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O tiro de Bolsonaro saiu pela culatra com indicação de petista à reitoria da UFG

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Nesta terça-feira (11) a professora Angelita Pereira de Lima foi nomeada como nova reitora da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela compunha a lista tríplice dos professores eleitos pela comunidade acadêmica (docentes, discentes e técnicos-administrativos), sendo o terceiro nome da lista. Por lei, o presidente da República deve nomear um dos três escolhidos e, tradicionalmente, o nome sempre foi o do mais votado.

Angelita é formada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, mestra em Educação Brasileira e doutora em Geografia pela própria UFG. Atualmente, é diretora da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC). Professora da UFG desde 2002, atua na docência com ênfase em produção de texto jornalístico, jornalismo literário e narrativas de vidas; jornalismo investigativo e de dados. É também pesquisadora de gênero e direitos humanos e professora do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos. Em 2014, nas eleições estaduais, Angelita foi candidata a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

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O que a UFG esperava, até então, era que o nome da professora Sandramara Matias Chaves fosse o escolhido, já que ela foi a mais votada nas eleições internas da universidade, seguindo assim uma já tradição de escolha do governo federal. O Conselho Universitário (Consuni) da UFG definiu as listas tríplices para reitor e vice-reitor, na gestão de 2022-2025 em junho do ano passado. As escolhidas foram, além da Sandramara, as professoras Karla Emmanuela Ribeiro Hora e Angelita Pereira de Lima.

Na avaliação do meio universitário, já prevendo que talvez o presidente Jair Bolsonaro (PL) pudesse intervir na escolha do reitor, assim como fez em mais de 20 instituições federais no país, não nomeando o primeiro colocado da lista tríplice, as professoras que ficaram em segundo e terceiro lugar, são mulheres engajadas com a política de esquerda. Angelita é filiada ao PT e Karla Emmanuela é filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Na tentativa de “segurar” o nome de Sandramara, a saída foi a escolha de professoras ligadas à militância universitária.

A escolha de Bolsonaro é vista por muitos como uma afronta a democracia, a autonomia das instituições públicas de ensino, uma tentativa de tumulto no meio acadêmico e uma forma de retaliação a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a qual era presidida até o ano de 2020 pelo ex-reitor da UFG, Edward Madureira. Durante os debates referentes ao retorno às aulas presenciais nas universidades durante a pandemia, Edward confrontou o governo federal sendo contrário a tentativa, o que não agradou o presidente.

Ex-reitor define atitude de Bolsonaro como “ato covarde e mesquinho”

Ao participar da posse da nova diretoria da Faculdade de Enfermagem (FEN), Edward, de forma emocionada, comentou o ocorrido “O dia hoje será cumprido. Que me conhece sabe que eu me emociono fácil, mas é muito ruim emocionar com sentimentos ruins, que inevitavelmente invadem a gente nesse momento. É mais um ato covarde, mesquinho e desrespeitoso o que nós estamos vivenciando nessa manhã”, disse. Ele relaciona a nomeação de hoje com o seu posicionamento frente à Andifes “Nunca me calei. Sempre questionei a nomeação de dirigentes que não eram os primeiros da lista e talvez esteja pagando o preço por não ter ficado em silêncio”. Em sua fala, o ex-reitor da UFG ressalta a importância da autonomia universitária.

A reitora em exercício da UFG, Sandramara, lembrou dos 16 anos de trabalho com Edward Madureira e elogiou Angelita Lima “É uma pessoa extremamente competente e que se dedica à UFG. Mas essa não é a questão. O que está em jogo é a autonomia da universidade, o respeito à escolha da comunidade universitária, à decisão do Consuni e o exercício da democracia. É lamentável que este governo não respeito e não considere o que é uma universidade pública. Espero que muito em breve esse cenário mude. O principal agora é preservar nossa instituição, encontrarmos o melhor caminho e unir forças para que a UFG continue cumprindo o seu papel e mostrando a sua importância”.

