De ‘periferia’ do Rio a maior PIB do Brasil: como São Paulo virou o Estado mais rico do país
Até meados do século 19, São Paulo era uma província sem grande relevância econômica, política ou demográfica. Para especialistas, a transformação passa por fatores históricos, pela evolução da rede de transportes e pela construção de um ‘poder simbólico’.
A cidade de São Paulo completa 472 anos neste domingo (25/1). Com mais de 11 milhões de habitantes, a maior metrópole do Brasil se tornou um centro cultural e financeiro, sendo também o principal motor do Estado mais rico do país, que leva o mesmo nome.
Se fosse um país, o estado de São Paulo teria uma economia maior que a da Argentina. Em 2024, ele registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3,5 trilhões — quase o triplo do segundo colocado no ranking nacional, o Estado do Rio de Janeiro, com R$ 1,3 trilhão.
Mas nem sempre foi assim. Até meados do século 19, São Paulo era uma província sem grande relevância econômica, política ou demográfica.
O Censo de 1872, o primeiro levantamento populacional do país, estimou cerca de 30 mil habitantes na capital paulista. No mesmo ano, a cidade do Rio de Janeiro tinha aproximadamente 270 mil moradores.
A transformação que viria nas décadas seguintes é, nas palavras do jornalista e historiador Rafael Cariello, “o tipo de coisa que acontece pouco na história econômica mundial”.
> “São Paulo era uma província que importava pouco e era uma espécie de periferia do Rio”, afirma.
Cinco décadas depois, o Censo de 1920 mostrava uma população 19 vezes maior na capital paulista: cerca de 580 mil habitantes.
Ainda não havia o cálculo do PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos, para medir a riqueza no Brasil Imperial. Mas era possível ter uma ideia de quais províncias eram mais ricas.
Um dos indícios era o volume de impostos arrecadados pelo governo central. Outro, o que entrava e saía pelos portos.
> “Sabemos que São Paulo era relativamente pobre ou, pelo menos, não tão rica quanto outras províncias pelos impostos arrecadados pelo governo central. E, grosso modo, eram essas as que importavam ou exportavam em maior volume”, explica o pesquisador.
As províncias mais ricas do país se concentravam nas regiões produtoras de commodities como a cana-de-açúcar para exportação, nas Minas Gerais do ouro e na capital do país, o Rio de Janeiro (de 1763 a 1960).
Mesmo com solo fértil e terras propícias para a agricultura, São Paulo tinha produção agrícola menor do que outras regiões do país.
Como, então, uma província periférica e relativamente pobre se transformou no Estado mais rico do Brasil? A BBC News Brasil conversou com especialistas para entender os caminhos que levaram São Paulo concentrar poder econômico no país.
O DESAFIO DE TRANSPORTE
Para produzir e exportar mais, São Paulo tinha que resolver um problema: a Serra do Mar.
A ligação entre o interior e o litoral, por onde escoavam os produtos para exportação, exigia a travessia de uma região montanhosa tão íngreme que recebeu dos colonizadores portugueses o apelido de “a muralha”.
Por séculos, esse percurso foi feito por trilhas, muitas delas foram abertas e usadas por povos indígenas, como o antigo Caminho do Peabiru — uma rota indígena criada antes da colonização, que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico.
A primeira estrada pavimentada veio só no fim do século 18. Concluída em 1792, a Calçada no Lorena era estreita e sinuosa: 50 km com 133 curvas do alto da serra até Santos.
> “O planalto paulista era um dos terrenos mais férteis e bons para cultivo no Brasil, desde sempre. Mas era muito caro levar qualquer coisa de lá para o litoral ou trazer algo do litoral para o planalto pelo custo de transporte”, diz Cariello.
A chegada da ferrovia no Estado foi a grande revolução para a economia paulista. A São Paulo Railway Company ligava a capital paulista a Jundiaí.
Construída com capital inglês, a ferrovia também recebeu investimentos dos produtores de café paulistas porque seria por ela que a produção seria transportada até o Porto de Santos.
