A decisão da China de retaliar as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos deve ampliar a busca do país asiático por fornecedores alternativos de produtos agrícolas, favorecendo diretamente o Brasil. A medida, anunciada nesta sexta-feira, 4, inclui tarifas adicionais de 34% sobre itens norte-americanos, além das taxas de 10% a 15% que já haviam sido aplicadas sobre cerca de US$ 21 bilhões em produtos agrícolas em março.
Entre os principais impactos estão as exportações de soja e sorgo dos EUA, segundo traders consultados pela imprensa internacional. O temor é que a nova tarifa inviabilize a importação desses produtos. Em contrapartida, os prêmios nos portos brasileiros já começaram a subir, indicando um aumento na demanda pela soja brasileira, com o mercado antecipando a reação chinesa.
A disputa lembra o cenário vivido entre 2018 e 2020, durante o primeiro mandato do ex-presidente Donald Trump, quando tarifas foram impostas contra diversos parceiros comerciais, inclusive a China. Em resposta, países como Canadá, União Europeia, Índia, México e Turquia também aplicaram tarifas retaliatórias. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), apenas entre 2018 e 2019, as exportações agrícolas norte-americanas perderam mais de US$ 27 bilhões, sendo que a soja representou 71% dessa redução. Na época, o Brasil emergiu como principal fornecedor alternativo e, desde então, fortaleceu sua posição: atualmente, cerca de 70% das importações chinesas de soja têm origem brasileira.
Segundo analistas, o novo embate comercial deve repetir esse padrão. Carlos Mera, chefe de pesquisa de mercado agrícola do Rabobank, avalia que o Brasil será novamente o maior beneficiado. A atual safra nacional, considerada abundante, deve garantir um volume recorde de exportações para a China no segundo trimestre. Argentina e Paraguai também podem conquistar fatias maiores desse mercado, assim como Austrália e Argentina no setor de trigo.
Além das tarifas sobre a soja, a China suspendeu nesta sexta as autorizações de importação de sorgo da empresa C&D (USA) Inc., de carne de frango e farinha de ossos da American Proteins, Mountaire Farms of Delaware e Darling Ingredients. Também foram interrompidas as compras de produtos avícolas de duas dessas companhias, em uma ação que amplia a tensão no comércio bilateral.
Mesmo com os conflitos, a China ainda é o maior destino dos produtos agrícolas norte-americanos, mas as importações vêm em queda. Em 2022, somaram US$ 42,8 bilhões, valor que caiu para US$ 29,25 bilhões em 2024.
Na última quarta-feira, Trump anunciou uma tarifa básica de 10% sobre todas as importações a partir de 5 de abril, com percentuais ainda maiores para determinados países. O novo pacote tarifário inclui os 34% direcionados à China, intensificando a guerra comercial em escala global.