Jornal Diário do Estado

// Sara Andrade

The Chosen e o mito do Cristo de olhos claros

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Se de fato Deus existe como precisamos que exista, como a lógica necessita de uma causa primeira, de um ser incriado do qual todas as coisas surjam, de um motor imóvel, que tudo move enquanto que por nada é movido -do contrário, coisa alguma teria entrado por um milésimo de segundo na esfera da existência- bom, então Deus é, de fato, foda pra caramba. Ou, em terminologia apropriada, os de gravata borboleta diriam que Deus é onipotente.

Isso significa que Ele pode fazer todas as coisas que fez ou que ainda fará. Que tem autoridade e poder suficientes para fazer chover torrencialmente por quarenta dias e quarenta noites, andar sobre as águas quando a terra firme lhe soar tediosa; multiplicar pães ou mandá-los do céu, abrir mares ou acalmá-los, fazer o sol bailar no meio da tarde (como aconteceu no século passado, em Portugal) ou mandar três raios atingirem a mais alta cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, no dia em que o papa anunciava sua renúncia. Sim, o mundo é o Seu jogral!

Aparentemente, há apenas uma coisa que não é permitida ao Todo-Poderoso; o único limite imposto ante Seu poder: escolher com que cor pintará Seus próprios olhos! Certas ressalvas até permitem que Ele varie entre um tom e outro. Um castanho aqui, um verde-cana lá. Mas a ordem proíbe expressamente que os olhos do Divino venham em intragável azul, sob pena de perder imediatamente o status de Senhor de todas as coisas.

Parece exagero, mas esta foi mesmo a gravidade colocada sobre o tema durante o programa The View, a mesa redonda de comadres fofoqueiras mais célebre de toda a TV americana, e portanto de toda a TV mundial (A atriz Whoopi Goldberg, ela mesma, ocupa uma das cadeiras do show).

Desta vez foi Jonathan Roumie, após anos de um sucesso arrebatador encarnando Jesus Cristo na série The Chosen (Os escolhidos), que ganhou merecidos nove minutos de atenção como entrevistado do dia, neste ambiente que integra o que podemos chamar de “nata da galera legal” da grande mídia estadunidense –a mesma que, não raro, interrompe abruptamente a fala de seus entrevistados caso façam alusões positivas ao cristianismo.

Acontece que o sucesso mundial de The Chosen já é tão grande, que a série foi assistida por aproximadamente 25 trilhões de seres neste universo e também fora dele, segundo estimativas dos órgãos oficiais. E quando Jonathan Roumie adentrou aquele estúdio, e se sentou na mesa, como que para encenar a última ceia, as colegas de távola redonda ficaram sinceramente emocionadas, juraram sentir impulso natural para fazer o sinal da cruz -a presença do daquele cara é mesmo something else!-, mas depois dispararam: “Ainda bem que não é mais um Jesus loiro, de olhos azuis!”, batendo nesta tecla, over and over, ao longo dos pobres nove minutos.

Graças a Deus, porque aqueles Jesuses de olhos azuis são mesmo impossíveis! Além de antipáticos, dão ataques de estrelismo, estão sempre a multiplicar pães de validade duvidosa, apedrejam meretrizes, distribuem colírios aos pobres cegos, no lugar de curar-lhes a visão, e bengalas aos coxos, no lugar do tão sonhado milagre. Ora, e o que mais poderia gerar tanta sacanagem uníssona? Sim, a maligna influência agregadora dos olhos claros.

Pois enquanto diziam-se comovidas diante do homem que alcançou, até então, a mais visceral das interpretações do Filho de Deus, a única coisa que as apresentadoras conseguiam pensar, perguntar ou se preocupar era sobre a abençoada melanina escura nos olhos de Jonathan. Parecia-lhes a maior coisa a se agradecer em The Chosen! Certamente, o tom das retinas é ponto central de toda a história da redenção humana. As ditas bondade e natureza divinas do Cristo não passam de caprichos de segunda ordem.

Bom, enquanto contemplavam o que, segundo elas, era a imagem do próprio Deus, e agradeciam porque finalmente podiam aceitá-Lo após comprovados os benditos olhos castanhos, essas mulheres revelavam em si mesmas duas realidades pueris, bobas para dizer bem a verdade, que parasitam o seu pensamento -sim, é apenas um pensamento. Não dois. Não três.

Número um: o que elas alcançam da ideia de Deus é muito limitado. Muito aquém da potencialidade real. Dele, esperam apenas mais um garoto-propaganda que confirme cinco ou seis pautas de origem duvidosa que formam todo o conteúdo de seu mundo mental, e que fornecem, através de lá, duas ou três peneiras rasas pelas quais todas as outras coisas da vida serão raciocinadas –um mundo parco, sem cor nem nuance, mas deveras convencido do contrário.

E dois: a fantasia irreal, que não passa de um subterfúgio barato para dar munição ao ódio antirreligioso, do tal “Jesus de olhos azuis” que dominaria as representações branquelas e “eurocêntricas” do personagem ao longo da história. O que na realidade não existe e jamais fora um consenso. Longe disto: a arte sacra ao longos dos séculos, e as mais famosas representações de Cristo facilmente desmentem a tal representação do Filho do Homem como mais um loirinho europeu –fato que, repito, não tiraria a sua divindade, nem poder e nem bondade, caso se confirmasse.

Vamos, então, às mais célebres: Jesus, pintado por Leonardo Da Vinci, não tem olhos azuis. Jesus, pintado por Rafael Sanzio, não tem olhos azuis. Jesus, da iconografia bizantina, não tem olhos azuis. Jesus, pintado na cena do Juízo Final, no alto da Capela Sistina, por Michelangelo Buonarroti, não tem olhos azuis. Jesus, pintado por Santa Faustina, a pedido Dele próprio, não tem olhos azuis. Jesus, no clássico filme de Ben Hur, não tem olhos azuis (eles sequer aparecem). Jesus, de Mel Gibson, não tem olhos azuis. E, claro, Jesus, de The Chosen, seguindo a real tendência, não tem os malgrados olhos azulados.

Os únicos Cristos de que me lembro, de olhares azedos mas inegavelmente belos, estão em folhinhas de calendários ou no clássico hollywoodiano “A maior história de todos os tempos“, onde, no entanto, estava longe de ter cabelos louros ou pele clara. De resto, há somente o Cristo protagonizado por Willem Dafoe, no desastre de Martin Scorcese em que o personagem de olhos celestes troca seu Pai, Deus, pelo diabo, seu inimigo, afim de estrelar uma ousada cena de sexo com Maria Madalena, como se isto fosse o sonho máximo do Logos Divino –pensando bem este Jesus seria bem aceito, à revelia da cor dos olhos.

“The View”, ou em português, “O olhar” parece ter de tudo, menos visão sobre qualquer coisa realmente séria. Aquelas boas samaritanas se acostumaram, bem como o resto das pessoas que pensam exatamente como elas, a inventar não-problemas e inverter os graus de importância das coisas, afim de projetar uma culpa moral imaginária sobre o que sequer conhecem mas ferozmente acusam.

Enquanto isso, ficam maravilhosamente bem na fita como as justiceiras sociais da América. Servas fiéis do bom Deus, caso Ele as obedeça e tenha mesmo olhos castanhos. Para chegar neste estágio, é claro, consciência e razão já foram sacrificadas, há muito tempo, no altar da cegueira farisaica.

Ora, diante de profunda e decidida negação em admitir a verdade das coisas, não há Cristo, de olhos negros ou azuis, que dê jeito. Uma pena, meus amigos. Uma pena!

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