Tragédia local, mas sem culpados oficiais. Em Flores da Cunha (RS) — O inquérito policial que apurava o incêndio devastador na histórica Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, ocorrido na manhã de 25 de maio, foi concluído sem o indiciamento de suspeitos. As chamas consumiram o teto e parte da estrutura da igreja centenária, abalada pela perda de um de seus principais símbolos culturais e religiosos na Serra Gaúcha.
De acordo com a Polícia Civil, o laudo pericial aponta que o incêndio teve início no forro do teto justamente no momento em que o local passava por reformas. O documento detalha que falha elétrica, ação humana direta ou indireta e efeitos das obras foram analisados como potenciais causas, mas nenhum fator pôde ser comprovado como determinante. Como resultado, o caso foi remetido ao Ministério Público e ao Judiciário para avaliação final dos desdobramentos.
Segundo o perito Airton Kraemer, do Instituto-Geral de Perícias (IGP), “a causa mais provável é uma pane na rede elétrica da região do fundo da igreja”, mas a perícia não obteve elementos suficientes para apontar uma razão conclusiva. Ainda de acordo com o laudo, a hipótese de incêndio criminoso foi formalmente descartada e não há, nos autos, indícios de dolo ou intenção no desencadeamento do incêndio.
Quais fatores dificultaram a identificação de responsáveis em Flores da Cunha?
Flores da Cunha, localizada no coração da Serra Gaúcha, nunca havia presenciado um incêndio de tamanha proporção envolvendo um patrimônio histórico-religioso. Conforme declarou a delegada Carla Zanetti, da Polícia Civil, diversos fatores foram cuidadosamente avaliados pelos agentes. “Nenhum deles pôde ser definido de forma inequívoca. O inquérito foi encerrado sem o indiciamento de qualquer pessoa”, explicou Zanetti, em entrevista nesta semana.
O contexto das reformas internas na igreja foi decisivo para embaralhar as conclusões dos investigadores. Profissionais do setor afirmam que trabalhos em edificações históricas tendem a multiplicar riscos, já que essas construções contam com redes elétricas adaptadas e materiais antigos, frequentemente inflamáveis. Neste caso, a ausência de câmeras de segurança nas áreas internas e a rápida propagação das chamas inviabilizaram uma apuração mais precisa das responsabilidades diretas.
A informação foi corroborada por fontes ouvidas pela equipe de reportagem, entre elas especialistas em perícia e engenharia de segurança. “Edifícios antigos, principalmente os religiosos, costumam passar por adaptações na fiação ao longo das décadas, criando pontos críticos de sobrecarga e risco de falhas”, relatou um técnico da região envolvido em reformas patrimoniais.
Como moradores e fiéis de Flores da Cunha reagiram após o incêndio e o fim das investigações?
A comoção tomou conta de Flores da Cunha durante e após o incêndio, sobretudo porque a igreja é um símbolo erguido há mais de 110 anos, em 1914. Centenas de moradores e empresários da cidade se mobilizaram nos dias seguintes para organizar campanhas de arrecadação de fundos, em um movimento inédito pela reconstrução da igreja. Em um gesto que ficou marcado, parte das imagens sacras e objetos litúrgicos resistiram às chamas — destaque para a estátua de Cristo, encontrada praticamente intacta após o incêndio.
“Milagre de Deus”, resumiu emocionado o padre responsável pela paroquia ao colher a escultura intacta entre os escombros. O episódio ganhou grande repercussão em toda a região, impulsionando novas doações e visitas à igreja destruída.
Segundo informações obtidas pelo Diário do Estado junto à administração municipal, mais de R$ 450 mil já haviam sido arrecadados até o fim de junho para os primeiros reparos emergenciais, sendo parte dos recursos repassados pela comunidade local e outra por empresas que atuam no setor vinícola, predominante na área.
Por que esse caso específico em Flores da Cunha mobilizou tantas pessoas e trouxe repercussão estadual?
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia como a perda de bens históricos e religiosos tem repercussão intensa em municípios de pequeno e médio porte no Rio Grande do Sul. A destruição parcial da Matriz Nossa Senhora de Lourdes foi relatada como um trauma coletivo — não apenas pela perda material, mas pela simbologia que envolve gerações de famílias da cidade. Ao contrário de grandes cidades, em Flores da Cunha a igreja é o principal ponto de referência e identidade do município.
O especialista regional em gestão de riscos patrimoniais consultado pela equipe de jornalismo destacou que, mesmo havendo uma apuração rigorosa, o estado de conservação das redes elétricas e a falta de protocolos emergenciais para construções antigas são um problema comum nos interiores gaúchos.
Conforme dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mais de 35% dos incêndios em edificações históricas no Sul do Brasil têm causas indeterminadas, justamente pelo somatório de estruturas antigas, reformas improvisadas e dificuldades para apuração. O incêndio de Flores da Cunha, segundo o órgão, é sintomático desse cenário.
O que muda para a comunidade e como será o processo de reconstrução em Flores da Cunha após a decisão policial?
Mesmo sem um culpado identificado, a cidade de Flores da Cunha já se articula para iniciar a restauração da Igreja Matriz. A estimativa da paróquia é que a reconstrução completa exija investimentos acima de R$ 2 milhões e leve pelo menos 18 meses, a depender do ritmo das doações e da liberação de recursos estaduais. Obras de restauração dessas dimensões em patrimônio histórico enfrentam normas rígidas do Iphan e são acompanhadas de perto pelo Ministério Público do Estado.
Há uma preocupação permanente com a segurança estrutural da igreja durante esse processo, já que os danos nas paredes e colunas podem ter afetado a estabilidade do prédio em outros pontos. Para evitar novos incidentes, a prefeitura anunciou, nesta segunda-feira, que técnicos da área de engenharia elétrica e civil da cidade vão reforçar as inspeções periódicas tanto na Matriz quanto em outros edifícios históricos. De acordo com o especialista em segurança pública consultado pela nossa redação, o episódio serviu de alerta para melhorias no monitoramento e manutenção desses patrimônios na Serra Gaúcha. Cidades vizinhas como Nova Pádua e Antônio Prado também iniciaram, após o incêndio, comissões para revisar seus protocolos de segurança em igrejas e escolas históricas.
Apesar do impacto e dos prejuízos incalculáveis, não houve vítimas na tragédia e a mobilização pós-incêndio trouxe à tona o espírito solidário da cidade, marca reconhecida em todo o Rio Grande do Sul. A equipe do Diário do Estado segue presente nas reuniões comunitárias e mantém contato direto com os grupos de arrecadação e autoridades locais, acompanhando de perto cada etapa da reconstrução e todas as movimentações para garantir a segurança dos patrimônios da região.



