Grupo J&F repassou mais de R$ 50 milhões a lobista investigado no escândalo do INSS: detalhes da CPMI

grupo-j26f-repassou-mais-de-r24-50-milhoes-a-lobista-investigado-no-escandalo-do-inss3A-detalhes-da-cpmi

CPMI INSS: Grupo J&F enviou mais de R$ 50 milhões para empresas ligadas a lobista investigado por envolvimento em fraude a aposentados

Suspeita é que o banco digital do grupo, o PicPay, teria sido beneficiado pelo INSS em um programa de antecipação de benefícios. Ao todo, 341 mil pessoas aderiram ao Meu INSS Vale+ e R$ 252 milhões foram antecipados. O programa foi suspenso em maio e encerrado em agosto.

O programa Meu INSS Vale+ começou a funcionar em dezembro de 2024 e encerrou em maio de 2025. — Foto: Reprodução / INSS

Documentos recebidos pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS apontam que uma conta bancária do grupo J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, responsável também pelo banco digital PicPay, enviou R$ 55,7 milhões para empresas ligadas a Danilo Trento, investigado por supostos desvios de aposentadorias por meio de descontos associativos.

De acordo com as análises bancárias identificadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e as quais a CPMI também teve acesso, os repasses foram feitos em cinco transações que aconteceram entre dezembro de 2024 e abril de 2025, período em que o programa Meu INSS Vale+ esteve em atividade.

A suspeita do relator da CPMI do INSS, deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), é que Trento, que já apareceu em investigações conduzidas pela CPI da Covid, onde foi indiciado por organização criminosa e por envolvimento em fraudes na compra da vacina indiana Covaxin, atuou para aproximar representantes do banco PicPay da alta cúpula do INSS na criação do programa Meu INSS Vale+.

À época, o INSS era comandado por Alessando Stefanuto, preso em novembro do ano passado, durante operação da Polícia Federal (PF) que descobriu o esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS.

O Meu INSS Vale+ foi um programa da Previdência Social que permitia antecipar parte dos benefícios e dos auxílios permanentes pagos pelo INSS para cobrir gastos emergenciais de aposentadores e pensionistas. A expectativa do INSS era beneficiar 38 milhões de pessoas. O programa começou a funcionar em dezembro de 2024 e foi suspenso em maio de 2025 por cobranças de taxas e juros consideradas ilegais.

O INSS informou que, enquanto o programa esteve em funcionamento, 341.100 pessoas se cadastraram, com um volume de antecipação de mais de R$ 252,5 milhões. Desse total, o Portal da Transparência aponta que o órgão pagou R$ 110,5 milhões para o PicPay.

Gilberto Waller Júnior, que substituiu Alessandro Stefanutto no comando do INSS, foi quem decidiu suspender e, posteriormente, cancelar o programa em agosto de 2025. Em janeiro de 2026 o INSS rescindiu o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o PicPay.

Durante oitiva à CPMI do INSS, Waller afirmou que o comando do presidente Lula foi “para passar um pente-fino em tudo o que era descontado na folha de pagamento dos nossos aposentados e pensionistas” e que, com isso, se deparou com o programa meu INSS Vale+.

A reportagem entrou em contato com a J&F, o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, o ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Filho, e Danilo Trento, mas nenhum deles respondeu aos questionamentos.

Em nota, o PicPay afirmou que o “Programa Meu INSS Vale + era uma opção de antecipação de parte do benefício dos aposentados, não realizava descontos.

As investigações da Polícia Federal identificaram Danilo Trento em imagens do circuito de segurança do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, carregando malas e acompanhado de Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, até então procurador-geral da Procuradoria Federal Especializada do INSS, e de Philipe Roters Coutinho, agente da PF.

Os três foram flagrados em 28 de novembro de 2024, no mesmo dia em que o INSS assinou o normativo que permitia a antecipação salarial de aposentados e pensionistas.

Além disso, parte do dinheiro repassado pela J&F, R$ 19,2 milhões, foram enviados para a empresa T5 Participações LTDA, cujo sócio é Trento e que também recebeu R$ 1 milhão da Associação de Aposentados do Brasil (AAB), que foi flagrada pela Controladoria-Geral da União descontando de pessoas mortas e cuja investigação da Polícia Federal aponta relações com pessoas ligadas a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer), uma das principais entidades que mais desviaram aposentadorias.

O grupo J&F ainda enviou R$ 36,5 milhões para a empresa CCT Consultoria e Gestão S/A, em que Trento era sócio. A empresa foi criada em julho de 2024 e encerrada em setembro de 2025, dias após o fim do programa Meu INSS Vale+.

Os documentos que chegaram à CPMI ainda mostram que o PicPay buscou o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, em 15 de agosto de 2024, oferecendo um produto financeiro de “antecipação salarial”, que segundo eles já estava em funcionamento, por exemplo, no Distrito Federal desde setembro de 2024.

Nas semanas seguintes, o PicPay e o INSS trocaram inúmeros e-mails com explicações sobre como seria a antecipação e agendamento de reuniões com o presidente Stefanutto e o procurador do INSS, Virgílio Ribeiro Filho, ambos investigados pela Polícia Federal.

Em 18 de fevereiro de 2025, após análise das reclamações e sugestões dos usuários, o PicPay enviou uma carta ao INSS propondo aumentar o valor das antecipações que cada aposentado ou pensionista poderia fazer.

Em 17 de junho de 2025, a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle (CFFC) da Câmara dos Deputados aprovou um requerimento do deputado federal Evair de Melo (PP-ES) para que o Tribunal de Contas da União (TCU) prestasse informações a respeito do programa Meu INSS Vale+. Após o recebimento e admissibilidade do pedido, em setembro de 2025 o presidente do TCU, Walton Rodrigues, autorizou inspeção no Ministério da Previdência Social e no INSS para apurar a denúncia de cobranças ilegais e possíveis irregularidades na atuação dos órgãos.

Em 18 de dezembro, um novo despacho do presidente do TCU, que também é o relator da proposta, informou que as pessoas lesadas pelas cobranças irregulares de taxas estão sendo reembolsadas. “O INSS e o PicPay estão realizando tratativas para a devolução, aos segurados, dos valores cobrados a título tarifas pelas antecipações concedidas, já tendo pactuado termo de compromisso, em 10/12/2025, com a finalidade de garantir esse reembolso”, apontou.

Box de Notícias Centralizado

🔔 Receba as notícias do Diário do Estado no Telegram e no WhatsApp