O debate sobre a atuação internacional dos Estados Unidos no combate às facções brasileiras veio à tona nesta quarta-feira (12) após o governo norte-americano enviar um recado direcionado ao presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, cobrando uma ofensiva mais contundente contra as organizações conhecidas como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). O tema já impacta discussões em setores da economia e da segurança pública, principalmente no eixo Rio-São Paulo, que concentra as raízes dessas facções.
Segundo apuração do DE junto a delegados de estados onde essas organizações surgiram, há divergências sobre o alcance efetivo de eventuais sanções ou pressões estrangeiras. Enquanto agentes da Polícia Civil de São Paulo defendem que não existe possibilidade de uma intervenção direta norte-americana em solo brasileiro, colegas do Rio de Janeiro enxergam o avanço dessas organizações criminosas com preocupação crescente e defendem uma postura mais dura, inclusive com envolvimento internacional.
O tema ganhou ainda mais relevância a partir dos desdobramentos recentes de grandes operações policiais, bem como da pressão externa por parte dos EUA, que discutem a possibilidade de classificar o CV e o PCC como organizações terroristas estrangeiras. Essa classificação, embora tenha efeitos imediatos em território americano, pode afetar negócios, medidas de cooperação jurídica e até mesmo relações diplomáticas envolvendo cidades brasileiras afetadas pelo tráfico internacional de drogas.
Avaliação jurídica sobre classificação terrorista
De acordo com um delegado do estado de São Paulo ouvido pelo DE, no ordenamento jurídico brasileiro, ainda não existe espaço para enquadrar facções como o PCC e o CV como terroristas por conta própria. Ele destaca que a legislação brasileira tipifica o terrorismo somente quando há motivação política, religiosa ou ideológica, e não apenas atividade criminosa ou violência extrema, como é o caso do tráfico de drogas.
O delegado explica ainda que a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos já conta com canais formais de cooperação internacional. “Existem tratados multilaterais e bilaterais, como os chamados MLATs, e mais recentemente o nomeado Mutual Interdiction Team (MIT), previsto para 2026”, comenta. “Esse acordo permite compartilhamento de inteligência em tempo real entre órgãos como a Receita Federal e a US Customs, especialmente em ações voltadas ao combate ao tráfico de armas e drogas”, ressalta.
Caso o governo norte-americano siga com a classificação de facções brasileiras como terroristas, seus efeitos seriam, em princípio, restritos ao âmbito da jurisdição americana. Segundo a análise, sanções econômicas, congelamento de bens e restrições de viagens visariam impedir recursos às organizações, porém, não resultariam diretamente em qualquer ação policial no território brasileiro sem aprovação das instituições nacionais.
Consequências práticas e o papel do Brasil
O entendimento majoritário entre as autoridades é que, mesmo que os EUA adiantem a classificação de terrorismo, isso não força o Estado brasileiro a adotar medidas similares automaticamente. “Para que haja perseguição penal ou sanções no Brasil, seria necessária revisão jurídica interna, debates legislativos e cooperação com instâncias superiores”, frisa outro delegado consultado pelo DE. Experiências recentes demonstram que casos de tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e crimes correlatos são de competência exclusiva da justiça brasileira, salvo quando envolvidos cidadãos ou interesses americanos diretamente.
Outro ponto muito citado pelas fontes é o potencial impacto econômico dessa decisão. Caso bancos e empresas no Brasil tenham qualquer suspeita de ligação, mesmo indireta, com organizações classificadas como terroristas pelos EUA, podem sofrer restrições para operar com instituições financeiras internacionais. Isso aumentaria o escrutínio sobre movimentações no sistema bancário local e pressionaria ainda mais setores sensíveis da economia nacional.
Nos bastidores, agentes da segurança admitem receio sobre pressões externas, sobretudo diante da soberania nacional. Contudo, destacam que mecanismos de cooperação, como troca de informações de inteligência, compartilhamento de recursos e ações conjuntas em fronteiras, já ocorrem de forma rotineira, muitas vezes envolvendo outras nações da América Latina com problemas similares relacionados ao tráfico internacional.
