No universo dos vinhos, a expressão cru define rótulos singulares e sofisticados, especialmente em regiões históricas como Borgonha e Bordeaux, mas permanece desconhecida de parte considerável do público. De acordo com especialistas do setor vitivinícola, entender o significado do termo cru é fundamental para quem deseja aprofundar o conhecimento sobre vinhos e identificar produtos de excelência em diferentes cidades produtoras do mundo.

O termo cru, oriundo do francês “crescido”, está diretamente ligado às características exclusivas de determinadas áreas de produção, podendo designar um vinhedo específico, uma parcela diferenciada ou mesmo um município onde o terroir imprime qualidades únicas ao vinho. Com raízes que remontam séculos, a classificação cru foi se consolidando e, atualmente, dita tendências nas principais regiões produtoras de vinho, como Borgonha, Bordeaux e Champagne, além de áreas italianas de prestígio como o Piemonte.

O que esperar para os próximos dias é um crescente interesse de consumidores, profissionais do vinho e até de estudiosos que buscam compreender melhor as nuances dos crus. Nesta quarta-feira, produtores brasileiros comentaram à equipe do DE que o número de apreciadores que desejam conhecer vinhos de cru tem aumentado, impactando também a oferta de importadoras e lojas especializadas no país. Uma tendência que, segundo a organização do setor, deve se firmar ainda mais até o final deste ano.

Borgonha: O mosaico do terroir e as classificações Grand Cru e Premier Cru

A história da Borgonha ganhou novo rumo a partir da Revolução Francesa de 1789, quando os vastos vinhedos, antes dominados pela Igreja, passaram por uma reforma agrária sem precedentes. Segundo relatos históricos, tal reconfiguração contribuiu para a fragmentação característica da região, criando o cenário que se observa hoje, um verdadeiro mosaico de pequenos produtores que dividem, entre si, parcelas das áreas mais valiosas de cultivo.

No início do século XIX, a promulgação do Código Napoleônico, em 1804, alterou as leis de herança e provocou ainda mais a divisão dos vinhedos, muitas vezes resultando em lotes minúsculos nas mãos de famílias diferentes. De acordo com especialistas, essa colcha de retalhos explica por que cada microclima, solo e inclinação ganhou um peso especial, justificando as classificações como Grand Cru e Premier Cru. Atualmente, Borgonha possui 33 denominações Grand Cru – um patamar que representa apenas cerca de 2% da produção total da região, reservado aos vinhos mais nobres e prestigiados do mundo.

Abaixo dos Grand Crus, a categoria Premier Cru compreende 684 climats e abrange aproximadamente 10% dos vinhos borgonheses. Exemplares como o Moillard Corton Grand Cru Les Grandes Lolières contam com longos períodos de amadurecimento em barrica e exibem toda tipicidade do terroir. O surgimento desses rótulos, apreciados em degustações e festivais internacionais, aquece a economia do segmento vitivinícola e é tema recorrente nos principais eventos do setor, realizados em cidades ao redor do mundo.

Bordeaux e Champagne: tradição, classificação e singularidade dos crus

Os crus bordaleses têm relevância histórica, com classificação oficial estabelecida durante a Exposição Universal de Paris, em 1855, sob ordem de Napoleão III. De acordo com documentos da época, apenas 61 produtores integram o seleto grupo dos Grand Cru Classé, distribuídos em cinco níveis de excelência: Premier, Deuxièmes, Troisièmes, Quatrièmes e Cinquièmes. Tamanha rigidez classificatória faz de Bordeaux um símbolo de tradição e qualidade, sendo que pouquíssimos rótulos conseguiram ascender de categoria desde então – um feito alcançado por somente uma vinícola nos últimos 150 anos.

Entre os exemplos mais icônicos está o Château du Tertre, destaque do terroir de Margaux, que desde 1855 figura como cru de Bordeaux. Sua produção envolve distintas uvas, formando um assemblage harmônico, onde a Cabernet Sauvignon, a Merlot, a Cabernet Franc e a Petit Verdot se unem para criar vinhos complexos e longevos. A influência dessas classificações é sentida não apenas na França, mas também em outras regiões vinícolas, cuja inspiração em Bordeaux impulsionou movimentos semelhantes, inclusive em países do Novo Mundo.

