PORTO ALEGRE (RS) — O renomado neurologista comportamental estadunidense Dr. Bruce Miller, referência mundial em demências e doenças neurodegenerativas, esteve na capital gaúcha para a Brain Week, evento promovido pelo Instituto do Cérebro (InsCer), e definiu a demência frontotemporal (DFT) como “talvez a doença mais difícil que conhecemos na neurologia”. A condição, que afeta os lobos frontais e temporais do cérebro, responsáveis pelo comportamento, personalidade e linguagem, provoca deterioração progressiva e ainda não tem cura.
Durante sua passagem por Porto Alegre, Miller destacou que as alterações comportamentais tornam o tratamento particularmente desafiador. “A personalidade do ser humano muda. Alguém que é amoroso e empático torna-se cruel. Alguém que era muito socialmente adequado e correto torna-se vulgar e grosseiro. Ver isso acontecer com alguém que você ama, que parece não te amar mais, é profundamente difícil”, afirmou o especialista em declaração à imprensa.
Segundo o médico, a DFT pode levar os pacientes a problemas de ordem social, como prisões por comportamentos antissociais ou até agressões. “Às vezes acabam na prisão, porque cometem comportamentos antissociais. Às vezes são tratadas cruelmente por outros porque sua personalidade mudou. O comportamento delas pode levá-las a serem agredidas. Elas sofrem enormemente”, relatou.
Impacto sobre cuidadores é mais severo do que no Alzheimer
O neurologista ressaltou que, embora os pacientes com DFT muitas vezes estejam menos conscientes de sua condição — já que a doença ataca as áreas cerebrais ligadas à capacidade de sofrer —, o peso recai sobre os familiares e cuidadores. “Aprendemos que os cuidadores sofrem o dobro de sintomas psiquiátricos do que as pessoas que têm um ente querido com a doença de Alzheimer”, disse Miller. Ele acrescentou que esses cuidadores apresentam maior risco de morte prematura e doenças psiquiátricas ou físicas graves, consequência direta da ruptura social imposta pela DFT.
Caso Bruce Willis trouxe visibilidade à doença
A demência frontotemporal ganhou notoriedade após o diagnóstico do ator Bruce Willis, confirmado pela família em 2023. O astro de Hollywood havia se afastado da carreira um ano antes devido a um distúrbio de linguagem, que se revelou um sintoma da DFT. O caso ajudou a alertar o público sobre uma enfermidade que, apesar de menos conhecida que o Alzheimer, provoca um impacto devastador tanto nos pacientes quanto em seus círculos de convivência.


