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Dia mundial da diabetes: Sou diabético. E agora?

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Sou diabético. E agora?

O diagnóstico de uma doença que não tem cura nunca é fácil. Medo, tristeza, ansiedade, culpa…Um misto de sentimentos. Se a condição exigir mudanças comportamentais para o controle, a situação pode parecer impossível de lidar. Ter diabetes inclui todas essas etapas, mas existe uma luz no fim do túnel: é possível conviver com a doença e levar uma vida normal.

A auxiliar de serviços gerais Maria Divina Martins tem experiência no assunto. Ela foi diagnosticada com diabetes em 1999 e hoje, aos 45 anos de idade, ela enfrenta melhor a situação. “Fiquei muito assustada na época. De cara, o médico disse que eu não poderia comer muita massa e tinha que fazer uma dieta saudável que passaria pra mim. Foi um baque”, relembra.

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Tantas novidades assustaram Maria Divina, que teve de reaprender a comer. “Confesso ser ainda difícil seguir a dieta à risca. Eu não gosto de alguns alimentos amargos, como jiló, nem de alguns legumes. Eu gosto mesmo é de doce. Muito doce, macarrão e arroz, mas, infelizmente, não posso comer muito porque precisa ser tudo moderado”, confidencia.

Assim como ela, 537 milhões de adultos de 20 a 79 anos no mundo vivem com o diabetes no mundo, conforme dados preliminares do Atlas Diabetes 2021 publicados neste mês pela Federação Internacional de Diabetes (IDF, sigla em inglês). O número é quase 16% maior do que o do ano anterior. Apenas em 2021, a doença já foi responsável por 6,7 milhões de mortes em todo o mundo, ou seja, 1 a cada 5 segundos.

Informação salva vidas

Mais gente com a enfermidade significa mais gente sedenta por conhecimento. Somente a informação desmistifica o assunto e evita complicações de saúde por causa do diabetes. Afinal, saber quem é o “inimigo” pode salvar a uma vida. E foi justamente a ignorância em volta da doença que estimulou o jornalista Tom Bueno a criar o maior canal no Youtube sobre diabetes feito por uma pessoa com essa condição.

O “Um Diabético” é o maior canal da América Latina sobre a doença com mais de 100 mil inscritos. No instagram, o perfil com o mesmo nome tem 27 mil seguidores. Esses canais de comunicação representam uma comunidade carente por esclarecimento e acolhimento. Tom se incomodava com a falta disso durante viagens a trabalho.

“Convivo com o diabetes tipo 1 desde os 22 anos de idade. Já são 15 anos com a doença. Em  2017, trabalhava em São Paulo como repórter do programa Domingo Show, da TV Record, e viajava pelo País. Nas minhas andanças, percebi que nos lugares mais distantes em que eu chegava, as pessoas não tinham informação nem acesso correto às informações do diabetes”, relembra.

“Convivo com o diabetes tipo 1 desde os 22 anos de idade. Já são 15 anos com a doença”, afirma Tom Bueno, que tem um canal no Youtube sobre a doença. (Foto: Reprodução Instagram @tom_bueno)

O jornalista ou influencer de diabetes produz muito conteúdo sobre o assunto. São vídeos,  lives semanais, websérie e webdocumentários. A websérie mais recente, inclusive, a “Sim, diabético”, foi realizada por meio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

“No domingo, em 14 de novembro, no dia mundial do diabetes, para chamar a atenção para a doença no Brasil, eu vou lançar o webdoc “Retrato: Brasil que depende de insulina” em que mostro a realidade de dependentes da insulina em cinco regiões brasileiras, incluindo numa aldeia indígena no Mato Grosso”, antecipa.

Comida saudável

Além de informações, a pessoa que tem diabetes precisa de boa dose de disposição.  Estar aberto a introduzir novos alimentos é um desafio para muita gente e pode ser realmente complicado, mas algumas estratégias ajudam nesse processo de aceitação.

A camuflagem, por exemplo, “esconde” ingredientes nutritivos em receitas saudáveis como em uma preparação de arroz com brócolis ou omelete com espinafre. Diferente da questão exclusivamente de paladar, a resistência a experimentar ou mudar os hábitos talvez sejam os maiores complicadores para se viver bem tendo diabetes.

A nutricionista Carolina Nobre afirma que a alimentação está relacionada a aspectos não só culturais, mas também pessoais. “O comportamento é cultural e a pessoa pode ser apegada a um alimento ou ficar mau humorada quando não tem acesso a ele. Ela precisa ser ajudada. Eu trabalho muito o diálogo com meus pacientes porque ao entender a importância e o porquê das adequações, a adesão acontece”, diz.

Todo mundo pensa que o nutricionista vai proibir comer tudo, mas não é assim. A alimentação pode ficar saborosa e saudável”, explica a nutricionista Carolina Nobre. (Foto: Cleber Roberto)

Ela costuma atender muitos pacientes como Maria Divina em seu consultório no Órion, em Goiânia. Lá, a nutricionista consegue fazê-los aceitar melhor a dieta destacando mais a inclusão gradual do que substituição de alimentos.

“Prefiro incluir a excluir. Todo mundo pensa que o nutricionista vai proibir comer tudo, mas não é assim. A alimentação pode ficar saborosa e saudável”, explica. De acordo com Carolina, a abordagem diferenciada precisa ser mais incisiva conforme mais avançada a idade do paciente. “Quanto mais velho, mais resistência ou dificuldade em aderir às orientações”, observa.

