Estudantes da USP denunciaram nesta quarta-feira (14), graves problemas na qualidade das refeições servidas nos restaurantes universitários da instituição, com relatos de presença de insetos, alimentos deteriorados e até intoxicação alimentar sendo registrados na zona leste de São Paulo. As queixas, que se intensificaram desde o início do ano letivo, envolvem unidades como a EACH, na zona leste, e também o tradicional bandejão da Faculdade de Direito, na região central da capital.

Segundo os estudantes ouvidos pelo DE, entre os principais problemas relatados estão carunchos e outros insetos no feijão, sobremesas mofadas, frangos com aparência alterada, além do desabastecimento de proteínas e opções vegetarianas. Alunos denunciam ainda episódios recorrentes de intoxicação alimentar, agravando o cenário de insegurança alimentar dentro de um dos maiores centros universitários do Brasil.

A polêmica fez com que representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e de Centros Acadêmicos promovessem atos de protesto e denúncias formais às direções das escolas, exigindo mudanças imediatas no fornecimento das refeições e maior fiscalização sobre a empresa responsável pelo serviço, a Básica Refeições, que mantém contrato emergencial com a USP até a conclusão de nova licitação.

Denúncias alimentam protestos e mobilizam comunidade acadêmica

De acordo com os relatos coletados entre alunos da EACH, o problema da má qualidade da comida tem sido rotina nos últimos meses, colocando em xeque o compromisso institucional com a permanência estudantil. Uma das estudantes revelou ao DE episódios em que encontrou carunchos no feijão e moscas em saladas. “No mínimo, falta respeito e cuidado com a saúde da comunidade”, afirmou.

O agravamento da situação gerou protestos não apenas na zona leste, mas também em outros campi. Estudantes da Faculdade de Direito, localizada no Largo São Francisco, relataram ter encontrado larvas vivas no arroz, além de frango servido com coloração verde, indicando possível contaminação. Esses relatos impulsionaram a união dos movimentos estudantis e a mobilização de cidades do entorno, que repercutiram as denúncias nas redes sociais.

A realidade exposta nos bandejões reacende o debate sobre a importância da alimentação de qualidade na vida universitária, sobretudo para estudantes em situação de vulnerabilidade. “O acesso à comida saudável vai além do ponto de vista nutricional, é uma questão de dignidade”, explicou um membro do DCE durante assembleia realizada nesta terça-feira (13).

Consequências preocupam e ações são cobradas da USP

Entre os efeitos mais preocupantes estão os casos de adoecimento e ausência em sala de aula. Um grupo de alunos reportou que, após consumir uma refeição suspeita, ao menos três estudantes desenvolveram sintomas de intoxicação alimentar — todos tiveram que procurar atendimento médico, segundo informado pelos próprios colegas.

A direção da EACH, por sua vez, reconheceu, em nota, a gravidade dos casos e informou que o restaurante opera em regime de contrato emergencial por conta de litígios no processo licitatório. A previsão é que a troca da empresa responsável ocorra nos próximos meses, prazo considerado longo pelos representantes estudantis. Movimentos pressionam por uma solução imediata e pedem maior abertura ao diálogo entre reitoria e alunos.

Além disso, o centro acadêmico da Gestão de Políticas Públicas relata queda na diversidade de opções oferecidas, principalmente para vegetarianos. A rotina de restrições alimentares faz com que alunos de baixa renda sintam-se mais impactados — muitos dependem exclusivamente das refeições dos restaurantes universitários para garantir a nutrição diária durante o período de estudos nos campi da USP, evidenciando um desafio que extrapola o âmbito acadêmico e impacta parcela significativa da população nas grandes cidades.

Empresa terceirizada é alvo, e paralisação marca resposta estudantil

A atuação da empresa Básica Refeições, terceirizada responsável pelo preparo e entrega das refeições, está no centro dos questionamentos dos estudantes. A recorrência dos episódios negativos e a falta de opções de cardápio levantam dúvidas quanto à fiscalização contratual por parte da universidade. Até o momento, a empresa não se pronunciou formalmente sobre o caso, de acordo com apuração do DE.

