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Saudades: That ’90s Show não chega aos pés de That ’70s

Netflix lança nova versão do famoso seriado da TV americana sobre os anos 70

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Seis amigos, um porão e os anos 70. Antes de tudo, precisamos admitir a realidade: That 70´s show, ou “Aquele show dos anos 70“, era praticamente perfeito. Sem exagero. Tanto as atuações quanto os personagens criados, os figurinos, os roteiros e o próprio tempo em que a história se passava convergiam para um passatempo fantástico a ser reproduzido semanalmente nas noites da TV americana.

E era mesmo. Por isso durou oito longas temporadas, de 1998 a 2006. Imagine o seguinte: numa cidadezinha pacata do interior, você e mais cinco amigos de infância vão juntos ao colégio, frequentam diariamente a mesma lanchonete, os mesmos parques e cinemas, e, de bônus, um de vocês –aquele que tem o lar mais estável e os pais mais equilibrados– por acaso também possui um Vista Cruiser dando sopa na garagem e o porão mais legal da região!

Descendo aquelas escadas rumo ao subsolo, o típico refúgio americano é um prato cheio para a gangue de adolescentes: tem sofá, assentos meio improvisados e por isso mesmo legais, discos da época, TV… e, para completar, ora, são os anos 70, caramba! E isso dá à série uma amplitude absurda de situações em que aqueles jovens podem ser colocados: por exemplo, a de viver o primeiro amor enquanto se dança numa discoteca ao som de Fernando, do ABBA.

E, depois disso, sofrer o primeiro coração partido ao som de Donna, do Ritchie Valens –já que Donna Pinciotti é o nome da personagem principal que faz par amoroso de Eric Forman, o “líder” da turma e dono do porão. Além dos dois, Steven Hyde, Fez, Michael Kelso e Jackie Burkhart, cada um com uma personalidade e uma história diferente, quando unidos, criam a química daquela típica amizade amorosa que acolhe o amigo e todas as suas circunstâncias.

São muitos os temas que renderam episódios não menos que fantásticos: bailes de formatura, o amor entre Jackie e Hyde (dois completos opostos que não se suportavam), a figura paterna firme e por isso mesmo amorosa de Red Forman, a figura da mãe acolhedora em sua esposa Kitty, o sofrimento que uma família desestruturada e pais inconstantes causam num filho (Hyde, Donna e Jackie), e, por último. a superação dessas dores para finalmente chegar à vida adulta.

Até hoje, nenhuma tentativa de refazer a perfeição do seriado original foi tão bem sucedida quanto ele mesmo. That 80´s show, o primeiro experimento para dar continuidade ao programa, dispensa comentários, já que foi cancelado na TV antes mesmo do término da primeira temporada. E agora a Netflix, esperta, mais uma vez, em pegar carona nos sucessos do passado, realiza a vontade dos fãs ressurgindo com a trama, mas desta vez nos anos 90.

Para começar dando um desconto justo, é preciso admitir: em vinte anos, as referências culturais empobreceram bastante. Se, na primeira versão, as piadas podiam incluir a magreza sexy de Mick Jagger, a garota que sonhava em namorar Elton John mas que o achava meio “discreto” enquanto seu namorado queria ser mais bonito que David Bowie, em That 90´s show, de melhor, vemos um trocadilho com o nome de Sheryl Crow (Sheryl Corvo) e uma alucinação chapada com a estética nitendiana de Donkey Kong.

Mesmo assim, fica a impressão que dava para melhorar. Um milhão de vezes, de Sheryl Crow a Shania Twain. Em teoria, os produtores tentaram reproduzir That 70´s show à risca: os amigos e suas personalidades distintas, as paixões, os dilemas morais, o porão, o carro… mas quando os melhores momentos de uma nova série são justamente aqueles em que os personagens antigos reaparecem, fica claro que temos um produto bem abaixo da expectativa.

Os novos personagens não soam tão autênticos e o espectador fica por entender se a futilidade apresentada é por má atuação ou feitas propositalmente para ilustrar como podiam ser superficiais os adolescentes dos anos 90. Com algumas poucas ressalvas: Léia, filha de Eric e Donna que vai passar férias na casa dos avós (a história é essa!), parece, de fato, uma pessoa real. Também são bons os personagens de Jay Kelso, filho de Michael com Jackie, e Nikki, uma moça que parece ser bem madura para a sua idade.

Fora isso, as partes mais engraçadas ainda ficam por conta do elenco velho: Ashton Kutcher e Mila Kunis reaparecem por um minutinho na casa dos Forman –mostrando quais foram os destinos de Michael Kelso e Jackie BurkhartFez também está de volta, por muito mais minutos e irremediavelmente engraçado. As simples caras e bocas do personagem ainda são capazes de arrancar, desde o sofá, as mais orgânicas gargalhadas. Com Leo e Bob, do mesmo jeito…

Eric, no entanto, foi uma decepção pessoal. O líder da antiga turma surge casado com Donna, já perto dos quarenta anos de idade. E, por mais incrível que possa parecer, ele está com a mesma camisa, corte de cabelo, mentalidade e problemas afetivos de quando tinha apenas 17 anos: eternamente inconformado com o papai maldoso e ainda mais obcecado por Star Wars. Honestamente, o único trabalho que tiveram com Eric foi acrescentar-lhe um par de olheiras debaixo dos olhos.

Sem falar no buraco que existe, e esse é irremediável, causado pela falta do melhor personagem de todo o programa: Steven Hyde, vivido por Danny Masterson. O ator passa por um julgamento seríssimo de estupro em que pode pegar anos e mais anos de cadeia. Uma pena –em tantos níveis! Pois a tentativa de suprir seu lugar como o jovem transgressor do grupo foi inútil em That 90´s: Hyde, como ninguém, era um inconformado que convencia.

No último episódio da Netflix, quando Léia de despede da casa dos avós (Red e Kitty, que eram os pais na versão dos anos 70), mesmo fazendo as inevitáveis comparações, a gente fica com… saudades. Principalmente porque surge uma tensão interessante no final: os personagens vão se encorpando e a descendente de Eric e Donna acaba dividida entre Jay, seu primeiro amor encontrado naquele verão, e Nate Runck, sua mais nova paixão…

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