Enviados dos EUA acumulam negociações sobre Irã e Ucrânia e geram dúvidas sobre chances de acordo
Diplomacia simultânea em Genebra levanta críticas sobre excesso de tarefas, falta de experiência e estratégia de Trump para alcançar vitórias globais
DE MUNDO
ENVIADOS DOS EUA ACUMULAM NEGOCIAÇÕES SOBRE IRÃ E UCRÂNIA E GERAM DÚVIDAS SOBRE CHANCES DE ACORDO
DIPLOMACIA SIMULTÂNEA EM GENEBRA LEVANTA CRÍTICAS SOBRE EXCESSO DE TAREFAS, FALTA DE EXPERIÊNCIA E ESTRATÉGIA DE TRUMP PARA ALCANÇAR VITÓRIAS GLOBAIS
18 de fevereiro de 2026, 04:20 h
Kushner e Witkoff, enviados especiais de Trump para negociações sobre a guerra na Ucrânia e o acordo nuclear com o Irã (Foto: Reuters) Apoie o 247 Siga-nos no Google News
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de colocar seus principais enviados para conduzir duas frentes de negociações internacionais no mesmo dia, em Genebra, provocou perplexidade entre especialistas em política externa e reacendeu dúvidas sobre a viabilidade de avanços concretos em crises complexas e prolongadas.
O esforço diplomático envolveu simultaneamente o impasse nuclear com o Irã e as tratativas para encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Segundo reportagem da Reuters, a agenda intensa foi liderada pelo enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e pelo genro de Trump, Jared Kushner, ambos encarregados de transitar entre reuniões de alto risco em diferentes pontos da cidade suíça, sob forte esquema de segurança. Para analistas ouvidos pela agência, a concentração de negociações tão sensíveis em um único dia e local gerou questionamentos sobre organização, prioridades e sobre a real capacidade dos enviados de obter resultados.
Trump, que costuma afirmar que pode resolver guerras e conflitos rapidamente, busca ampliar sua coleção de acordos internacionais e, de acordo com especialistas, também mira o prestígio político que tais vitórias poderiam trazer, inclusive em uma eventual campanha por reconhecimento internacional como o Prêmio Nobel da Paz. No entanto, críticos apontam que a pressa e o formato adotado não refletem a complexidade das duas crises.
“Trump parece estar mais focado na quantidade do que na qualidade, em vez do trabalho difícil e detalhado da diplomacia”, afirmou Brett Bruen, ex-conselheiro de política externa do governo Obama e atualmente diretor da consultoria Global Situation Room. “Abordar as duas questões ao mesmo tempo e no mesmo lugar não faz muito sentido”, completou.
NEGOCIAÇÕES COM O IRÃ
O primeiro compromisso em Genebra foi dedicado ao impasse sobre o programa nuclear iraniano. As conversas ocorreram de forma indireta entre a equipe americana e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, com mediação de Omã. Após cerca de três horas e meia de negociações, os dois lados sinalizaram que houve algum progresso, mas não indicaram qualquer possibilidade imediata de um acordo.
A falta de avanços decisivos mantém o clima de tensão no Oriente Médio. Especialistas observam que, enquanto o processo diplomático continua, Trump pode seguir expandindo sua presença militar na região, reforçando a mensagem de que uma ação militar continua sendo uma possibilidade.
“Enquanto o processo diplomático continua, Trump pode manter a expansão de seu grande reforço militar perto do Irã, deixando claro que o uso da força continua em consideração”, apontou a reportagem. O cenário, segundo a Reuters, mantém a região em alerta, diante do temor de que eventuais ataques americanos possam desencadear uma escalada de proporções maiores.
UCRÂNIA E RÚSSIA
LOGO APÓS AS DISCUSSÕES SOBRE O IRÃ, OS ENVIADOS AMERICANOS SE DESLOCARAM PARA O HOTEL INTERCONTINENTAL, ONDE COMEÇARAM AS NEGOCIAÇÕES SOBRE A GUERRA ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA. O ENCONTRO MARCOU O INÍCIO DE DOIS DIAS DE CONVERSAS VOLTADAS A BUSCAR UMA SAÍDA PARA O CONFLITO, CONSIDERADO O MAIOR EM TERRITÓRIO EUROPEU DESDE O FIM DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, EM 1945.
Apesar da promessa feita por Trump durante a campanha presidencial de 2024, quando declarou que poderia encerrar a guerra em um dia, as expectativas para um avanço significativo foram descritas como baixas.
