Demolição do Bloco H22 de Oscar Niemeyer no DCTA, em São José dos Campos

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Conjunto de prédios criado por Oscar Niemeyer no DCTA é demolido em São José dos Campos

Bloco H22, projetado por Niemeyer, já está com fachada descaracterizada; FAB diz
que prédio tem patologias estruturais.

Bloco H22, projeto de Oscar Niemeyer e construído no DCTA, está em demolição

Bloco H22, projeto de Oscar Niemeyer e construído no DCTA, está em demolição

A fachada do bloco H22, conjunto de moradias militares projetado por Oscar
Niemeyer, já não é mais a mesma. E parte da estrutura, que é um dos marcos da
arquitetura moderna brasileira, já virou entulho. O prédio, que fica dentro do
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos,
no interior de São Paulo, está em processo de demolição.

Imagens da demolição, feitas por celular, foram obtidas pela produção da TV
Vanguarda em dezembro. A Força Aérea Brasileira (FAB) não autorizou a entrada da
equipe de reportagem no local, e se posicionou em nota, dizendo que o bloco H22
apresentou patologias estruturais e que a recuperação ou reforma não apresentava
viabilidade técnico-econômica quando comparada à construção de uma nova
edificação – leia na íntegra abaixo.

Um estudo técnico de 2003, ao qual o De teve acesso, já apontava problemas
estruturais no edifício, como rachaduras e comprometimento da base. Não há
confirmação se esse levantamento era conhecido pela administração do DCTA na
época.

O arquiteto Paulo Niemeyer, bisneto de Oscar Niemeyer, afirma que o edifício
poderia ter sido preservado e transformado em um espaço de referência
internacional.

> “Mesma coisa que a gente deixar demolir estátuas do Ceschiatti (Alfredo
> Ceschiatti) ou estátuas Aleijadinho. Você pode achar velho, mas tem que
> restaurar. Eu tenho me posicionado inclusive, em vários órgãos, eu vejo muita
> preocupação de como isso é rentável, e não como é preservar. Esse conjunto é
> muito importante, é a minha luta. (…) Você perde no DCTA uma chance absurda,
> uma oportunidade inequívoca de transformar aquilo numa referência mundial,
> como se fosse uma Brasília”, disse.

Bloco H22 em demolição, no DCTA, em São José dos Campos. — Foto:
Reprodução

O COMPLEXO

O bloco H22 fica dentro da área do DCTA, criado em 1954 para dar suporte ao
Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das principais instituições de
ensino do país. Hoje, o complexo reúne 12 organizações militares dedicadas ao
ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias aeroespaciais.

O projeto do bloco H22 está entre as primeiras obras de Oscar Niemeyer em São
Paulo e, ainda na década de 1940, já incorporava soluções de ventilação natural
e conceitos de conforto ambiental.

Parte da estrutura do bloco H22 já virou entulho. — Foto: Reprodução

PROJETO VETADO POR DUTRA

O prédio foi resultado de um concurso vencido por Niemeyer, mas o arquiteto teve
o nome vetado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra por motivos políticos,
já que era filiado ao Partido Comunista. Para contornar a situação, o
idealizador do DCTA, marechal Casimiro Montenegro Filho, fez com que os
arquitetos Fernando Saturnino de Britto e Rosendo Mourão assinassem oficialmente
o projeto.

O arquiteto Flávio Mourão, filho de Rosendo, afirma que os problemas do prédio
eram conhecidos há anos e que a falta de manutenção agravou a situação, mas que
é preciso preservar a história da arquitetura brasileira.

> “Vários prédios já mostram sinais de deterioração, sem manutenção e sem
> correção dos problemas. No caso do H22, isso já era sabido, só que a situação
> foi se agravando ao longo dos anos (…). Mas, ninguém é só presente, temos
> que valorizar nossa história, para construir um futuro mais sólido”, afirmou.

Bloco H22 fica dentro da área do DCTA e foi criado em 1954 por Oscar Niemeyer. —
Foto: Reprodução

O QUE DIZ O DCTA?

