Gestores de hedge funds de cripto estão revolucionando o mercado ao abandonar as tradicionais operações com Bitcoin e tokens, buscando agora lucros em contratos de petróleo, metais e índices de ações negociados 24 horas, todos os dias, em plataformas baseadas em blockchain. Essa nova estratégia surge após o esgotamento dos “lucros fáceis” nos mercados de moedas digitais, obrigando fundos a explorar ineficiências em ativos tradicionais em ambientes sem regulação rígida e com liquidez crescente. Saiba como isso afeta novas oportunidades e os riscos envolvidos para investidores institucionais e pessoas físicas.
O contexto dessa virada está diretamente ligado ao fim do ciclo de retornos elevados nas operações clássicas com criptomoedas, resultado do avanço de investidores institucionais e da competição acirrada. Gestores como Taylor Godwin, da Alpha EV, relataram que antigos spreads favoritos, como o basis trade no Bitcoin, encolheram de altas de dois dígitos para praticamente 5%. Diante disso, fundos passaram a operar contratos atrelados a petróleo, cobre e índices como o Nasdaq 100, impulsionados ainda por fatores geopolíticos recentes e pela tecnologia das blockchain, permitindo negociações 24/7 e liquidações em stablecoins. Esse movimento já torna ativos tradicionais responsáveis por até 30% do volume em plataformas inovadoras como a Hyperliquid.
A reação dos principais gestores tem sido de cautela e expectativa. Taylor Godwin afirmou que, apesar dos primeiros resultados em commodities serem atraentes, o fundo mantém posições controladas, devido à complexidade operacional entre ambientes de negociação diferentes. Kacper Szafran, do M‑Squared, observa: “As abordagens market neutral em cripto ainda estão sob pressão — as taxas de funding e o basis tradicional estão rendendo pouco acima do juro livre de risco”. Já Nikita Fadeev, do Fasanara Digital, vê o segmento como incipiente, mas crescendo rápido graças às distorções entre mercados digitais e tradicionais. A pesquisa da Crypto Insights Group confirma o interesse: um quarto dos fundos acredita que a próxima onda de negociações virá de ativos reais tokenizados.
Commodities viram novo alvo da tecnologia blockchain
A busca por margens maiores motivou o salto dos hedge funds do cripto para commodities, especialmente devido à capacidade das plataformas baseadas em blockchain de operar 24 horas, independentemente dos horários de bolsas tradicionais. Fundos passaram a explorar divergências de preço durante fins de semana, principalmente em momentos de tensão global, criando operações de arbitragem e spreads entre ativos correlacionados, como prata e cobre, gerando retornos superiores a 20% ao ano nessas estratégias inovadoras.
Esse fenômeno traz um novo patamar para mercados já consolidados, integrando liquidez tradicional e dinâmica digital. As negociações contínuas e os sistemas de liquidação por stablecoins desafiam modelos convencionais de bolsa de valores. Para o investidor, entender esse processo pode apontar para novas fontes de rentabilidade e riscos – enquanto aumentam as oportunidades, cresce a dependência da infraestrutura tecnológica e da estabilidade nos precificadores digitais, como detalhado por especialistas e instituições financeiras.
Na prática, o impacto imediato dessa migração é sentido tanto entre investidores profissionais quanto no varejo. Com maiores volumes e variedade de ativos negociados, as plataformas cripto atraem mais liquidez, facilitando operações sofisticadas, mas expondo fundos e traders a riscos diante de eventuais falhas nos oráculos de preços ou incidentes de hackeamento. A falta de regulamentação também amplia o campo de incerteza, podendo tanto ampliar lucros quanto provocar perdas inesperadas em cenários extremos.
Estratégias tradicionais perdem força nas criptomoedas
A retração dos retornos em estratégias clássicas de cripto foi o gatilho para a aceleração na diversificação dos fundos. Spreads e operações envolvendo tokens estáveis, antes dominantes, agora rendem abaixo do risco livre de mercado. Essa pressão obrigou gestores a buscar alternativas em ações, commodities e índices tradicionais, replicando técnicas quantitativas para ambientes antes ignorados por Wall Street.
Historicamente, o avanço institucional sempre diminui as assimetrias inicialmente encontradas em mercados jovens. Conforme o volume de ativos digitais tokenizados cresce — 360% desde 2025, segundo a rwa.xyz —, o padrão se repete: os melhores retornos vão migrando até que a arbitragem se esgota. Em plataformas 24/7, isso abre espaço para operadores ágeis e compromete quem demora a se adaptar, como mostra o surgimento de fundos exclusivos para “special situations” de commodities.
Consequentemente, o investidor observa uma dupla transição: oportunidades maiores no curto prazo, mas complexidade e volatilidade ampliadas para quem busca diversificação fácil fora das criptos. O crescimento do segmento de RWAs é acompanhado por riscos regulatórios e de infraestrutura, além da possibilidade de que as ineficiências exploradas durem apenas enquanto a liquidez e os grandes players não nivelarem o novo jogo.
Novo ciclo para fundos: tecnologia a serviço do velho mercado
O giro estratégico dos hedge funds cripto representa um marco: enquanto mantêm a infraestrutura digital, maximizam retornos negociando commodities e índices tradicionais, materializando o potencial das plataformas blockchain como ponte entre finanças tradicionais e DeFi. Gestores e analistas já veem um ciclo de crescimento e amadurecimento das estratégias, com mais fundos lançando braços dedicados a operação com ativos reais tokenizados e realizando arbitragem entre diferentes mercados e plataformas.
Especialistas ouvidos pelo DE destacam que a convergência entre o universo cripto e ativos tradicionais pode redesenhar a própria lógica de liquidez e formação de preços. Para quem acompanha o universo financeiro, as mudanças lembram os estágios iniciais da disrupção promovida pela digitalização das finanças descentralizadas. “RWAs são uma expansão natural para nós porque é para lá que tanto a liquidez quanto o capital institucional estão migrando”, afirma William Purdy, da Monarq Asset Management.
O futuro próximo sugere uma transformação profunda no perfil e funcionamento das plataformas blockchain: ativos globais, operando sem horários fixos, com liquidação rápida e pouca supervisão, desafiarão tanto reguladores quanto investidores a rever modelos e premissas. Para fundos e operadores habilidosos, o terreno está fértil, mas a janela de oportunidade pode se fechar rapidamente à medida que novas tecnologias e grandes players nivelam o campo de jogo.



