SÃO PAULO (SP) — A descoberta de que dois homens sem formação médica atuaram como profissionais no Hospital Jardim Helena, na zona leste da capital paulista, provocou indignação e dor em famílias que perderam parentes após atendimento. A Polícia Civil investiga ao menos nove mortes com possível relação com as condutas de Marcos Felipe de Barros e Maike Cesar Silva, que se passavam por médicos. Parentes ouvidos pela imprensa relatam ter confiado plenamente nos suspeitos e só souberam da fraude após o início das investigações.
Familiares expressam choque ao descobrir que confiaram em falsos médicos
O bombeiro aposentado Cabo Lucena, de 63 anos, procurou o hospital em 2025 com suspeita de dengue. O filho, Guilherme Lucena, autorizou a entubação indicada por Marcos Phelipe, acreditando ser um médico. “Ele tinha autoridade. Não passou pela minha cabeça em nenhum momento que ele não era médico”, disse Guilherme à reportagem. A morte veio logo depois. “Eu só desabei. Perdi meu pai. Quando soube da investigação, tive mais certeza de que não era a hora dele”, completou.
Outra família vive situação semelhante. Tânia, de 63 anos, paciente crônica do hospital, morreu horas após receber alta da UTI. A filha, Tainá Cristina da Silva, conta que a mãe confiava especialmente em um dos falsos profissionais. “Ela recebeu alta às 16h e faleceu meia-noite. A gente pensa: e se tivesse tido tratamento adequado? É revoltante”, afirmou a estudante. Os dois casos ilustram o clima de desconfiança e luto que tomou conta dos parentes das vítimas.
O caso ocorre em SÃO PAULO, onde a estrutura de fiscalização hospitalar é tema de debates após a revelação do esquema. A polícia estima que os dois suspeitos realizaram cerca de 9 mil atendimentos, atingindo aproximadamente 2 mil pacientes.
Investigação aponta fraudes e terceirizadas como responsáveis pela verificação
Marcos Phelipe de Barros, que se apresentava como “Nicolas Joseph Della Matta”, foi preso. Maike Cesar Silva, que usava identidade alheia e é biomédico de formação, continua foragido. Ambos atuavam no pronto-socorro e, no caso de Maike, também na pediatria. A polícia aponta crimes de falsidade ideológica, exercício ilegal da medicina e homicídio com dolo eventual. Os médicos reais que tiveram os nomes usados são considerados vítimas e não quiseram se manifestar.
Além dos falsos médicos, a gestora administrativa do hospital, Daniela Antunes Krauthamer, e o gestor médico de uma empresa terceirizada, Fábio das Neves Filho, estão afastados por medida cautelar. A defesa do Hospital Jardim Helena alega que a verificação de autenticidade dos documentos cabia à terceirizada e que a sindicância interna não identificou nexo causal entre a atuação dos suspeitos e as mortes. Já os advogados de Fábio das Neves afirmam que a contratação foi feita com base em documentos que pareciam autênticos. A polícia, porém, segue apurando a responsabilidade de cada envolvido no esquema que abalou famílias na zona leste paulistana.