Pressão internacional e o conceito de narcoterrorismo
Enquanto a visão paulista é mais restritiva quanto ao papel que o termo “terrorismo” deve assumir diante do crime organizado, no Rio de Janeiro cresce o entendimento de que as facções brasileiras vêm atuando com características clássicas de insurgência armada. Essa percepção ganhou força após a megaoperação Contenção, deflagrada recentemente no estado. A ofensiva policial, que envolveu centenas de agentes e mobilizou equipes táticas nas principais comunidades fluminenses, teria mudado padrões internos no monitoramento e combate às facções.
Delegados cariocas relatam que, nas ações realizadas nos últimos meses, flagraram uso de drones para espionar atuações policiais, instalação de barricadas reforçadas, presença constante de armamentos pesados, como fuzis, e até estratégias de controle territorial semelhantes àquelas vistas em zonas de conflito mundial. Na opinião destes agentes da segurança, o avanço das organizações criminosas rompeu a lógica histórica do crime organizado, exigindo possível revisão conceitual por parte do Estado.
De acordo com autoridades estaduais do Rio de Janeiro, o uso crescente do termo “narcoterrorismo” tem razão de existir. “Hoje, grupos como o Comando Vermelho se utilizam de métodos de intimidação e dominação que vão além do simples comércio ilegal”, afirma um especialista ouvido pelo DE. Segundo ele, além do tráfico, há imposição de leis às comunidades, confrontos frequentes com forças de segurança e demonstrações de força dignas de grupos armados insurgentes. “Isso é reflexo claro do que vivenciamos nas ruas atualmente”, complementa.
O que esperar para os próximos dias?
Com o endurecimento do discurso e a colaboração internacional, cresce a expectativa sobre o rumo das investigações e operações conjuntas. Para os próximos dias, fontes do setor policial indicam que novas ações integradas podem ocorrer tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, priorizando o combate ao tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. A atenção está voltada, principalmente, ao fluxo de recursos ilícitos em grandes cidades brasileiras, já sob escrutínio de órgãos internacionais após o alerta emitido pelo governo dos EUA.
Além disso, especialistas em segurança e relações internacionais apontam para possíveis impactos concretos nas relações diplomáticas entre Brasília e Washington. O fortalecimento das parcerias, especialmente com o incremento do MIT a partir de 2026, poderá redirecionar recursos, tecnologia e força-tarefa para regiões estratégicas, ampliando o alcance das autoridades brasileiras.
Entre os desafios apontados está o risco de o debate se tornar pauta política polarizada. “Foi possível perceber que a discussão sobre enquadrar ou não as facções como terrorismo traz muitos componentes ideológicos”, explica um delegado paulista. Segundo ele, setores alinhados à direita tendem a defender o uso do conceito de terrorismo para endurecimento de penas, enquanto a esquerda prega cautela diante das possíveis consequências e impactos à economia brasileira.
Neste cenário de incertezas, autoridades das áreas de segurança e justiça permanecem atentas aos desdobramentos oficiais do governo americano e aos reflexos provocados nos sistemas de cooperação internacional. Um dado relevante: apenas em 2023, operações conjuntas realizadas por órgãos da Polícia Federal, Receita Federal e agências internacionais resultaram na apreensão de mais de 10 toneladas de cocaína em portos do Sudeste, demonstrando o potencial das parcerias na repressão ao tráfico.
O setor de segurança de cidades afetadas diretamente pelas facções reforça a necessidade de uma resposta rápida do Estado brasileiro, mas alerta para o respeito à soberania e ao marco legal nacional. “A repressão ao crime organizado forte depende de inteligência, recursos, policiamento de proximidade e integração entre todas as esferas do governo, com apoio internacional quando conveniente, mas sem ferir nossos limites constitucionais”, enfatiza uma das fontes da reportagem.
Para acompanhar todos os próximos passos dessa polêmica, as autoridades recomendam monitoramento constante das medidas oficiais e das movimentações no Congresso sobre possíveis mudanças legais no país. O que se observa, até o momento, é o aumento da pressão internacional e uma discussão que pode redefinir, nos próximos anos, a forma como o Brasil e os EUA lidam com as maiores facções criminosas da América Latina — e como isso impactará diretamente a segurança, a política e a economia brasileira.



