáries de filosofias, ciências e direitos, fora não somente resistindo em meio a um ambiente espinhoso, mas crescendo pela Idade Média adentro: misericórdia de nós, culpados por Pietá, Davi e pela Capela Sistina. Nossos estragos se proliferaram como uma doença: hoje recordo com dor que construímos a Basílica de São Pedro, de São João de Latrão e a Hagia Sophia, expandindo-nos ao oriente.

Fomos núcleo criador de coisas repugnantes: essas hoje chamadas artes. Desenvolvemos estilos arquitetônicos que ainda são os maiores destinos turísticos do mundo, onde as pessoas vão obrigadas, de cara feia, com mordaças e tornozeleiras. Gastamos fortunas com esculturas e pinturas para fecundar o coração humano com os sentimentos mais sublimes… Tivemos nosso céu, purgatório, inferno e mares passeados por poetas como Dante e Camões: na fraquíssima “Divina Comédia” e no pedante “Os lusíadas”.

O pior pecado, guardei para o final: porque sobrará pouco tempo para encarar vocês e o compreensível olhar de desprezo. Veja, Cristo citou, algumas vezes, coisas como “misericórdia” e “caridade”, mas fomos nós que metemos os pés pelas mãos, desentendendo tudo: e tivemos a péssima ideia de criar hospitais, casas de repouso, orfanatos… Chegamos ao ponto terrível da Cruz Vermelha, por São Camilo, e de aberrações pelas ruas como Madre Teresa a cuidar de pobres feios.

Perdão, mil vezes perdão: embora as casas de misericórdia, espalhadas por aí, sempre nos lembrem dos nossos erros.

Da notação musical à cerveja, da pizza ao carnaval passando pelo sistema bancário… não há ponto em que não vejo culpa. Em todas as pilastras e baluartes botamos a mão para construir: e a ironia, finalmente, acaba aqui.

O mundo sobre o qual você está sentando, gordo e flácido de tanto aproveitar de suas vantagens, é criação católica. Dizem que quando uma coisa está em todos os lugares, então não mais a detectamos: deve ser justamente por isso que não reconhecemos que a vida nem sempre foi tão fácil assim: era mais dura e difícil, e muito, para não dizer quase tudo, devemos à luz da Santa Igreja.

Basta visitar alguma nação que não tenha recebido tanto a sua influência: e ateste como são tratadas as mulheres, os homossexuais, como são as penas para os crimes mais banais… como é a vida e o quanto de valor tem um ser humano.

Exigir que a Igreja Católica peça perdão à sociedade é semelhante a ganhar uma Hilux do ano com um arranhado no retrovisor e protestar: “Eu não acredito que você está me dando isso… peça desculpas!“. Exatamente: um perfeito ingrato. Aliás, as mais recentes reavaliações históricas têm comprovado dezenas de folclores e mentiras difamatórias, provando que, das coisas das quais somos acusados, se tivermos feito 5%, é muito!

E digo mais: quando filhos da Igreja cometem erros, e ela pede perdão, é como aquela mãe honesta que educou seu menino no bom caminho, mas ainda assim o moleque virou ladrão. Só sobra para a coitada ir toda humilde e lamentosa para pedir desculpas às vítimas roubadas: assumindo, por amor, como se fosse culpada, um crime que também a ofende.

A verdade é que somos alvos fáceis: porque nossa pedra angular é a justiça, e sempre estamos prontos a admitir falhas, na esperança de sermos melhores: é assim que, sinceramente, fomos ensinados a levar a vida. E nessa nossa postura, os abutres montam em cima: pois acharam a ocasião perfeita para cuspir no prato que em comem- e como comem!

Sinceramente? Calem a boca e agradeçam.