Uma decisão da Justiça paulista abalou o setor de pagamentos ao obrigar as gigantes Mastercard, Elo, Visa e American Express a depositarem em juízo cerca de R$ 49 milhões devidos a um cliente da EntrePay, instituição recentemente liquidada pelo Banco Central. No cerne do impasse estão valores transacionados em maquininhas da EntrePay, mas nunca repassados ao Grupo Tauá de hotéis. A crise levanta dúvidas sobre a segurança de quem usa cartões e preocupa empresas que recebem por vendas eletrônicas. O que muda para quem depende das operações desse mercado?
Esse episódio é mais um capítulo do embate sobre a responsabilidade das bandeiras e agentes do mercado de pagamentos diante da quebra de players como a EntrePay. O contrato do Grupo Tauá com a intermediadora previa R$ 25 milhões mensais em repasses. A interrupção ocorreu em março, quando a EntrePay foi liquidada pelo Banco Central. A rede hoteleira recorreu à justiça após não receber R$ 49 milhões, já descontados dos hóspedes, mas retidos no sistema. O caso arrasta operadores renomados para o centro de uma discussão que pode redefinir como repasses e garantias funcionam no Brasil.
Procurados, Visa, Mastercard, Elo e American Express não comentaram a ordem judicial. A decisão do juiz Fabio de Souza Pimenta, da 32ª Vara Cível de São Paulo, manteve que as bandeiras “detêm todo o controle sobre a integralidade do fluxo financeiro do arranjo”. Mesmo assim, as empresas alegam não controlar os recursos, transferindo a responsabilidade para o liquidante nomeado pelo Banco Central. EntrePay nega irregularidades. “A consequência pode ser elevação dos custos operacionais, pois todos vão criar reservas de risco”, afirma Filippe Vieites, do WFaria Advogados. A Elo reforça atuar “em conformidade” com regras e manter diálogo com órgãos do sistema financeiro.
Pagamento milionário redefine regras do setor
O curioso nesse processo está na decisão inédita da Justiça de responsabilizar financeiramente as próprias bandeiras, que tradicionalmente afirmam não operar recursos e sim apenas gerenciar fluxos e regras do ecossistema de pagamentos. Agora, terão de repassar o montante diretamente, sob pena de sanções. Esse movimento abre um precedente importante num setor que até então se respaldava em contratos técnicos para evitar esse tipo de cobrança direta.
O contrato do Grupo Tauá serve de alerta para milhares de estabelecimentos que dependem de repasses automáticos para manter suas operações — especialmente no contexto de liquidações extrajudiciais como a da EntrePay. A discussão ganha corpo porque recentemente outros episódios similares já haviam gerado insegurança, como na quebra do Will Bank, com prejuízos bilionários. Acompanhe evoluções desse cenário na editoria economia do DE.
Para empresas e consumidores, a decisão pode refletir elevar custos operacionais embutidos nas taxas e, ao mesmo tempo, trazer mais confiança de que valores de vendas eletrônicas não ficarão à mercê de processos burocráticos longos. No entanto, advogados alertam: as instituições podem reforçar controles e passivos, impactando o dia a dia de negócios que dependem do fluxo de pagamentos digitais.
Impasse expõe brechas e urgência de revisão
O pano de fundo do processo é a fragilidade do sistema diante da falência ou liquidação de intermediários. Bancos e bandeiras, até agora, tinham respaldo para reter ou repassar valores só mediante liberação oficial do Banco Central. Agora, a Justiça pressiona para que as bandeiras assumam responsabilidades diretas, invertendo a lógica da cadeia de liquidação e criando jurisprudência.
Historicamente, decisões semelhantes eram raras. O caso da EntrePay, porém, foi precedido pela liquidação do Will Bank, episódio que deixou rombo bilionário no sistema e já gerava apreensão em instituições financeiras—veja em justiça. Desde então, o BC tenta fortalecer regras para que recursos cheguem ao destino final, mesmo em situações de crise. Há resistência dos envolvidos, que alegam falta de mecanismos práticos para cumprir tais decisões.
A mudança de postura, ainda em discussão nos tribunais, causa apreensão em empresas do setor, que analisam repassar riscos para clientes finais. Pequenos comerciantes, dependentes do crédito rápido das vendas no cartão, podem ser especialmente afetados se o movimento levar à elevação de custos e mais burocracia nas transações do dia a dia.
Justiça desafia papel das bandeiras no fluxo financeiro
A decisão definitiva deve definir até onde vai o poder – e a vulnerabilidade – das bandeiras que, até então, funcionavam como árbitros e não como depositários do dinheiro. O juiz apontou que o controle dos fluxos, fundamental para autorizar pagamentos, justifica a responsabilização. O caso provoca reação em todo o mercado de pagamentos, que debate qual o limite das atribuições desses agentes.
Especialistas apontam que o caso abre espaço para novas interpretações de responsabilidade solidária em cadeia de pagamentos eletrônicos, com impactos que poderão ser sentidos em outras liquidações futuras—veja mais em economia. Para advogados, decisões como essa podem esvaziar a liquidação promovida pelo BC e fragilizar a confiança dos participantes do sistema.
Nos próximos meses, o andamento do processo vai nortear estratégias de defesa das bandeiras e possíveis revisões regulatórias. O mercado acompanha atento, sabendo que a definição desse caso orientará contratos futuros, repasses e garantias a todos que lidam diariamente com pagamentos digitais, de grandes redes varejistas a microempreendedores.



