Caminhos de Mogi das Cruzes: rua Ipiranga conta história da cidade
Percorrendo seus séculos de memória, a cidade conta diversas histórias, que, muitas vezes, são separadas apenas por uma coisa: o tempo.
1 de 2 Rua Ipiranga foi parte do caminho percorrido por Dom Pedro I semanas antes da Proclamação da Independência — Foto: Reprodução / Livro Memória Fotografica de Mogi das Cruzes
Rua Ipiranga foi parte do caminho percorrido por Dom Pedro I semanas antes da Proclamação da Independência — Foto: Reprodução / Livro Memória Fotografica de Mogi das Cruzes
Os caminhos de Mogi das Cruzes não sempre foram os mesmos, e ainda existem aqueles que persistem desde quando a cidade ainda dava seus primeiros passos.
Essa reportagem faz parte de uma série de matérias em comemoração aos 465 anos de Mogi das Cruzes, celebrado na segunda-feira (1º).
Em todo esse tempo as ruas utilizadas pelas mogianos contam histórias únicas. Se no passado foram caminhos de tropeiros, carroças e comerciantes hoje precisam dar conta de uma cidade em expansão, buscando equilibrar tradição e modernidade.
A rua Ipiranga, por exemplo, é considerada uma das principais rotas para quem entra e sai do município. No centro, a via concentra comércios, serviços e um trânsito constante.
Cheia de história, a Ipiranga serviu de caminho para Dom Pedro I proclamar a Independência do Brasil e também tem raízes no começo da urbanização mogiana.
A professora Ana Maria Marangoni, que cresceu e mora na rua, lembra de um tempo em que tudo na via era mato, com poucos comércios e casas. “Era até esquisito, porque não tinha nada. Meus pais vieram para cá em 1945, e eu nasci nos anos 60, e na época existiam praticamente só o hospital e uma padaria”.
Com o passar do tempo a via foi se tornando o que se conhece. “A rua sempre foi movimentada, claro, antes não tinham muitos carros e tudo mais. Mas com o tempo se tornou a principal de Mogi.”
Em meados dos anos 70, as universidades e a rodovia Mogi-Dutra são criadas e causam um crescimento populacional e de território. Isso provoca uma expansão no comércio da Ipiranga. “Ofereceram várias vezes para transformar o terreno [da minha casa] em comércio, como praticamente todo o resto, mas minha família nunca quis sair”.
A moradora foi adotada ainda bebê pela família Marangoni, que transformou o lugar em um lar. Na mesma casa em que cresceu foi onde criou os filhos e é nela em que pretende continuar até o fim. “Hoje, não troco a rua Ipiranga por lugar nenhum. Aqui estão minhas memórias, minha história”, contou.
Esse pedaço da cidade conta diversas histórias, que, muitas vezes, são separadas apenas por uma coisa: o tempo.
2 de 2 Ana Maria Marangoni e sua mãe em frente a casa na rua Ipiranga — Foto: Arquivo Pessoal / Ana Maria Marangoni
Ana Maria Marangoni e sua mãe em frente a casa na rua Ipiranga — Foto: Arquivo Pessoal / Ana Maria Marangoni
Passado
A rua Ipiranga foi um dos primeiros caminhos de ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro, fazendo parte de um conjunto de rotas históricas conhecidas como ‘Caminho Real’.
Como o nome sugere, essa foi uma das rotas criadas pela coroa portuguesa no Brasil colonial. De acordo com o diretor do Departamento de Patrimônio e Arquivo Histórico, Ubirajara Nunes, ela foi inicialmente aberta por tropas, tropeiros e bandeirantes e tinha a função de um corredor econômico, usado para transporte de mercadorias.
Nessa época o nome era outro, rua do Pito. Ela foi rebatizada anos depois porque foi parte do trajeto que Dom Pedro I percorreu em agosto de 1822, para enfim realizar a proclamação da Independência às margens do Rio Ipiranga em 7 de setembro.
Futuro
As ruas de Mogi das Cruzes foram planejadas e estruturadas para um fluxo totalmente diferente do que acontece hoje. As ruas estreitas foram pensadas originalmente para carroças, dificultando a mobilidade para bairros mais novos e distantes.
De acordo com o arquiteto e urbanista Paulo Pinhal, a cidade carrega esse traço histórico e tem dificuldade para crescer. “O aumento do trânsito, a verticalização e o desenvolvimento do comércio mudaram não só a paisagem, mas também a rotina e a dinâmica da região.”
A Prefeitura da cidade, com o novo sistema viário e obras como a duplicação da avenida Pedro Romero e uma futura ponte estaiada, busca equilibrar tradição e modernidade, se preparando para receber o crescimento que não cansa de bater na porta.
*sob supervisão de Gladys Peixoto