BELO HORIZONTE (MG) — O sumiço de centenas de peças do Palácio das Mangabeiras, antiga residência oficial dos governadores de Minas Gerais, virou caso de polícia e acirra a disputa política no estado. A Polícia Federal foi acionada nesta segunda-feira (6) para investigar o possível desaparecimento e a deterioração de um acervo que inclui obras de artistas como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, em meio a acusações contra o ex-governador Romeu Zema (Novo) e o atual governador Mateus Simões (PSD).
O patrimônio cultural do MINAS GERAIS está no centro do impasse. A deputada Bella Gonçalves (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos, protocolou uma notícia-crime com base em fiscalizações da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa. O documento aponta indícios de crimes contra o patrimônio público, incluindo peculato e dano qualificado, e pede que a PF assuma as investigações devido ao tombamento do conjunto paisagístico da Serra do Curral pelo IPHAN.
Palácio vazio e obras danificadas: o cenário ‘alarmante’ encontrado por deputados
Em visita ao Palácio das Mangabeiras em julho de 2026, os parlamentares encontraram apenas cinco itens do mobiliário original: uma mesa de centro, duas poltronas, um sofá e um piano. Centenas de outras peças, como pratarias, louças e livros, não foram localizadas. O imóvel, projetado por Oscar Niemeyer, deixou de ser residência oficial em 2019 por decisão de Zema e passou a ser gerido pela Codemge, sediando eventos privados como a Casa Cor.
O que mais chocou foi o depoimento do próprio secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira. Em prestação de contas à ALMG, ele admitiu que, em 2020, encontrou 44 obras guardadas de forma inadequada pela Polícia Militar, cobertas apenas por tecidos. Entre os danos relatados, um biombo de quatro metros de Di Cavalcanti “craquelou” e “muitas obras” sofreram danos materiais durante a retirada e o armazenamento.
Biombo de Di Cavalcanti reaparece, mas paradeiro de 294 peças segue sob sigilo
Uma reportagem localizou o biombo de Emiliano Di Cavalcanti, uma das peças mais valiosas do acervo, exposto no hall de entrada do Palácio da Liberdade desde abril. A coleção de livros da biblioteca do Palácio do Governo foi transferida para a Biblioteca Pública Estadual. Mas o estado ainda não apresentou um inventário público detalhado de pelo menos 294 itens retirados das Mangabeiras. O governo informou que o acesso ao documento é restrito a servidores autorizados, o que gerou críticas da oposição.
O Tribunal de Contas de Minas Gerais informou que a representação foi recebida e está em análise preliminar. Se admitida, será transformada em processo e distribuída a um conselheiro relator, mas tramitará sob sigilo. A Polícia Federal diz não se manifestar sobre investigações em andamento. O governo estadual, por sua vez, afirma que todos os bens estão cadastrados e inventariados nos sistemas oficiais, e que parte foi destinada a equipamentos públicos para preservação. O ex-governador Romeu Zema não se pronunciou até o momento.