No lendário território de Champagne, a classificação cru não se atém ao vinhedo, mas abrange municípios. Por lá, os Grand Crus representam um topo restrito da produção, enquanto os Premier Crus são maioria, ultrapassando 90% de todo o volume. A vinícola Mandois, por exemplo, elabora champagnes como o Mandois Blanc de Blancs Premier Cru, resultado de pelo menos 4 anos de amadurecimento sur lie, ganhando destaque por sua elegância e notas sofisticadas. Eventos e comemorações de cidades importantes costumam incluir rótulos de Champagne Grand Cru, reforçando a tradição da região e sua inserção em datas simbólicas, como a Semana Santa.

Itália e o Piemonte: Cru, MGA e os ícones de Barolo

No norte da Itália, o Piemonte se tornou sinônimo de vinhos tintos poderosos, especialmente o Barolo, cuja reputação mundial se deve, em grande parte, à existência dos cru de Barolo. Entretanto, diferentemente da França, a classificação formal desses vinhedos ocorre através das chamadas MGA (Menzioni Geografiche Aggiuntive), que demarcam microáreas de excelência com qualidade de uvas ímpar. De acordo com historiadores, a colina de Cannubi é considerada o cru mais antigo da Itália, documentada desde 1752 – local onde altitude, exposição solar e solo convergem para produzir Barolos excepcionais.

Entre os vinhos emblemáticos, o Michele Chiarlo Barolo DOCG Cannubi entrega aromas de bosque, mirtilo e notas terrosas, além de paladar estruturado e camadas de profundidade, amadurecendo por 3 anos, sendo pelo menos 24 meses em barrica. Outro destaque é o Cerequio, uma das regiões vinícolas mais nobres de Barolo, situada entre La Morra e Barolo, considerada desde 1880 “uma posição muito selecionada”. Os vinhos de Cerequio, como o Michele Chiarlo Barolo DOCG Cerequio, oferecem complexidade aromática e estrutura sedosa, conquistando apreciadores em Amazonas e em todas as regiões de consumo seleto.

Nos bastidores, profissionais do setor revelaram ao DE que a análise sensorial minuciosa dos crus italianos é tema recorrente em masterclasses e cursos de especialização, inclusive em pescarias gastronômicas de alto padrão promovidas por associações do segmento. A busca por singularidade e tradição motiva produtores a manterem métodos ancestrais, tornando esses vinhos cada vez mais valorizados no mercado internacional.

A oferta de vinhos de cru no Brasil está em crescimento, com importadoras investindo em portfólios exclusivos e ampliando a distribuição em várias cidades. Uma das referências é a Porto a Porto, empresa com mais de 25 anos no segmento, que importa e distribui rótulos consagrados das principais regiões produtoras do mundo. Segundo a organização da Porto a Porto, o know-how adquirido permitiu expandir operações para polos como Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador e Recife, dinamizando o acesso do público às novidades do universo dos crus e fortalecendo a cadeia produtiva do setor em períodos de alta sazonalidade.

A empresa também destacou ao DE que o sistema logístico robusto permite abastecer filiais mesmo durante eventos excepcionais, situação essencial quando datas como a Semana Santa impulsionam o consumo e exigem oferta de produtos premium. A Porto a Porto recomenda que profissionais do trade e consumidores acessem a plataforma B2B para conhecer todo o portfólio de crus, dos clássicos franceses aos inovadores italianos, valorizando cultivos de excelência e promovendo o lema “beba menos, beba melhor”.

O cenário global aponta para uma valorização crescente dos vinhos de cru, tendência confirmada por números recentes publicados por institutos europeus. Em 2023, o comércio internacional de Grand Crus franceses e Barolos de MGA movimentou mais de €2,8 bilhões, com alta de 12% sobre o ano anterior, segundo levantamento apresentado durante o maior salão de vinhos do continente. Com perspectivas positivas, a projeção é que a valorização desses rótulos se mantenha ao longo de 2024, acompanhando o movimento internacional de profissionais, turistas e consumidores em busca de experiências autênticas.

Por fim, especialistas ressaltam que entender o conceito de cru permite não só aprimorar o paladar, mas também reconhecer o valor de regiões, vinhedos e produtores que, geração após geração, mantêm viva a tradição da excelência em cada garrafa. O futuro da viticultura de terroir, segundo as organizações consultadas pelo DE, dependerá do equilíbrio entre inovação e respeito pelas origens, garantindo que rótulos únicos possam permanecer acessíveis ao público brasileiro mesmo diante dos desafios econômicos.