Numa reviravolta do mercado financeiro, o crédito privado volta a chamar atenção dos investidores: aplicar dinheiro no setor justamente nos piores momentos, quando há instabilidade e desconfiança generalizada, pode gerar retornos bem superiores à média. Segundo análise da JGP, quem entra quando os spreads de risco estão altos colhe lucros até 3 vezes maiores do que quem investe em épocas de euforia. Por que, então, muitos fogem nesse cenário? Entenda como a dinâmica atual pode mudar o rumo dos seus investimentos e por que a fuga generalizada pode representar uma oportunidade oculta.
De acordo com levantamento da JGP, as maiores rentabilidades em crédito privado foram registradas justamente após períodos de estresse, como os defaults de Americanas e Light e, mais recentemente, Ambipar, Raízen e Pão de Açúcar. Nessas fases, os spreads médios saltaram para mais de 1,82% acima do CDI, garantindo aos investidores retorno médio de 4,37% acima da taxa básica. Mesmo com resgates que somaram R$ 42 bilhões desde fevereiro deste ano, a gestora mostra que, historicamente, a rentabilidade média das debêntures ficou em CDI +1,04% desde 2017. Os dados reforçam que o cenário de pânico no negócios pode ser, na prática, um campo fértil para quem busca desempenho superior.
Alexandre Muller, diretor de investimentos da JGP Crédito, destacou: “Por mais que haja riscos, é melhor entrar no mercado quando os spreads estão altos”. O executivo aponta que, mesmo contabilizando prejuízos por recuperações judiciais e calotes, o histórico compensa. Ele compara esse tipo de aplicação a uma dieta equilibrada: não é para ficar rico rápido, mas para compor um portfólio mais resiliente. Já o comportamento dos investidores contrasta com a lógica das oportunidades: “Vemos resgates massivos sempre após grandes eventos, quando, na verdade, o ciclo mostra que os melhores retornos aparecem justamente aí”. Para Muller, fica a lição de que o timing correto faz toda a diferença.
Investir na crise: por que o momento de medo paga mais
O dado que intriga: investidores que aplicaram em crédito privado nos momentos de spreads altos, após episódios de default, usufruíram retornos de até 4,37% acima do CDI — desempenho significativamente superior a quem entrou em épocas de spreads apertados, com rendimento levemente inferior ao CDI. Isso revela que grandes eventos de tensão abrem janelas estratégicas para quem consegue manter o sangue frio no mercado.
Enquanto muitos sacam recursos e endurecem requisitos na tomada de risco, players atentos identificam esses gaps como oportunidades raras. A própria volatilidade pressionou fundos de gestão empresarial com grande exposição ao crédito, provocando resgates nos momentos potencialmente mais rentáveis. O fato reforça a importância de uma análise apurada do ciclo e o entendimento claro das variáveis do segmento.
Para a sociedade, a consequência imediata é uma maior oscilação no acesso ao crédito e pressão sobre taxas de financiamento corporativo. Quem se arrisca nos momentos de pânico pode garantir rendimento superior, mas a fuga em massa gera efeito cascata que encarece o crédito para empresas e impacta novos projetos e geração de empregos, sobretudo em setores dependentes de recursos de mercado.
Veja por que o momento atual exige cuidado e estratégia
A recente abertura dos spreads, que atingem agora média de 1,9% acima do CDI após os episódios envolvendo Ambipar, Raízen e Pão de Açúcar, sinaliza uma nova janela para quem pensa em investir em crédito privado. Apesar disso, a aversão ao risco segue em alta. Segundo dados da JGP, fundos com mais de 50% da carteira em crédito sofreram resgates de R$ 42 bilhões entre fevereiro e abril, repetindo padrão observado depois da crise de Americanas e Light em 2023.
Essa onda de resgates já impactou a rentabilidade do ano: em 2024, debêntures tiveram retorno de 2,60% abaixo do CDI, especialmente devido à marcação a mercado trazida pelo aumento dos resgates. Apenas 0,4 ponto percentual dessa perda está ligada a problemas de crédito em si; o restante reflete ajuste técnico nas carteiras, efeito amplamente debatido em análises de estratégia de negócios. O cenário segue com dinâmica semelhante ao de 2023, quando perdas bateram 3,7 pontos percentuais.
A consequência é clara: oscilações de humor do mercado ainda ditam o ritmo dos retornos no setor. O ambiente de crédito privado segue favorável apenas a investidores com visão de longo prazo e perfil mais tolerante a riscos. Quem resiste à pressão e foca nos fundamentos tende a colher frutos mais adiante. Fica o alerta para os próximos movimentos: ajustar o perfil de risco e aproveitar picos de spread pode definir o sucesso do portfólio e abrir portas inexploradas nos momentos em que outros recuam.



