CAMPINAS (SP) — Uma égua de 400 kg chamada Moana promoveu momentos de profunda emoção e bem-estar entre pacientes psiquiátricos do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e moradores de um lar de idosos nesta terça-feira (2), em SÃO PAULO. A ação, organizada pela ONG Medicão Brasil, teve como objetivo utilizar a terapia assistida por animais para reduzir o estresse e estimular a socialização de pessoas em situação de vulnerabilidade física e mental.
No asilo, a presença de Moana transformou a rotina dos internos. Heliginete de Carvalho Oliveira, de 101 anos, emocionou-se ao se aproximar do animal. Ela contou à imprensa local que, na infância, era proibida pelo pai de chegar perto de cavalos. “Achei linda, maravilhosa”, afirmou, visivelmente tocada. O encontro resgatou memórias afetivas e arrancou lágrimas de outros idosos, como o ex-aviador Bimbo Alcindo de Oliveira, que chorou enquanto acariciava a égua.
A pianista Íris Horta de Carvalho, de 86 anos, também celebrou a visita. “Teve alegria com o piano de manhã e alegria de tarde com o cavalo, mas a do cavalo é insubstituível”, declarou aos repórteres. Segundo a equipe do lar, o nível de interação entre os moradores aumentou visivelmente durante a atividade, comprovando o potencial terapêutico do contato com animais.
Interação com pacientes psiquiátricos do HC da Unicamp
Antes de ir ao asilo, Moana passou pela ala de psiquiatria do Hospital de Clínicas da Unicamp. O animal foi recebido por pacientes que, em sua maioria, enfrentam longos períodos de internação e altos níveis de ansiedade. O contato direto com a égua — preparada durante mais de um ano e meio para esse tipo de intervenção — gerou reações imediatas de relaxamento e alegria.
A psicóloga Fabiana Caixeta, que coordena o programa de terapia assistida por animais no hospital, explicou à imprensa que o cortisol — hormônio ligado ao estresse — tende a cair significativamente após essas visitas. “Todo paciente interno tem um nível de cortisol muito mais alto, pelo medo, pela aflição, pela falta de esperança de saída. O que queremos com os animais é injetar dopamina e serotonina no cérebro para que essas pessoas diminuam esse cortisol”, afirmou.
Segundo a especialista, as queixas de dor física também diminuíram entre os participantes das sessões. A sociabilização, antes reduzida, tornou-se mais efetiva, com os pacientes interagindo não apenas com o animal, mas também entre si durante e após as visitas.
Preparo do animal e benefícios da terapia assistida
Para atuar em ambientes hospitalares e asilos, Moana passou por um treinamento rigoroso de 18 meses. A égua foi aclimatada a sons, cheiros e movimentos comuns em unidades de saúde, como macas, cadeiras de rodas e aparelhos médicos. A ONG Medicão Brasil, responsável pelo projeto, destaca que a seleção e o adestramento dos animais são fundamentais para garantir a segurança e a eficácia das intervenções.
Os benefícios da terapia assistida por animais são amplamente documentados. Além da redução do estresse, o contato com cavalos, cães e outros bichos estimula a produção de hormônios ligados ao prazer, melhora o humor e incentiva a comunicação. No caso de pacientes idosos, há ainda o resgate de memórias positivas, como visto com Heliginete. Para aqueles com transtornos psiquiátricos, a interação oferece um alívio temporário da rotina hospitalar e uma chance de experimentar afeto em um ambiente frequentemente marcado pela dor e pela solidão.
A iniciativa em Campinas reforça o papel crescente da zooterapia como complemento aos tratamentos convencionais. A equipe da Unicamp planeja expandir o programa, incluindo visitas regulares de Moana a outros setores do hospital e a instituições de longa permanência. Enquanto isso, os moradores do lar de idosos e os pacientes psiquiátricos já colecionam lembranças de um dia que uniu medicina, cuidado e emoção.





