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Mudança de vida de mães de autistas pode aumentar risco de depressão

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É consenso que uma pessoa com autismo precisa de assistência multidisciplinar. Na ânsia de cuidar dela, a família é esquecida no processo de cuidado. O desgaste e as consequências negativas na vida e na rotina dos integrantes do núcleo familiar são diversos e vêm sendo apontados em pesquisas.

Estudos demonstram que mães de crianças autistas têm 70% mais casos de depressão comparado às com filhos com síndrome de Down. “Isso mostra que esse diagnóstico traz sério impacto na qualidade de vida das famílias. A causa pode estar ligada à restrição social em que nela vivem, em muitos casos”, afirma a psicóloga e supervisora de terapia de Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Giovanna Reolon.

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De acordo com ela, há várias questões correlacionadas. A principal é a mudança abrupta na vida social e, consequentemente pessoal dos familiares. “Por não frequentarem mais os mesmos ambientes, por terem de levar os filhos em muitas terapias, pelo fato de o autismo ainda não ser tão conhecido pela sociedade e as pessoas não saberem como lidar…tudo isso está envolvido”, diz.

Limitação

Durante certo período após o diagnóstico do filho Samuel, de 6 anos, a mãe, Aline, se limitou a ficar em casa com ele e com a filha Luiza, de 9 anos, que tem a síndrome de Asperger.

“Eu evitava sair de casa com ele para shopping, festas, eventos, inclusive reuniões familiares. Ele chorava muito em locais com grande concentração de pessoas ou quando saía da rotina. Hoje em dia não, nós vamos a todos os lugares que antes não íamos”, relata Aline.

Segundo a psicóloga, essa é a melhor estratégia. Ela explica que, de fato, existem crianças com autismo com distúrbios sensoriais, ou seja, elas percebem os sons e cheiros de forma diferente, não conseguem estar em lugares com muito movimento, com cheiros diferentes ou com muita luz. No final das contas, essas limitações tendem a restringir as famílias.

Além disso, outra característica do autismo é a rigidez comportamental. Dessa forma, crianças muito apegadas à rotina entendem a simples alteração no caminho em que andam na rua ou mesmo nos lugares para onde vão como um sofrimento.

“Por isso também as famílias deixam de frequentar os lugares e os mesmos grupos. Algumas delas iam à igreja em que tinham um grupo social, por exemplo, e deixam de frequentar, assim como restaurantes, shopping e casa de parentes”, detalha Giovana.

Buscar redes de apoio pode ser determinante para lidar bem com a situação, acredita a psicóloga Giovanna Reolon. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar disso, a psicóloga diz que a pessoa com autismo se beneficia muito do convívio social. ”Ela precisa estar inserida em contexto de escola, nos ambientes sociais, shopping, rua, parques, para que possa aprender regras sociais, se desenvolva melhor e possa criar laços de amizade”, defende.

Melhora

O progresso de Samuel, Aline credita à rotina de terapias e intervenção precoce. Ele recebe assistência especializada desde um ano e meio de idade, quando foi diagnosticado por um neuropediatra e encaminhado para atendimento psicológico e fonoaudiológico.

“Agora ele se comporta bem e entende as regras sociais. O resultado foi obtido através das terapias multidisciplinares intensivas baseadas no método ABA. Conseguimos viajar, sair e ir a reuniões. Isso era impensável até certo tempo atrás”, celebra.

Por não ter uma “cara”, um fenótipo como a síndrome de Down, muitas vezes as crianças são tidas simplesmente como má educadas ou birrentas. Essa concepção está ligada à falta de informações, emborao autismo seja um transtorno comum e frequente.

Segundo dados do Center of Diseases Control and Prevention (CDC), órgão de saúde norte-americano, existe hoje um caso de autismo a cada 110 pessoas. Dessa forma, estima-se que o Brasil, com cerca de 200 milhões de habitantes, possua 2 milhões de autistas.

“Ainda assim, a maioria das pessoas continua sem entender que esse comportamento mal interpretado faz parte do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e não acolhem as famílias, que ficam ainda mais restritas”, pontua.

Recentemente, um caso extremo chamou atenção devido ao desconhecimento em relação ao assunto e pela violência. No dia 14 de novembro, em Sorocaba, no interior de São Paulo, um casal teria torturado e dopou um garoto autista de 8 anos de quem eles suspeitavam de furto. O menino havia pedido para a mãe uma caneta, foi pra a rua escondido da família e mexeu em uma câmera de segurança da casa do casal.

Eles acreditaram que a criança queria furtar o equipamento, por isso o levaram até o interior da casa deles, onde o agrediram e depois o abandonaram em um matagal. A criança está internada no hospital e o casal está preso temporariamente.

Ombro amigo

Nesse conflito pessoal, familiar e social, buscar redes de apoio pode ser determinante para lidar bem com a situação. Em Goiânia há associações que oferecem esse cuidado. “Temos o TEAmamos, temos outras associações de pais como AMA, AFAG, NAIA, que são sem fins lucrativos e dão suporte e informações para essas famílias e para crianças. Se cercar de rede de apoio é muito importante no diagnóstico e ao longo da vida”, enumera Giovanna.

Um detalhe primordial, na perspectiva da psicóloga, se trata da legislação. “É interessante buscar informações sobre autismo e sobre os direitos das pessoas nessa condição. Para a sociedade em geral é importante também conhecer sobre o autismo já que hoje afeta muitas crianças. Precisamos entender para incluir essas pessoas”, acredita.

Como agir

Giovanna orienta como agir quando se deparar com uma criança ou família com integrante com autismo. “Em vez de se afastar ou tentar intervir, é melhor perguntar para um familiar como ajudar, se aproximar, interagir, questionar qual tipo de suporte precisa, pedir informação, demonstrar interesse sobre o assunto, além de difundir o conhecimento para que essas pessoas sejam incluídas”, sugere.

 

Conheça redes de apoio para pessoas com autismo e seus familiares em Goiânia

-Núcleo de Apoio e Inclusão do Autista (NAIA Autismo) – (62) 3256.0851

-TEAmamos – (62) 3598.0772

-Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Goiânia (AMA Gyn) –(62) 3291.4478/ http://amagoias.com.br/

-Associação de Familiares e Amigos do Autismo de Goiás (AFAAG) – (62) 9.906.2019