Primeira atração da temporada de 2026 do Espaço Cultural BNDES, local que oferece programação gratuita para o público do Rio de Janeiro (RJ), o inédito show “Cores de Caymmi” estreou na noite de ontem, 5 de março, reunindo a cantora Fabiana Cozza e o pianista e arranjador Gilson Peranzzetta em enfoque requintado das músicas de Dorival.
O cancioneiro de Caymmi ganhou tom jazzy em algumas passagens instrumentais feitas por Peranzzetta com os músicos Alexandre Cavallo (baixo) e Ricardo Costa, a exemplo do que foi visto e ouvido no samba “Saudade da Bahia” (1957), sendo que o brilho maior do show veio do colorido do canto de Fabiana Cozza, excepcional intérprete de 50 anos festejados em janeiro.
Em total sintonia com os refinados arranjos criados para o show por Peranzzetta, que completará 80 anos em abril, Fabiana amaciou o canto em músicas como “Dora” (1945), número em que exprimiu o encantamento do eu-lírico da composição com os requebros da personagem-título em linha sabiamente distante da intensidade de Nana Caymmi, cantora que tomou “Dora” para si. Fabiana Cozza nem reproduziu o clímax “Ô Doraaaa…” das interpretações de Nana, reverenciada em cena pela artista paulistana com o canto do samba-canção “Só louco” (1955) em número denso.
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O show foi aberto com suíte instrumental em que Gilson Peranzzetta, a sós no palco do Espaço Cultural BNDES, encadeou ao piano o samba “Dois de fevereiro” (1957) com “A lenda do Abaeté” (1948) – no tom escuro da mítica lagoa situada na orla de Salvador (BA), precisamente no bairro de Itapuã – e com “Canção da partida” (1957), tema da suíte “Histórias de pescadores”.
Os arranjos de Gilson Peranzzetta buscaram outros caminhos harmônicos para o cancioneiro de Dorival Caymmi sem mutilar as melodias. O único momento menos sedutor do show foi a forma como Peranzzetta pintou “Marina” (1947), tornando o samba-canção por vezes irreconhecível na execução em número instrumental feito pelo trio formado pelo pianista com o baixista Alexandre Cavallo e o baterista Ricardo Costa.
Curiosa e ironicamente, como contou Peranzzetta ao público, o arranjo foi feito para evidenciar a “maravilha de melodia” criada por Caymmi na fase em que o compositor refinou o samba-canção, se desviando do dramalhão sentimental quase sempre imposto ao gênero.
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Nessa linha suave, Fabiana Cozza arrebatou o público ao se aninhar ao lado do piano de Peranazzetta para, com toda ternura, entoar “Acalanto”, canção de ninar composta em 1942, lançada em disco em 1957 e, três anos depois, gravada por Dorival com Nana no nascimento da filha como cantora em 1960.
Outro momento luminoso do sofisticado show foi a reinterpretação do samba “Morena do mar” (1967), reapresentado em tom mais solene, quase como uma peça de câmara. Fabiana Cozza deu show!
Eis o roteiro seguido por Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta em 5 de março de 2026 na estreia do show “Cores de Caymmi” no Espaço Cultural BNDES no Rio de Janeiro (RJ):
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No fim, o canto de “Samba da minha terra” (1940) e de “Maracangalha” (1956) – este com o coro espontâneo do público e com Fabiana Cozza experimentando algumas divisões próprias – arremataram show impregnado de beleza gerada pela total afinação e interação da cantora com o pianista e maestro.
Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta imprimiram as próprias cores à obra de Dorival Caymmi com reverência ao magistral compositor. Você foi ao show da dupla? Não?! Então vá quando o show “Cores de Caymmi” estiver em cartaz na cidade em que você mora.




