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Rio Vermelho é desviado do seu leito original e ameaça Lago dos Tigres secar

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O Rio Vermelho é um dos principais rios do estado de Goiás, com cerca de 282km de extensão e banha 11 municípios goianos. Nasce na Cidade de Goiás e seu desague é no Rio Araguaia, em Aruanã. Há cerca de 30 anos, com o constante desmatamento ao seu redor, o curso original do seu leito foi desviado em 16km e, as águas que deveriam alimentar o Lago dos Tigres, em Britânia, no Noroeste Goiano, criaram um novo trajeto.

Com a destruição das Áreas de Proteção Permanentes (APP) e, consequentemente a falta da proteção natural nas margens, a terra levada pelo Rio Vermelho vai direto para o Araguaia. A Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (DEMA) investiga o caso.

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“Foram 24km de desvio do leito normal e que não passa mais água. Nessa região, existem 124 curvas, o que é normal para um rio, pois rios são tortuosos. Já na parte desviada, são 16km de linha reta, dentro de área de pastagem e sem nenhuma vegetação. Os peixes ficam sem abrigo porque não tem nem 20 curvas”, alerta o Sr. Elcio Francisco Carvalho, Secretário do Meio Ambiente de Britânia.

Ainda, de acordo com a pasta, há um projeto de obras para que seja realizado o desvio para o leito original, mas se encontra parado na Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) desde 2018. Elcio ainda informa que no mês de agosto, dia 02 de agosto, houve uma reunião com a própria Semad para averiguar o andamento do processo e foi combinado uma visita in loco em Britânia, mas a ida nunca ocorreu.

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Impactos ambientais 

Quando um rio é desviado de seu curso natural, diversos impactos podem seguir essa alteração, como explica o doutor em Biologia Vegetal, Rafael Pinto: “Por exemplo, pequenos peixes que servem de alimento a toda uma cadeia trófica, podem não possuir força suficiente para enfrentar grandes correntezas no centro do leito, vivendo então às margens dos rios, junto às matas ciliares. Em alguns rios, pequenas curvas podem abrigar espécies endêmicas, não sendo encontradas em mais nenhum local ao longo do rio”, ele ainda salienta que uma vez que o rio é desviado de seu curso natural, a vida destas espécies fica comprometida o que pode ocasionar extinção.

Rafael relata que a mudança do curso também pode influenciar o processo de evolução das espécies nativas da região, “O rio carrega sementes de plantas nativas das matas ciliares, sendo de extrema importância para o fluxo gênico das espécies nativas locais. Uma vez que o rio é desviado, esse fluxo pode ser interrompido, comprometendo processos de migração e evolução de espécies nativas, podendo levar à extinção das espécies mais sensíveis e perda da biodiversidade em toda a cadeia alimentar”, por consequência, de acordo com o biólogo, as populações que dependem da biodiversidade e da qualidade das águas do rio impactado podem ter sua qualidade de vida comprometida, causando problemas sociais e de saúde pública.

 

Desvio do Rio Vermelho – Imagem cedida pela Secretaria de Meio Ambiente de Britânia.

Delegacia do Meio Ambiente

Ainda em 2014, a Dema notificou os proprietários de terras da região para a precariedade da situação. O delegado titular da Dema, Luziano Severino de Carvalho, informou que nessa época, houve um parecer favorável da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, atual Semad, para a obra de correção do manancial hídrico. O projeto foi desenvolvido pela Prefeitura de Britânia e, até o momento, ainda não houve autorização para a realização dos serviços. De acordo com o delegado, o desmatamento da região é o responsável pelo desvio do leito.

Vista aérea do desvio do Rio Vermelho – Imagem cedida pela Secretaria de Meio Ambiente de Britânia

A vegetação nativa presente nas margens dos rios, também conhecida como matas de galeria ou matas ciliares, são de extrema importância para a geologia e biologia locais.  De acordo com Rafael, “As matas ciliares protegem as margens dos rios de processos erosivos causados pela corrente dos rios, evitando o assoreamento do leito ou dos corpos de água nos quais os rios desaguam”, diz. Esse assoreamento é uma das principais consequência da destruição das matas ciliares e uma das ameaças ao Rio Vermelho, Araguaia e ao Lago do Tigre.

 

Trecho do Rio Vermelho já sem água. (Foto: Secretaria de Meio Ambiente de Britânia)

Nas matas ciliares também estão presentes diversas espécies de plantas que podem servir de alimento para animais aquáticos como peixes e mamíferos, Rafael explica que “Nestas regiões, devido à presença de trocos e raízes, a velocidade da correnteza diminui, transformando essas regiões em locais propícios para reprodução e deposição de ovos e larvas de espécies de animais aquáticos”. As APP incluem essas áreas dos rios que devem ser preservadas e protegidas por lei.

 

Delegado titular da Dema, Luziano Severino de Carvalho /  Foto: Walter Peixoto

O delegado, Luziano, disse que as obras que deveriam ter começado no período da seca, em 2019, não foram realizadas pois não houve um estudo técnico pelos órgãos responsáveis “o que a gente vê é uma negligência por parte do poder público. Quando perceberem essa omissão, será tarde demais. O rio está cada vez mais largo, mais seco e mais reto. Esse é um dos piores danos ambientais aqui no nosso estado. Não tem como falar de recuperação do Araguaia, sem começar pelo Rio Vermelho. Ontem, (07/10), visitei a região e a situação está cada vez mais crítica”, alerta a Dema.

Ainda, de acordo com Luziano, a obra não seria feita com dinheiro público, ela seria financiada por empresários e fazendeiros da região.

O Diário do Estado procurou a Semad  nos dias 07/10 e 08/10 para informações sobre esse estudo técnico, entretanto não houve retorno.