RIO DE JANEIRO (RJ) — Relatos de uma jovem de 18 anos sobre agressões sofridas na infância, quando era enteada do ex-vereador Jairinho, foram cruciais para a condenação do réu a 43 anos e 9 meses de prisão pela morte de Henry Borel. Em depoimento apresentado durante os 11 dias de julgamento no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a testemunha descreveu episódios de violência que começaram quando ela tinha apenas 5 anos, durante o relacionamento de sua mãe com Jairinho.
Depoimento revela afogamentos e lesões físicas
Segundo o relato da jovem, que foi colhido pelos promotores e apresentado aos jurados, ela era levada a motéis onde sofria agressões dentro da piscina. “Ele ficava me afundando até eu encostar no chão. Aí me soltava, eu respirava e ele me afogava de novo com o pé dele me empurrando até o chão várias vezes”, afirmou a testemunha. Além dos afogamentos, ela contou que Jairinho apertou seu braço com tanta força que precisou usar gesso durante semanas. A vítima explicou que nunca revelou os abusos à mãe por medo de entristecê-la: “Eu falava que, se eu contasse para minha mãe, ela ia ficar muito triste”, disse.
Mãe descobre abusos após término e morte de Henry
A mãe da jovem declarou que só soube das agressões cerca de um ano depois do fim do relacionamento com Jairinho. De acordo com ela, a filha revelou os episódios enquanto assistia a uma reportagem sobre violência infantil. “Ela começou a chorar e falou que ele fazia isso comigo. Ela falou que ele batia, batia na cabeça dela, torcia o braço dela”, relatou a mãe. Mãe e filha decidiram procurar as autoridades apenas após a morte de Henry Borel, em março de 2021. A jovem afirmou ter carregado culpa por anos: “Eu me senti muito culpada, porque achei que, se a gente tivesse feito alguma coisa, se a gente tivesse falado, não teria chegado onde chegou.”
Condenação histórica e recursos em andamento
A acusação utilizou o relato para reforçar a tese de que Jairinho tinha um histórico de violência contra crianças, e que as agressões contra Henry não foram um episódio isolado. Após 11 dias de julgamento, o ex-vereador foi condenado por tortura e homicídio. O pai de Henry, Leniel Borel, criticou o perdão judicial concedido à ex-mulher Monique Medeiros, que já está em liberdade. O Ministério Público recorreu da decisão, apontando irregularidades na condução do júri. A defesa de Jairinho, que permanece no presídio de Bangu, também anunciou que pedirá a anulação do julgamento. O caso, que levou à criação da Lei Henry Borel, ainda deve gerar novos capítulos nos tribunais.



