Antes dos trios e sambódromos: conheça os carros de mutação, tradição do passado do carnaval de Florianópolis e única no Brasil
Alegorias eram feitas com processos artesanais, com maquinário movido à força humana. Tradição começou a perder força após sucesso dos desfiles das escolas de samba.
Reportagem de 1985 mostra desfile com carros de mutação no carnaval de Florianópolis [imagem]
Se atualmente o carnaval de Florianópolis é marcado pelos blocos, shows nacionais e desfiles das escolas de samba, no século passado os carros de mutação já foram a grande atração para o público nos dias de folia. Em uma Praça XV de Novembro lotada, no Centro da cidade, os ansiosos expectadores aguardavam a passagem dessas alegorias tão especiais, únicas no Brasil (assista acima).
A diversão dos carros de mutação não era apenas a decoração, o acabamento e a criatividade. Era saber como eles iam se transformar e o que aconteceria depois dessa mudança.
Os movimentos verticais e horizontais dos carros de mutação encantavam os foliões, principalmente até a década de 1960. O resultado dessas transformações poderia ser mais andares para a escultura, o aparecimento de crianças ou dançarinos, a abertura de uma flor, o surgimento de outra alegoria dentro da alegoria. As possibilidades pareciam infinitas.
O público acompanhava tudo atento, pronto para ser surpreendido pela criatividade dos carnavalescos. São nesse sentido os relatos do pesquisador Alzemi Machado sobre as emoções que sentia ao assistir, quando criança, aos desfiles dos carros de mutação no carnaval de Florianópolis.
O pesquisador explicou que os carros de mutação são um tipo de carro alegórico. Alguns alegóricos fazem movimentos, mas não são considerados mutação, pois eles não se transformam em outra alegoria.
Carros alegóricos são veículos cenográficos usados para representar temas, enquanto carros de mutação eram um tipo especial de carro que se transformava durante o desfile, abrindo, girando ou mudando de forma por meio de mecanismos manuais.
Os carros de mutação surgiram no final do século XIX, em um período em que o carnaval da capital catarinense apresentava características bastante diferentes das atuais. Conforme descreveu Alzemi Machado em “O Carnaval das Grandes Sociedades em Desterro/Florianópolis 1858-2011”, essa era a época das sociedades carnavalescas, organizações que apareceram em meados do século XIX, inicialmente promovendo bailes e, posteriormente, desfiles pelas ruas da cidade, já com carros alegóricos.
A essas estruturas passaram a ser incorporadas técnicas de maquinismo, dando origem aos chamados carros de mutação. Eles se destacavam pelo uso de processos artesanais que envolviam madeira, cabos de aço, molinetes, iluminação e tração humana.
Segundo o pesquisador, as transformações dos carros dependiam da ação direta de um operador: “Não havia nada movido, por exemplo, a pistão. Nada era elétrico, tudo funcionava por tração manual, pelas pessoas que puxavam aqueles estágios.”




