Menos de 20% das serpentes são ‘perigosas’: USP lança guia para você perder o medo das serpentes
Material desenvolvido em Piracicaba (SP) une ciência e cultura para explicar o papel ecológico dos animais e ensinar a prevenir acidentes.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do campus de Piracicaba (SP), lançaram um manual gratuito sobre serpentes com o objetivo de estimular a coexistência pacífica entre humanos e animais. O “Guia de Serpentes” está disponível para download na plataforma “Livros Abertos” da universidade.
O material funciona como uma fonte confiável sobre as particularidades desse grupo, servindo tanto para instrução em casos de acidentes ofídicos (e como evitá-los) quanto para contextualizar a presença desses animais na cultura brasileira.
A publicação foi organizada para guiar o leitor por diferentes facetas desse universo. No início, o guia mostra como as cobras atravessam o imaginário popular, com narrativas do folclore e da espiritualidade que alternam entre símbolos de perigo e de sabedoria.
Como ponto principal, a obra aprofunda os aspectos biológicos, explicando formas de defesa, hábitos e o papel das serpentes no equilíbrio ecológico. Ao reunir ciência e orientações práticas, o objetivo é mudar a percepção negativa e diminuir o temor em relação aos animais.
Segundo Caio da Silveira Nunes, um dos autores do guia, grande parte do conhecimento sobre as serpentes não é acessível ao público geral, pois costuma estar restrito a artigos científicos — muitos em inglês e pagos. Por outro lado, a internet oferece muito conteúdo, mas nem sempre com garantia de checagem.
Portanto, o Guia de Serpentes surge como uma alternativa de fácil acesso, contendo fatos confiáveis expostos por profissionais para combater a desinformação. O pesquisador desmistifica, por exemplo, a letalidade desses seres:
“As serpentes, de forma geral, causam medo ou temor em boa parte das pessoas. Muitas vezes a imagem que vem à mente quando se fala de serpentes é a de um animal peçonhento, agressivo e perigoso. Porém, menos de um quinto das espécies de serpentes da região que o guia se propõe a abranger podem gerar um acidente fatal. Então, a maioria das espécies não precisa ser temida, mas sempre respeitadas”, explica.
O cuidado e o respeito devem prevalecer no convívio com as espécies, mas sem serem confundidos com medo ou extermínio. Katia Ferraz, pesquisadora e uma das autoras do livro, comenta sobre a finalidade do projeto:
“O objetivo do guia é informar sobre as serpentes e como coexistir com elas, mas, também visa despertar a curiosidade e o encantamento das pessoas para este grupo tão importante, que muitas vezes é marginalizado por mitos, preconceitos e falta de informação”, afirma.
O guia faz parte do “Projeto Vizinhos Silvestres”, coordenado por Katia no Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP, que visa orientar sobre boas práticas para a convivência entre pessoas e a fauna silvestre.
A publicação destaca que, cientificamente, as cobras são fundamentais para avanços na medicina. Um exemplo citado é o do Captopril, remédio utilizado para tratar hipertensão e insuficiência cardíaca, que foi descoberto a partir de pesquisas com a peçonha de uma espécie de jararaca. Além do potencial farmacológico, as serpentes têm importância ecológica vital: elas atuam no controle de populações de presas (como roedores) e mantêm o equilíbrio da cadeia alimentar.
“Compartilhar essa visão, [de forma] que incentive as pessoas a contribuir com a conservação das serpentes foi um dos nossos grandes motivadores para a criação deste guia”, finaliza Caio.




