Jornal Diário do Estado

Goiás segue tendência nacional de baixa procura por vacina bivalente

No Brasil, apenas 13% do grupo com mais de 18 anos procurou o imunizante; Estado até o momento alcançou apenas 10,13% da meta

O baixo índice de vacinação volta a acender o sinal de alerta das autoridades sanitárias em relação à Covid-19, doença que já ceifou a vida de mais de 700 mil pessoas no País. Em Goiás, foram aplicadas até o momento 591.772 doses da vacina bivalente, o que corresponde a 10,13% da meta. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), repassados na tarde desta segunda-feira, 19. O estado registra atualmente 833 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave por covid-19, com 202 óbitos. Destes, 154 são de idosos.

A superintendente de vigilância em saúde do órgão estadual, Flúvia Amorim Flúvia, frisa que se trata de um número bastante baixo. A principal razãoé a ampla disseminação das chamadas fake news. “Pelo que a gente tem avaliado, em conjunto com outros estados, é a principal causa. Isso faz com que as pessoas se sintam inseguras para ir a um posto de vacinação”, pondera a superintendente. “Infelizmente, o que tem acontecido com a vacina contra a covid também tem impactado em outras vacinas”, acrescenta.

A performance goiana segue a tendência de baixa procura que se observa no País. Apenas 13% do grupo com mais de 18 anos procurou o imunizante até o momento. Desde 24 de abril, o Ministério da Saúde (MS) liberou a vacina bivalente para este público e deixou que cada governo local decidisse a disponibilidade da dose. Segundo a pasta, não de falta de doses. O problema para a baixa cobertura vacinal é a adesão da população.

Diante deste quadro, a principal “vacina” é a informação, seja em campanhas publicitárias, seja através das mídias sociais e capacitação de profissionais, conforme avalia Flúvia. “É importante convencer a população de que toda vacina passa por uma criteriosa avaliação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], assim como acontece em outros países. Se não fosse assim, não seria utilizada. É a mesma lógica para todo e qualquer medicamento que em uso no Brasil. Se está disponibilizado, é porque a ANVISA liberou, é seguro e eficaz”, reforça a superintendente.

Descuido

A queda da sensação de risco é outra razão apontada para o baixo interesse da população pela imunização. A redução no número de óbitos e casos, no entanto, foi uma conquista alcançada graças a uma vacina desenvolvida em tempo recorde. Daí a importância de a população manter a imunização em dia. O lembrete é do biólogo uruguaio Luis Fernando Lopez Tort, bolsista do Instituto Oswaldo Cruz, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado relacionada ao SARS-CoV-2, com ênfase na avaliação da resposta imunológica gerada pelas vacinas contra a covid-19.

Radicado no Brasil desde 2020, o cientista tem acompanhado os desdobramentos em território brasileiro e analisa preocupado a situação. “O que realmente nos tirou da pandemia foi a vacina. Quando a cobertura alcançou 70%, 80%, começamos a ver a mortalidade diminuir drasticamente, bem como as hospitalizações e toda aquela emergência que tinha nos hospitais, de não ter leito de UTI, e pessoa morrendo na casa dos milhares por dia”, recorda-se. O pesquisador alerta para que a eficácia dos fármacos e a recente declaração da OMS de fim de emergência sanitária não gerem um descuido excessivo por parte da população.

“Isso chega às pessoas como se o assunto tivesse acabado. Que o vírus não está circulando mais, então ninguém precisa mais de vacina”, pondera. É justamente a manutenção da cobertura vacinal que irá evitar possíveis novos surtos, segundo Tort. “Como cientistas, ainda não sabemos qual vai ser a frequência ideal para se vacinar; se vai ser todo ano, ou uma vez cada cinco anos; está tudo sendo avaliado”, pontua. “O que se sabe é que com duas doses, que é o esquema completo, ou a três doses, a diminuição da mortalidade é sumamente grande – mais de 90%”.

O pesquisador reitera que os imunizantes não possuem nenhum efeito nocivo para saúde. “Muito pelo contrário, nos protege, nos dá um ‘booster’ – como se fosse uma reativada do sistema imunológico”, explica. O modelo atualizado é fabricado pela Pfizer, composto da cepa original do Sars-CoV-2, vírus que causa a covid-19. O imunizante conta com subvariantes da ômicron, o que confere maior proteção, já que são cepas responsáveis por muitos casos atualmente.

O reforço é disponibilizado para qualquer adulto que tenha tomado duas ou mais doses da vacina monovalente, aquela aplicada desde o início da pandemia. Também é necessário que a última aplicação tenha ocorrido há no mínimo quatro meses. “Depende de nós continuar vacinando, para que a doença provocada pelo vírus não volte a gerar os estragos já causados no passado”, alerta o cientista.