‘Oi, pexual!’: criança indígena do AM viraliza ao comer tanajura e mostrar a rotina das culturas Sateré-Mawé e Ticuna nas redes sociais
Crescendo entre as culturas Sateré-Mawé e Ticuna, Yandra Mawé passou a ser reconhecida nacionalmente após vídeos sobre o dia a dia na comunidade às margens do rio Ariaú viralizarem nos últimos anos.
A rotina de uma família indígena às margens do rio Ariaú, em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus, tem chamado atenção nas redes sociais e despertado interesse sobre o modo de vida dos povos originários no Amazonas. Os vídeos mostram o cotidiano de Yandra Mawé, de 6 anos, que cresce entre as culturas Sateré-Mawé e Ticuna, aprendendo tradições, grafismos e costumes da comunidade instalada no local há quase 30 anos. (Assista acima).
Nos últimos dias, os vídeos publicados no perfil de Yandra ultrapassaram as fronteiras do Amazonas e chegaram a autoridades nacionais. Além de mostrar tradições indígenas, a menina também se destacou por mobilizar apoio para a reforma da escola da comunidade, que estava sem estrutura adequada para atender as crianças.
“Quando eu gravo vídeos, eu fico muito alegre, porque eles chegam em muitas pessoas. Quando eu mosto minha vivência para as pessoas, eu fico muito feliz, porque elas aprendem a minha cultura também”, afirmou a pequena Yandra ao DE.
O perfil de Yandra já reúne mais de 600 mil seguidores e milhares de curtidas. Nos comentários, moradores da região agradecem pela valorização da cultura local, enquanto pessoas de outras partes do país se encantam com o carisma da menina. Nas publicações, a pequena chama carinhosamente os seus seguidores de ‘oncinhas’.
A mãe de Yandra, Kian Sateré-Mawé, conta que a família vive na região desde 1995, quando migrou do rio Andirá e se fixou às margens do Ariaú. O espaço se tornou referência de convivência comunitária e transmissão de saberes tradicionais.
Em entrevista ao DE, a mãe de Yandra explicou que a identidade da filha é construída a partir da convivência com duas culturas indígenas distintas, mas complementares, que fazem parte da história familiar.
DAS MEMÓRIAS PESSOAIS À REPERCUSSÃO NACIONAL
O perfil nas redes sociais foi criado em 10 de outubro de 2019, dia do nascimento de Yandra. Segundo Kian, a ideia inicial não era alcançar o público, mas registrar de forma pessoal e familiar o crescimento da filha.
Kian contou que sempre sonhou em ser mãe e que documentar cada etapa do desenvolvimento da filha foi uma forma de viver intensamente essa experiência e guardar lembranças.
Os registros começaram ainda em 2019, mas o perfil ganhou visibilidade a partir de 2024. Um dos vídeos que chamou atenção do público mostra Yandra falando sobre a tanajura, formiga comum na região que serve de alimento, e despertou a curiosidade do público.
CONVITES, REPRESENTATIVIDADE E IMPACTO NA COMUNIDADE
Com o aumento da audiência, os vídeos passaram a alcançar pessoas em várias regiões do país. Para a mãe, a repercussão mostrou que o interesse ia além da curiosidade e revelava uma busca por compreender o modo de vida indígena.
A visibilidade trouxe convites para eventos e espaços institucionais. Yandra participou da Marcha das Mulheres Indígenas e esteve em agendas no plenário da Câmara dos Deputados, acompanhada de lideranças indígenas e representantes do governo federal.
Ela destacou que a presença em eventos institucionais não está associada a partidos políticos, mas com representatividade e fortalecimento da presença indígena em espaços de decisão.
ROTINA ENTRE O RIO, A FLORESTA E OS MAIS VELHOS
Segundo a mãe, a rotina da família não segue apenas uma lógica urbana de horários e compromissos, mas está ligada ao território, aos ciclos da natureza e às orientações dos mais velhos. O rio e a floresta fazem parte da dinâmica diária e influenciam diretamente as atividades realizadas pela família.
Além de cuidar da filha, Kian atua como grafista indígena. Ela desenvolve trabalhos com pintura corporal tradicional utilizando o jenipapo, fruto usado pelos povos originários para produzir tinta natural. Os grafismos aplicados no corpo carregam significados específicos e estão ligados à identidade, à ancestralidade e à comunicação cultural.
Além das atividades na comunidade, Kian cursa licenciatura indígena na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O objetivo é fortalecer a educação dentro das próprias comunidades e contribuir para uma formação alinhada à realidade dos povos indígenas.
RESPONSABILIDADE E PRESERVAÇÃO DA INFÂNCIA
Para Kian, a projeção da filha traz também responsabilidade, já que representa não apenas a família, mas uma história coletiva construída por mulheres indígenas da região.
Ela acrescentou ainda que ver a Yandra ocupando espaços institucionais simboliza a presença indígena em ambientes onde decisões são debatidas, sem abrir mão da identidade cultural.
Apesar da visibilidade, Kian reforça que Yandra continua vivendo a infância de forma simples, com sonhos comuns a outras crianças.
Entre os desejos mencionados por Yandra está o de ter uma casa mais estruturada, com banheiro, desejo que surgiu após conhecer outros espaços fora da comunidade.
Kian ressalta que controla o conteúdo publicado e limita o acesso da filha às redes sociais. O objetivo é proteger a infância e garantir que a exposição aconteça de forma responsável.