CRÍTICAS À DIPLOMACIA AMERICANA
A ESTRATÉGIA AMERICANA DE CONCENTRAR DUAS NEGOCIAÇÕES DESSE PORTE EM UMA MESMA EQUIPE REFORÇOU DÚVIDAS SOBRE A DISPOSIÇÃO REAL DE WASHINGTON EM BUSCAR SOLUÇÕES CONSISTENTES. UM DIRIGENTE REGIONAL PRÓXIMO À LIDERANÇA IRANIANA AVALIOU QUE O FORMATO ADOTADO PODE SER CONTRAPRODUCENTE.
“A abordagem corre o risco de sobrecarga”, disse o oficial, sob condição de anonimato. “Isso se parece com uma sala de emergência com dois pacientes gravemente doentes e um único médico incapaz de dar atenção sustentada a qualquer caso, aumentando a probabilidade de fracasso.” O analista Mohanad Hajj-Ali, do Carnegie Middle East Center, também criticou a concentração de responsabilidades nas mãos de Witkoff e Kushner. “Ter uma equipe de Witkoff e Kushner encarregada de resolver todos os problemas do mundo é, francamente, uma realidade chocante”, afirmou.
Além disso, alguns especialistas apontaram que ambos carregam uma trajetória mais ligada ao setor imobiliário de Nova York do que à diplomacia tradicional, o que poderia representar desvantagem frente a negociadores experientes como Araqchi e representantes russos envolvidos nas conversas sobre a Ucrânia.
AUSÊNCIA DE MARCO RUBIO
Outro fator que alimentou questionamentos foi a ausência do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, descrito como o principal diplomata do governo Trump e conhecido por sua familiaridade com temas internacionais. Para analistas, a condução das negociações sem Rubio reforça a percepção de que a diplomacia formal tem perdido espaço dentro da estrutura do governo. Procurada pela Reuters, a porta-voz da Casa Branca Anna Kelly defendeu a estratégia do presidente. Ela afirmou que Trump e sua equipe “fizeram mais do que qualquer outra pessoa para reunir os dois lados, interromper as mortes e entregar um acordo de paz” na Ucrânia. Kelly também criticou opositores anônimos da abordagem adotada, mas não respondeu diretamente às perguntas específicas encaminhadas pela agência.
WITKOFF, “ENVIADO PARA TUDO”
AUTORIDADES DO GOVERNO AMERICANO TÊM DEFENDIDO A ATUAÇÃO DE WITKOFF E KUSHNER, CITANDO A CONFIANÇA PESSOAL QUE TRUMP DEPOSITA EM AMBOS E ARGUMENTANDO QUE MÉTODOS TRADICIONAIS DE DIPLOMACIA FALHARAM AO LONGO DOS ANOS.
Witkoff, descrito como amigo de longa data do presidente e frequentemente chamado de “enviado para tudo”, teve participação importante no acordo de cessar-fogo firmado no ano passado entre Israel e Hamas, embora o processo tenha perdido força na tentativa de alcançar uma solução permanente.
Já Kushner teve papel central durante o primeiro mandato de Trump na construção dos Acordos de Abraão, que resultaram na normalização das relações diplomáticas entre Israel e alguns países árabes. No entanto, segundo a reportagem, o pacto não avançou significativamente desde o retorno de Trump ao poder, há cerca de 13 meses.
ENFRAQUECIMENTO DA DIPLOMACIA TRADICIONAL
ANALISTAS TAMBÉM DESTACARAM QUE A CAPACIDADE DE ATUAÇÃO DOS ENVIADOS FOI PREJUDICADA PELA REDUÇÃO DO APARATO DIPLOMÁTICO DOS ESTADOS UNIDOS. SEGUNDO A REUTERS, TRUMP PROMOVEU CORTES E REESTRUTURAÇÕES NO DEPARTAMENTO DE ESTADO E NO CONSELHO DE SEGURANÇA NACIONAL, COM A SAÍDA DE FUNCIONÁRIOS EXPERIENTES.
“Vimos um esvaziamento do nosso banco diplomático”, disse Brett Bruen. “Então existe a questão de saber se ainda temos as pessoas certas para trabalhar nessas grandes questões.”
Com negociações em andamento, mas sem sinais claros de desfecho, a ofensiva diplomática concentrada em Genebra expõe uma estratégia marcada por urgência política e alto risco internacional, enquanto aliados e adversários observam se a abordagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conseguirá produzir acordos reais ou apenas ampliar a instabilidade em dois dos conflitos mais delicados do cenário global.