A última vez que o presidente da República se recusou a escolher o reitor mais votado pela comunidade acadêmica na UFG foi na época da ditadura

A primeira consulta pública à comunidade acadêmica da UFG para escolha de um/a reitor/a foi em 1982, ainda no período da ditadura. Na época, o professor Ary Monteiro do Espírito Santo foi o mais votado. Apesar da escolha do Consuni, o governo federal comandado pelo presidente João Figueiredo, não permitiu sua nomeação e designou a professora Maria do Rosário Cassimiro para o cargo (1982-1986).

Ary Monteiro, primeiro reitor escolhido pela comunidade acadêmica da UFG não foi empossada pela ditadura militar em 1982. (Fonte: Sint-IFESgo)
Ary Monteiro, primeiro reitor escolhido pela comunidade acadêmica da UFG não foi empossada pela ditadura militar em 1982. (Fonte: Sint-IFESgo)

O atual modelo de escolha dos reitores das instituições federais de ensino superior (Ifes) só foi possível depois do fim do regime militar (1964-1985). Durante esse período, o reitor e vice-reitor eram definidos pelo presidente da República, através do Ministério da Educação (MEC).

Pelo processo democrático de escolha, já passaram pela UFG os professores Joel Pimentel Ulhôa (1986), Ricardo Freua Bufaiçal (1990), Ary Monteiro do Espirito Santo (1994), Milca Severino Pereira (1998 e 2002), Edward Madureira Brasil (2006, 2010 e 2018) e Orlando Afonso do Valle Amaral (2014).

Adufg repudia nomeação de Bolsonaro

O Sindicato dos Docentes da Universidade Federal de Goiás (Adufg-Sindicato), em nota, considera que o presidente Bolsonaro ignora a vontade da comunidade acadêmica, desrespeita a autonomia da universidade e trata-se de um retrocesso  para a democracia.

Confira a nota na íntegra:

O Sindicato dos Docentes das Universidades Federais de Goiás (Adufg-Sindicato), o Sindicato dos Trabalhadores Técnico-administrativos das IFEs do Estado de  Goiás (Sint-Ifesgo), o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFG, a Associação de Pós-Graduandos da UFG, a Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG), a União Estadual dos Estudantes de Goiás (UEE-GO), a União Nacional dos Estudantes(UNE) e a Associação de Egressos e Egressas da UFG repudiam a postura antidemocrática do presidente Jair Bolsonaro, que decidiu não nomear a professora Sandramara Matias Chaves como reitora da Universidade Federal de Goiás (UFG), mesmo tendo sido a mais votada em consulta à comunidade universitária. O ato de Bolsonaro e seu ministro da Educação desrespeita a vontade da maioria dos professores, estudantes e trabalhadores técnico-administrativos da instituição e despreza a autonomia universitária.

A existência da autonomia universitária é tão importante que foi colocada na Constituição Federal, em seu artigo nº 207, como um direito fundamental para o funcionamento das universidades e instituições federais de ensino. Ela garante uma gestão independente, livre e plural, administrativamente e na produção da ciência e do conhecimento a serviço da sociedade, independente de governos e gestores. Ao desrespeitá-la, Bolsonaro quebrou uma tradição de décadas, que pode provocar instabilidade na UFG, e faz parte do projeto político deste Governo e seus generais que promovem o desmonte da universidade pública e o avanço do autoritarismo.

Bolsonaro desrespeitou a escolha da comunidade universitária, assim como desrespeita o povo brasileiro diariamente, com sua política desastrosa na educação, saúde, economia, meio ambiente e ciência. Desde o início do seu mandato, o presidente já escolheu mais de 20 reitores que não foram eleitos de forma democrática. Trata-se de um enorme retrocesso contra a democracia da universidade, promovido por um governo que reafirma diariamente seu perfil autoritário e coloca em risco a estabilidade do ambiente universitário.

Adufg-Sindicato, Sint-Ifesgo, DCE, APG UFG, ANPG, UEE, UNE e Egressos reafirmam seu compromisso com o respeito à vontade legítima da comunidade acadêmica, que fez, dentro dos marcos legais, sua escolha de quem deveria administrar a UFG nos próximos quatro anos. As entidades manterão a defesa intransigente do papel do Estado na garantia do ensino público gratuito federal no País.

Em defesa da autonomia universitária! Reitora eleita é reitora empossada! Fora Bolsonaro!