Em resposta ao agravamento da situação, mais de 100 cursos aderiram à paralisação convocada para esta quarta-feira. Segundo o DCE Alexandre Vannucchi Leme, entre as principais pautas estão “melhores condições dos bandejões, fim da privatização e da ameaça da reitoria aos espaços estudantis”, além do reajuste do auxílio estudantil e isonomia entre docentes e servidores. O movimento de paralisação bloqueou o acesso a salas de aula a partir da manhã, intensificando as discussões internas e externas sobre o futuro da permanência estudantil na maior universidade pública do Brasil.

Os protestos também ganharam adesão de funcionários e servidores técnico-administrativos, que enfrentam pautas semelhantes relacionadas à qualidade das condições de trabalho e à política de terceirização dos serviços essenciais da USP. Segundo levantamento realizado por sindicatos da categoria, manifestações conjuntas estão marcadas para os próximos dias, prometendo ampliar o debate sobre o modelo de gestão dos restaurantes universitários e seu impacto na economia local e na saúde coletiva.

Repercussão e expectativas para próximos dias na USP

A repercussão dos casos não se restringe à comunidade acadêmica: autoridades sanitárias municipais e estaduais foram acionadas por representantes dos estudantes para vistoriarem as instalações e procedimentos dos bandejões. O Conselho Universitário prometeu acompanhar de perto as denúncias e já cogita instaurar comissão para averiguar falhas no controle de qualidade das refeições servidas diariamente a milhares de alunos.

Em posicionamento oficial divulgado nesta quarta-feira, a USP afirmou que “não pretende retirar nem restringir a atuação das entidades estudantis, tampouco negar o uso dos espaços historicamente ocupados por elas” e que reconhece “a importância da mobilização dos alunos”, reiterando o compromisso com o diálogo. No entanto, destacou que a solução dos problemas alimentares depende também da conclusão do novo processo licitatório para operar os restaurantes universitários em condições adequadas.

O que esperar para os próximos dias? A expectativa é de que a paralisação ganhe corpo e pressione por respostas céleres, especialmente diante da perspectiva de continuidade das denúncias. Os estudantes prometem manter piquetes e bloqueios até o fim da semana, com possível radicalização do movimento caso não haja uma resposta concreta por parte da universidade e da empresa responsável pelo serviço.

O episódio reacendeu, ainda, o debate em torno dos contratos de terceirização e do papel do Estado na garantia de serviços básicos dentro das instituições de ensino superior. Diversos especialistas alertam que a qualidade da alimentação impacta diretamente a evasão escolar e o rendimento acadêmico, exigindo políticas públicas estruturadas e investimentos contínuos.

Em meio à mobilização, a solidariedade se fortaleceu entre alunos, professores e funcionários, com apoio logístico e psicológico sendo oferecido aos estudantes afetados pela má qualidade das refeições. Nas redes de apoio interna, circulam orientações sobre como registrar denúncias formais e buscar assistência em casos de intoxicação alimentar, além do incentivo para que mais relatos cheguem às autoridades competentes.

Enquanto isso, pais e familiares de estudantes manifestam preocupação com a saúde de seus filhos e cobram, junto à universidade, garantias de supervisão e fiscalização constante dos restaurantes universitários, destacando que a segurança alimentar é pré-requisito para o pleno desenvolvimento dos futuros profissionais formados pela USP, referência em ensino público no Brasil.

Nas próximas semanas, a mobilização promete pautar discussões mais amplas sobre segurança alimentar, contratação de serviços terceirizados e papel das universidades públicas em tempos de crise. Episódios similares em outras instituições reforçam o alerta de que o tema ultrapassa os muros da USP e impacta o sistema nacional de ensino superior, exigindo monitoramento, investimento e políticas de longo prazo para garantir alimentação digna e saudável aos estudantes das principais cidades do país.