Na mesma época, países como os Estados Unidos passavam a consumir grandes volumes de café. Com um mercado externo em expansão e infraestrutura mais eficiente, as plantações do grão se espalharam para outras partes do Estado.
FIM DA ESCRAVIDÃO E MIGRAÇÕES
Em 1850, o Brasil proibiu o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. A decisão foi tomada, em grande parte, por pressão política da Inglaterra, que via no país um potencial mercado consumidor para seus produtos industrializados.
São Paulo passou a incentivar a imigração, principalmente de europeus, para suprir as demandas da produção de café.
Entre meados do século 19 e o final dos anos 1970, a antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, na capital paulista, recebeu cerca de 3 milhões de pessoas. Em 1891, o edifício abrigou aproximadamente 90 mil imigrantes — o triplo da população que São Paulo tinha apenas duas décadas antes, em 1872.
Esses imigrantes não apenas trabalharam nas lavouras de café, mas também ajudaram a tornar mais dinâmica a economia local, criando um mercado consumidor e empreendendo em pequenos negócios.
A demanda por roupas, sapatos, chapéus e outros bens impulsionou o surgimento das primeiras indústrias no Estado.
A migração, no entanto, não se restringiu a imigrantes estrangeiros. A partir do século 20, São Paulo passou a receber também fluxos de migrantes vindos de outras regiões do país, especialmente do Nordeste. Em 1929, pela primeira vez, o número de brasileiros que chegavam ao Estado superou o de estrangeiros.
INDUSTRIALIZAÇÃO
Embora esse primeiro impulsionamento da indústria, o Estado ainda dependia muito do café. A virada mais forte para a indústria veio a partir da crise de 1929.
O mundo entrou em colapso econômico, e o Brasil teve dificuldade de importar produtos, principalmente os industrializados.
São Paulo já tinha aqui uma base industrial que podia responder a essa impossibilidade do que o país tinha de importar produtos, explica Elizabeth Balbachevsky, professora associada ao departamento de Ciência Política da USP.
Com Getúlio Vargas, o Brasil passa a adotar, a partir de 1930, uma política de proteção à indústria nacional.
Nas décadas seguintes, o café começa a perder espaço como motor da economia paulista, enquanto o Estado incentiva outras atividades econômicas.
A CONSTRUÇÃO DA ‘SUPERIORIDADE PAULISTA’
Elizabeth Balbachevsky argumenta que parte do sucesso econômico de São Paulo se deve ao fato de a província não ter sido importante no projeto colonial português. Para ela, isso teria protegido a formação institucional do Estado de uma caraterística fundamental de outras regiões, o patrimonialismo.
Segundo ela, essa relativa ausência de uma lógica patrimonialista teria aberto espaço para uma iniciativa capitalista mais autônoma e menos dependente.
Mas essa explicação é contestada pelo sociólogo e pesquisador Jessé Souza, autor de mais de 20 livros, entre eles A Elite do Atraso (Editora Leya) e Classe Média no Espelho (Sextante).
Para ele, o diferencial paulista não foi institucional, mas simbólico. Após a derrota de São Paulo no levante de 9 de julho de 1932, a elite local percebeu que precisava estabelecer domínio para consolidar poder político, econômico e racial.
Para Souza, esse processo começa com a criação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1894, mas se consolida com a fundação da USP, nas décadas seguintes.
Para ele, a elite paulista foi capaz de repaginar o escravismo sob a linguagem da moralidade, da modernidade e da meritocracia.
Esse imaginário, diz Souza, foi fundamental para a exclusão política e econômica da maior parte da população brasileira.
Segundo ele, o investimento nessa narrativa, por meio de institutos, universidades, jornais, rádios e televisões, foi central para manter São Paulo no centro do poder.
Em resumo, a ascensão de São Paulo de uma província periférica a maior PIB do Brasil foi resultado de uma complexa interação de fatores históricos, econômicos, políticos e simbólicos, que moldaram o caminho de desenvolvimento econômico e cultural do Estado ao longo dos séculos. E, apesar das diferentes interpretações sobre as raízes desse crescimento, é inegável o papel central que São Paulo desempenha no cenário nacional e internacional como uma potência econômica e cultural em constante evolução.




