A expectativa de um El Niño intenso está forçando um movimento significativo no setor de saneamento, que se vê na obrigação de ampliar suas estratégias frente a eventos climáticos extremos. Concessionárias estão investindo mais em tecnologia, monitoramento e infraestrutura para garantir a segurança hídrica. A previsão indica uma diminuição das chuvas no Norte e Nordeste e, ao mesmo tempo, elevação das temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste, o que pode acabar comprometendo a infraestrutura já existente. Isso traz à tona a necessidade de uma gestão hídrica cada vez mais eficiente.
A situação é complexa, pois não se trata apenas da disponibilidade de água, mas também da questão de drenagem em áreas urbanas que podem ser severamente afetadas. “Muito se fala em água e esgoto, mas tem também a questão da drenagem”, pontua Carlos Lebelein, sócio da LMDM Consultoria. O excesso de chuvas no Sul, por exemplo, pode sobrecarregar os sistemas de drenagem, levando a enchentes e danos à propriedade. A relação do fenômeno com o aumento das temperaturas globais exigirá uma atenção constante e novos paradigmas na gestão dos recursos hídricos.
Empresas como a Aegea já estão se antecipando a esses desafios. Segundo Renato Médicis, vice-presidente para as regiões Norte e Nordeste da companhia, o planejamento leva em conta as especificidades regionais em relação ao El Niño, utilizando Inteligência Artificial para prever cenários com até seis meses de antecedência. Em Manaus, por exemplo, a reposição de bombas de captação no Rio Negro foi uma das ações tomadas após a seca histórica de 2024. O planejamento também inclui investimentos em novos poços e reservatórios.
Como o El Niño impacta a segurança hídrica?
As mudanças climáticas decorrentes do El Niño são um aviso claro sobre a necessidade de adaptação e resiliência no setor de saneamento. O diretor de Produção e Tratamento da Sabesp, Marco Antonio Lopez Barros, diz que a crise hídrica de 2014 e 2015 “foi uma lição dura” que está incorporada ao planejamento da companhia. Com um investimento programado de R$ 7,8 bilhões entre 2025 e 2030, a Sabesp está implementando ações robustas para enfrentar futuros desafios hídricos.
Além de combater perdas e aplicar tecnologia para detectar vazamentos, a companhia está conclusivamente ampliando a distribuição de água para as populações mais vulneráveis. A inclusão de hidrômetros inteligentes é uma parte fundamental desta estratégia. Contudo, Barros ressalta que um dos maiores desafios é equilibrar as metas de universalização com investimentos em resiliência climática.
Qual é a postura de outras concessionárias?
A Iguá Saneamento adotou medidas semelhantes, integrando a adaptação climática ao seu planejamento operacional desde 2022. A empresa desenvolve planos de segurança hídrica e centros de controle que monitoram em tempo real rios e reservatórios. “Não temos como fazer chover, mas podemos melhorar o sistema para preparar a empresa para situações mais críticas”, afirma Paula Violante, diretora de Operações. Os esforços incluem a modernização de sistemas de distribuição e planos de contingência.
A evolução na regulação também é notável. Ana Cândida, sócia do BMA Advogados, destaca que novos contratos de concessão, como o da privatização da Sabesp, já têm cláusulas específicas para enfrentar os riscos climáticos. Esta transformação é essencial para adaptar a infraestrutura a um cenário de secas e enchentes cada vez mais frequentes.
Quais são os próximos passos para o setor?
O momento exige uma reflexão profunda sobre as estratégias adotadas pelas empresas de saneamento. Conforme as temperaturas aumentam e eventos climáticos extremos se tornam rotina, as concessões precisam se adaptar rapidamente. A aplicação de tecnologias avançadas e o gerenciamento eficiente de recursos hídricos são essenciais para mitigar os impactos da crise hídrica.
Embora a margem de erro tenha se reduzido com a evolução da regulação, o setor ainda enfrenta desafios significativos, especialmente para as empresas de menor porte. A afirmação de que “não considerar as mudanças climáticas é fechar os olhos” representa um alerta para todos os atores do setor, indicando que a adaptação e a resiliência são mais necessárias do que nunca.



