PORTO ALEGRE (RS) — Uma nova espécie de réptil, considerada ancestral direto de dinossauros e crocodilos, foi confirmada a partir de um fóssil descoberto há cerca de 20 anos no município gaúcho de Dona Francisca, na Região Central do estado. O fragmento, que estava perdido desde então, foi reencontrado em 2022 durante uma revisão na coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e, após análise, revelou tratar-se de um predador de pequeno porte até então desconhecido para a ciência.
O estudo, liderado por pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi publicado na quarta-feira (10) na revista Scientific Reports. A descoberta amplia o conhecimento sobre a distribuição geográfica dos arcossauros — grupo que reúne aves, dinossauros e crocodilos modernos — e reforça a importância paleontológica do Rio Grande do Sul para o estudo da evolução desses animais.
Predador ágil do Triássico gaúcho
Batizado de Silescelida acristata, o réptil viveu há aproximadamente 240 milhões de anos, durante o período Triássico, quando os continentes ainda formavam a Pangeia. Com porte semelhante ao de um jacaré, a espécie era um predador que se locomovia com agilidade sobre quatro patas, caçando pequenas presas no ambiente que hoje corresponde ao interior do estado. Segundo informações oficiais da pesquisa, o animal media cerca de um metro de comprimento e possuía dentição adaptada para uma dieta carnívora.
O fóssil original foi escavado em 2002, mas acabou sendo extraviado por décadas. Somente em 2022, durante uma curadoria de material na PUCRS, o fragmento foi localizado e encaminhado para reavaliação. A datação e as características morfológicas únicas confirmaram que se tratava de uma espécie inédita para a ciência.
Importância para a paleontologia brasileira
Em declaração pública, o paleontólogo Maurício Garcia, coordenador da equipe da UFSM, destacou que a descoberta “amplia significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais e reforça a importância do Brasil para o entendimento da evolução dos ancestrais dos arcossauros”. Garcia também ressaltou que o exemplar preenche uma lacuna temporal importante para compreender como os primeiros arcossauros se diversificaram no supercontinente antes da separação das massas terrestres.
A nova espécie se diferencia de outros silesaurídeos — grupo ao qual pertence – principalmente pela crista óssea ausente na parte superior do crânio, daí o nome acristata. Os pesquisadores acreditam que o animal possa ter ocupado um nicho ecológico semelhante ao de predadores de médio porte atuais, como lagartos monitores.
A confirmação de Silescelida acristata coloca o Rio Grande do Sul mais uma vez no centro das atenções da paleontologia mundial, já que a região central do estado é considerada um dos mais ricos sítios fossilíferos do período Triássico, com dezenas de espécies já identificadas, incluindo os primeiros dinossauros do planeta.