Complicações

No caso da auxiliar de serviços gerais, apesar das readequações alimentares, consultas médicas e orientação com nutricionista, a teimosia em repetir erros do passado no estilo de vida causou problemas sérios de saúde. Há quatro anos, ela foi submetida a uma angioplastia para desobstruir artérias coronárias que dificultavam o fluxo de sangue para o coração.

“Foi assustador. Fiquei com muito medo e de consciência pesada. Não tinha noção da gravidade do problema. Eu estava comendo muito doce, muita comida gordurosa e não seguia a dieta. Comecei a sentir muita fadiga. Quando fiz um teste ergométrico, descobri o motivo dos sintomas porque não consegui chegar a finalizar o exame,”, afirma.

“Eu estava comendo muito doce, muita comida gordurosa e não seguia a dieta”, diz Maria Divina justificando complicação do diabetes que a levou a fazer uma angioplastia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Agora, Maria Divina alia as consultas periódicas ao médico e tenta seguir uma alimentação equilibrada. O temor dela é pelas filhas. “Eu tenho diabetes, meu irmão tem e meu medo é minhas filhas terem também. Mas, graças a Deus, elas sempre vão ao médico para ver isso”, relata.

De olho!

Carolina Nobre explica que a alimentação influencia no nível sanguíneo de glicose, por isso o ideal é ingerir comida de verdade com mais frutas e vegetais no cardápio seguindo a lógica de descascar mais e desembalar menos.  Porém, a especialista alerta para a escolha das frutas.

“O alimento saudável não representa um sinal verde para comer à vontade. Para quem tem diabetes, algumas frutas têm restrição devido ao teor de frutose, o açúcar das frutas. A quantidade é maior para frutas maduras. Então, a orientação é comer frutas não tão maduras, ou seja, menos docinhas”, frisa a nutricionista.

Na lista de frutas “vilãs”, ela aponta uva, melancia, morango mais docinho, abacaxi e mamão muito maduro. Para driblar a vontade de comer, a profissional ensina um truque: acrescentar uma fonte de fibras, como aveia, ou uma fonte de proteínas, como ovo, para reduzir a velocidade da entrada da frutose na corrente sanguínea.

As atenções também devem ser voltar a um tradicional e amado hábito dos brasileiros. O cafezinho pode ser um vilão sem ajustes na quantidade de açúcar. “A retirada desse item pode ser gradual. Uma opção é adicionar canela na bebida, uma especiaria com sabor e aroma adocicados. “O melhor dos mundos para quem tem e quem não tem diabetes é adaptar o paladar para se ‘desmamar’ do açúcar”, sugere.

Caso não seja possível, a nutricionista propõe a utilização moderada de adoçantes, preferencialmente os naturais, a exemplo da stévia e do xilitol. “Aqueles artificiais, a longo prazo e em grande quantidade, podem interferir na microbiota intestinal, ou seja, afetam as bactérias do intestino”, afirma.

Produtos diet são indicados aos pacientes com diabetes, porém esporadicamente e contextualizados à rotina alimentar. De acordo com a nutricionista, tudo depende do equilíbrio e quantidade de refeições e de comida ingerida.

Riscos

A profissional chama atenção para os cuidados como uma precaução. Enquanto isso, Maria Divina posterga os exercícios físicos, tão importantes para uma vida saudável. Ela brinca que o médico dá puxões de orelha alertando para a relevância da atividade física para o controle do diabetes.

A auxiliar de serviços gerais se justifica com o cansaço, a falta de tempo e a própria profissão para se eximir da rotina de se movimentar. O trabalho, na perspectiva dela, já é uma forma de se exercitar. Porém, a nutricionista alerta para a necessidade de bons hábitos de vida para a saúde.

“As consequências do diabetes descontrolado são graves. A pessoa pode ter de amputar a perna, ficar cega, ficar com uma cicatrização ruim. Dessa forma, o desconforto de readequar a alimentação é menor do que os riscos de não promover algumas mudanças”, ressalta.

O que é?

Diabetes é uma doença causada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo. O diabetes pode causar o aumento da glicemia e as altas taxas podem levar a complicações no coração, nas artérias, nos olhos, nos rins e nos nervos. Em casos mais graves, o diabetes pode levar à morte. O s sintomas comuns são fome frequente, sede constante e vontade de urinar diversas vezes ao dia.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, existem atualmente, no Brasil, mais de 13 milhões de pessoas vivendo com a doença, o que representa 6,9% da população nacional. O diabetes mellitus, como também é chamado, pode se apresentar de diversas formas e possui diversos tipos diferentes.

O tipo 1 é uma doença crônica não transmissível, hereditária, que concentra entre 5% e 10% do total de diabéticos no Brasil. Cerca de 90% dos pacientes diabéticos no Brasil têm esse tipo. Ele se manifesta mais frequentemente em adultos, mas crianças também podem apresentar.

O diabetes tipo 2 ocorre quando o corpo não aproveita adequadamente a insulina produzida. A causa do diabetes tipo 2 está diretamente relacionado ao sobrepeso, sedentarismo, triglicerídeos elevados, hipertensão e hábitos alimentares inadequados.

 

Cinco dicas para controlar o diabetes, segundo a nutricionista Carolina Nobre

1-ler atentamente os rótulos para escolher um bom alimento industrializado identificando o açúcar presente em diferentes nomes (xarope de glicose, xarope de frutose, maltodextrina)

2-inserir comida de verdade na alimentação descascando mais e desembalando menos

3-praticar atividade física como forma de controlar o índice glicêmico

4-reduzir a quantidade de açúcar nas refeições e preparações gradualmente adaptando o paladar

5-inclur fibras e boas fontes de gorduras (castanhas e oleaginosas) na alimentação como estratégia para controlar a glicemia