Filha desabafa sobre cuidar de mãe com Alzheimer e processo por pensão : ‘É desumano o que fazem com ela’

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Filha que cuida de mãe com Alzheimer que processa filhos por pensão desabafa: ‘É desumano o que fazem com ela’

Responsável pelos cuidados integrais da mãe, ela diz que se sente em uma ‘prisão’. Um dos nove filhos da idosa informou que recorre da decisão que aprovou provisoriamente o pagamento da pensão.

A filha de 59 anos que cuida da mãe com Alzheimer, que está processando nove filhos para que eles paguem uma pensão disse que se sente explorada. Moradora de Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, ela conta que é a única responsável pelos cuidados integrais da mãe de 87 anos.

> “É muito desumano o que fazem com ela. Comigo e com ela, né? Porque você dá atenção para um cachorro e não dá para uma irmã que é doente”, disse a aposentada que já lutou contra o câncer de mama duas vezes.

Ao DE, a filha caçula disse que concorda com a decisão do juiz e que foi com a irmã na Defensoria Pública para que o processo fosse iniciado. Segundo ela, fica com a mãe quando pode e paga algumas contas da casa, mas concordou que seu nome fosse inserido no processo para que todos os irmãos paguem a mesma quantia.

A segunda filha mais nova entre as mulheres disse que trabalha em dois empregos e que mora com a mãe nos fins de semana, mas não consegue vê-la pessoalmente em dias úteis. Disse ainda que ajuda financeiramente como pode e que também apoia a irmã no processo de pensão para que todos os irmãos contribuam igualmente com as despesas. Já o terceiro filho homem disse que o juiz ouviu apenas um dos lados da história e que não vê a mãe há mais de quatro anos porque a irmã que mora com a idosa o impede de visitá-la. Disse ainda que ele e outros irmãos ajudavam, mas que o dinheiro era usado para outras coisas. Ele informou que acredita que a situação não precisava chegar a esse ponto, mas que está recorrendo da decisão que determinou provisoriamente o pagamento da pensão.

A DE também entrou em contato com os outros seis irmãos, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.

A defensoria entrou com o pedido de pensão de alimentos no dia 30 de janeiro deste ano. O processo principal é uma ação no nome da mãe dos 10 irmãos que pedia uma tutela de urgência para o pagamento de pensão no valor de R$ 4.554,00, dividido para os filhos que não participam do cuidado integral.

Segundo a filha que mora com a mãe há sete anos, ela não tem mais condições de cuidar da idosa sozinha e precisou negligenciar a própria saúde para cuidar da mãe. “O que eu ganho não tem como pagar uma pessoa e eu também preciso cuidar de mim”, disse.

> “Eu me sinto explorada porque é cansativo mentalmente e braçalmente. A mãe não é só minha, ela ganha o mínimo do mínimo. […] É doído você saber que tem [os irmãos] e não pode contar”, relatou.

Segundo a Defensoria Pública, a medida busca garantir condições mínimas para os cuidados da idosa, além de aliviar a sobrecarga da filha que mora com ela.

Na petição inicial, a mãe alega que ela e a filha, que é a principal responsável por deus cuidados no dia a dia, vivem com dois salários-mínimos. No documento, a defensoria apresentou uma tabela com os gastos mensais da mãe, que envolvem medicações, alimentação, aluguel e transporte para consultas. Além disso, a ação propõe a contratação de três cuidadoras, para revezamento durante os sete dias da semana. No total, os gastos somam R$ 4,5 mil, valor aprovado provisoriamente para a pensão pela Justiça.

Segundo a Defensoria Pública, o processo foca não só na saúde vulnerável da mãe, mas também nos efeitos da dedicação integral na vida da filha.

> “Tais circunstâncias apontam a sobrecarga física e emocional à Sra. Maria Suzana visto que os demais filhos se mantêm omissos e resistentes aos cuidados com mãe, havendo inclusive registros de conflitos familiares, o que agrava a situação vivenciada”, diz a pedido.

Segundo a filha, a idosa está no estágio 4 da doença. Apesar disso, a defensoria esclareceu que a mãe é a autora do processo, pois não existe curatela sobre ela.

A filha que cuida da mãe disse que ainda não falou com os irmãos que não concordam com a pensão desde que o processo teve início. Segundo ela, apesar da doença, a mãe ainda lembra dos filhos, sente falta deles e que nunca proibiu os irmãos de visitá-la. Ela conta que por ser a única pessoa responsável pelos cuidados integrais com a saúde da mãe, precisou deixar de lado o cuidado com ela mesma.

> “Eu faço acompanhamento com neuro, porque eu tenho muita dor de cabeça, com gastro, eu tenho um monte de médico, mas deixei tudo para trás. O dentista para mim é o essencial, só eu sei como é que eu estou com dor de dente”, contou.

Ela ainda ressalta que o cuidado com idosos precisa ser diferenciado e que dá tudo o que pode à mãe. “Comprei cama, comprei cadeira de rodas, cama hospitalar. Tudo, tudo, eu faço por ela. É o mínimo”, contou emocionada.

Uma das irmãs que apoia a irmã disse que ela tem uma “vida aprisionada” por estar cuidando da mãe quase sem ajuda. “Para mim ela é uma prisioneira. Ela não tem liberdade”, disse.

A defensora Ketlyn Chaves, que atua no processo, disse que casos como esse são muito comuns e que os cuidados geralmente recaem sobre as mulheres, filhas ou noras, que assumem a responsabilidade sozinhas.

“Esse caso revela uma desigualdade estrutural de gênero no trabalho do cuidado. Trata-se de um trabalho não remunerado e estruturalmente vulnerabilizado”, disse.

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