Saiba mais sobre o “hipster” da Federal que foi morto nesta quinta-feira em Buritinópolis

Ao Diário do Estado, psiquiatra explica o que pode ter ocorrido com policial durante invasão à fazenda

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O rosto dele estampou até a folia do carnaval pernambucano em 2017. O apelido se tornou mais famoso do que o próprio nome. Lucas Valença, de 36 anos, mais conhecido como hipster da Federal, teve uma trajetória bem atípica para um policial com atuação em investigação de crimes tão sensíveis à sociedade, como corrupção no meio político.

A barba e o coque no cabelo eram a marca do servidor público com quase dez anos de carreira. O agente da Polícia Federal (PF) ganhou notoriedade quando prendeu o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, há seis anos após muita expectativa da sociedade à época. Era uma das primeiras grandes repercussões da Operação Lava Jato, sob o comando do ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro.

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Natural de Posse, em Goiás, Lucas atuava na sede da PF em Brasília desde 2014, onde fez parte do Comando de Operações Táticas (COT), a principal unidade tática de elite. Antes, ele havia sido policial militar do Distrito Federal. O hipster nunca evidenciou a profissão e detalhes das operações em que atuou nas raras aparições na televisão ou nas mídias sociais. As poucas entrevistas que concedeu limitavam-se à fama repentina e à alcunha rejeitada por ele. Ele sempre dizia que preferia a de lenhador à de hipster.

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À Rádio Jornal de Pernambuco, em 2017, o rapaz comentou um pouco sobre o assunto e sobre a trajetória profissional enquanto aguardava para aproveitar o feriado de carnaval em um bloquinho que o homenagearia. O convite, segundo ele, partiu das Federações Nacional e Recifense dos Policiais Federais. Apesar de tímido, Lucas topou a brincadeira com direito a abadás e um bonecão de Olinda com o rosto dele.

“Nunca quis aparecer e sempre quis deixar essa questão de policial ‘baixo’. Nunca postei foto. Quem me acompanha desde antes no Instagram e ainda hoje não vai ver foto minha de policial. Às vezes, as pessoas não me veem postando sobre isso e acham que saí da Polícia, mas continuo trabalhando, graças a Deus. Sempre foi meu sonho e objetivo de vida trabalhar na PF contra a corrupção e lutar pela segurança da sociedade. Entrei por idealismo. Queria trabalhar com algo que me satisfizesse e fizesse a diferença na sociedade”, afirmou.

No ano passado, durante a longa caçada pelo criminoso Lázaro Barbosa, o policial famoso voltou ao noticiário ao integrar a megaoperação com mais de 270 policias em busca do até então foragido que foi morto após 20 dias de perseguição. O hipster usava uniforme camuflado, mas ainda mantinha o look que o tornou popular anos antes, principalmente entre as mulheres. O perfil pessoal e os de fã clubes dele nas redes sociais recebiam sempre diversos comentários elogiando a beleza do rapaz.

Alerta para a saúde mental

Pela internet, o vice-presidente da Federação Nacional de Policias Federais, Luiz Carlos Cavalcante, lamentou a morte de Lucas. De acordo com ele, o servidor era muito querido na corporação e seria “mais um dos atingidos pela epidemia de problemas psiquiátricos que assola o efetivo da PF”.

A reportagem do Diário do Estado entrou em contato com a assessoria da PF para esclarecimentos sobre operações mais recentes e apurações internas sobre o comportamento ou uso de drogas por Lucas Valença, porém fomos informados de que a instituição está acompanhando as investigações, prestando todo apoio necessário e que não divulga informações pessoais e funcionais de servidores.

O psiquiatra Murillo Mascarenhas avaliou a descrição do comportamento do policial federal feita pelo fazendeiro que o alvejou com tiro no peito. Ele acredita que pode realmente ter sido um surto psicótico, definido pelo médico como uma perda da capacidade de compreender a realidade que pode ser temporária ou durar anos.

“A pessoa passa a ouvir vozes, a ver coisas que não são reais, a ter pensamentos delirantes como imaginar que duas pessoas conversando estão falando dela e acreditar nisso a ponto de ir lá tirar satisfações. Em casos mais bizarros, a pessoa acredita que ela mesmo está morta. É raro, mas acontece e geralmente  causado por alguma doença psiquiátrica”, explica.

Na lista das principais causas estão transtorno bipolar, esquizofrenia, uso de drogas, estresse agudo e depressão. O especialista afirma que o fato de Lucas ter falado sobre a presença de demônio e necessidade de expulsá-los da casa da fazenda dá indícios de surto psicótico.

“Não podemos afirmar com certeza, mas é coerente. Ele poderia ser esquizofrênico, apresentar transtorno bipolar ou estar em abstinência de drogas ou de álcool ou passado por estresse intenso na família dele. Não podemos dizer qual seria o mais provável, mas pela idade dele, a esquizofrenia teria a menor possibilidade”, opina Murillo.

O profissional esclarece que as estatísticas sempre apontaram que entre os policiais as doenças mentais ocorrem com mais incidência, porém o termo adequado seria endemia e não epidemia, como citou o vice-presidente da Federação Nacional de Policias Federais, Luiz Carlos Cavalcante.

“O número de casos psiquiátricos entre eles realmente é maior do que na população em geral porque eles têm a mesma genética que os demais, porém estão expostos a mais estresse por questões funcionais, privação de sono, riscos, por portar armas, passarem por treinamentos… São fatores que predispõem como gatilhos para o surgimento de doenças mentais. Não é que ser policial gera doença mental, mas eles têm mais estresse funcional que o restante da população”, ressalta.

Entenda

Um proprietário rural de Buritinópolis, a cerca de 465 quilômetros de Goiânia, teria atirado em Lucas Valença quando ele teria invadido as terras do homem na noite desta quarta (02) dizendo que na casa da fazenda havia um demônio e que todos deveriam sair do interior do imóvel. O dono estava na residência coma mulher e uma filha de três anos.

Com a insistência em ficarem lá dentro, o policial famoso teria desligado o padrão de energia e avisado que invadiria. Foi quando o fazendeiro atirou e matou o rapaz. Informações não confirmadas sugerem que o hipster estava afastado das atividades na Polícia Federal e que estava em surto psicótico desde o dia anterior ao da morte.

A Polícia Civil de Goiás está apurando o caso que vem sendo classificado como um aparente surto psicótico porque a investigação deve ser aprofundada e documentada com laudo médico. A assessoria informou que parece ter havido um homicídio com possível exclusão de ilicitude (legítima defesa) e posse irregular de arma de fogo de uso permitido por parte do fazendeiro, que foi preso em flagrante.

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