A FAB se pronunciou em nota oficial. Confira na íntegra:

“A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Ciência e
Tecnologia Aeroespacial (DCTA), informa que o Bloco H-22 foi construído na
década de 1950. Ao longo dos anos, fissuras e outras manifestações patológicas
observadas na estrutura foram tratadas de forma pontual, por meio de
intervenções corretivas localizadas, compatíveis com o grau de severidade
aparente à época. Essas ações estavam alinhadas às práticas usuais de
manutenção, considerando as limitações orçamentárias e a inexistência, naquele
período, de indícios técnicos conclusivos que justificassem intervenções
estruturais de grande porte.

Entre 2003 e 2016, não houve intervenção estrutural ampla ou tentativa de
recuperação integral do edifício, justamente porque as manifestações observadas
se apresentavam de forma gradual e localizada, sendo tratadas conforme surgiam.

Com a reincidência e a evolução das manifestações patológicas, resultantes da
fragilização do terreno e da consequente perda de capacidade de suporte do solo,
em 2016 foram iniciados estudos técnicos, considerando o histórico de
patologias, o estado de conservação e as condições estruturais do conjunto.
Diante desse quadro, a edificação começou a ser desocupada preventivamente,
medida adotada para preservar vidas e evitar riscos de acidentes.

Por ocasião da elaboração do Relatório Técnico em 2019, com base em metodologias
atualizadas, critérios normativos vigentes e inspeções aprofundadas, os
profissionais responsáveis pela avaliação concluíram pela inviabilidade
técnico-econômica de recuperação ou reforma do bloco, sobretudo quando comparada
à construção de um novo prédio que atendesse às necessidades operacionais e de
segurança. Por conseguinte, com base nessas análises, em 2023, o Comando da
Aeronáutica (COMAER), por intermédio da autoridade competente e amparado por
pareceres técnicos, aprovou o processo para a demolição da edificação, o qual já
está em execução. A inviabilidade apontada não decorre exclusivamente da
manutenção rotineira, mas da análise integrada da relação custo-benefício, da
segurança estrutural e da expectativa de vida útil remanescente da edificação,
conforme critérios técnicos consolidados.

Ressalta-se, ainda, que o trabalho de graduação, intitulado “Proposta de
metodologia para estudo de patologias nas edificações do CTA”, possuía caráter
estritamente acadêmico, desenvolvido com finalidade didático-científica, sem
especificidade de laudo técnico oficial, voltado ao estudo de patologias
construtivas, por meio da criação de uma metodologia para identificar possíveis
causas de danos e de problemas estruturais em algumas edificações do DCTA,
utilizando uma ficha padronizada.

O referido estudo reconhece, em sua conclusão, que manifestações patológicas
significativas demandam elevados investimentos financeiros para sua correção.
Edificações do porte e da complexidade do Bloco H-22, quando acometidas por
patologias estruturais progressivas, exigem intervenções de alto custo,
envolvendo reforços extensivos, substituição de elementos estruturais e longos
períodos de indisponibilidade de uso, o que torna a recuperação economicamente
inviável em comparação à alternativa de demolição e reconstrução.

É válido destacar que a FAB nutre profundo respeito ao legado do arquiteto Oscar
Niemeyer, figura incontestável da cultura, da história e do patrimônio
arquitetônico brasileiro, mantendo, de forma ininterrupta, compromisso
institucional, ético e responsável com a preservação da cultura histórica, bem
como com o devido cuidado e respeito às obras arquitetônicas de relevância
nacional, principalmente aquelas concebidas pelo brilhante arquiteto Niemeyer.

A FAB reafirma, por fim, seu compromisso institucional com a transparência, com
a segurança das instalações, com a preservação da memória arquitetônica que
compõe a história desta Organização Militar e do país, bem como com a
responsabilidade de assegurar condições adequadas e ambientes seguros,
priorizando sempre a integridade física de todos os usuários, por meio da adoção
das melhores práticas de engenharia na gestão de seu patrimônio imobiliário.”

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