BRASÍLIA (DF) — O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), anunciou na última quarta-feira (8) à TV Globo que decidiu desistir de sua candidatura ao Senado nas eleições deste ano. A decisão marca um ponto de virada na trajetória política de Ibaneis, que foi eleito em 2018 e cumpriu dois mandatos consecutivos à frente do GDF. A saída do ex-governador do pleito ocorre em um cenário de complexidade política e econômica que envolve a capital federal.
A candidatura de Ibaneis ao Senado havia sido cogitada logo após ele deixar a posição de governador em março deste ano, em cumprimento às exigências de desincompatibilização que a legislação eleitoral impõe. No entanto, para surpresa de muitos, o ex-governador afirmou que sua desistência foi uma escolha pessoal e não uma resposta às crises administrativas que marcaram seu governo, especialmente a crise no Banco de Brasília (BRB) decorrente do chamado “caso Master”.
Segundo Ibaneis, entrevistas e pesquisas de opinião apontavam que ele estava bem posicionado entre os candidatos, embora ele tenha confessado estar cansado da vida pública. “Estava bem nas pesquisas. É que cansei mesmo”, declarou, explicando sua decisão. Ele acrescentou que, ao completar 55 anos nesta sexta-feira (10), deseja dedicar-se mais a sua vida pessoal. “Quero cuidar da minha vida”, enfatizou.
Impactos Políticos e Crises no BRB
A desistência de Ibaneis ocorre em um horizonte carregado de crise no Banco de Brasília, que se intensificou após a deflagração da operação Compliance Zero em novembro de 2025, a qual investiga irregularidades em transações realizadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, à frente do Banco Master. O BRB, que é o controlador acionista, viu seu patrimônio fragilizado após a tentativa frustrada de compra do Master, ato que foi públicamente defendido por Ibaneis e por seu aliado, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
A situação se agravou quando o Banco Central rejeitou a aquisição, e as investigações trouxeram à tona a possibilidade de perdas bilionárias para o banco distrital. Estima-se que cerca de R$ 8,8 bilhões de um total de R$ 21 bilhões em créditos adquiridos do Master sejam considerados “créditos podres”, ou seja, inexistentes ou de difícil recuperação. O impacto financeiro dessa operação comprometeu não apenas a saúde financeira do BRB, mas também a confiança nas gestões do ex-governador no que tange ao controle das finanças públicas.
O atual Governo do Distrito Federal, sob a liderança de Celina Leão, busca recuperar parte desses créditos por meio de um empréstimo planejado de R$ 6,6 bilhões junto a instituições financeiras. As condições desse financiamento devem permitir ao governo distrital pagar aos credores ao longo dos próximos 15 anos, situação que acendeu debates acalorados entre os diversos setores da população sobre a responsabilidade fiscal e as práticas contábeis das gestões anteriores.
A Trajetória Política de Ibaneis Rocha
A carreira política de Ibaneis Rocha começou em uma trajetória meteórica, sem passagens pelo legislativo, já que, em 2018, após uma campanha marcada por uma ascensão inesperada, ele conquistou a vitória sobre Rodrigo Rollemberg (PSB), que tentava a reeleição. A emersão dele no cenário político se deu no ambiente administrativo do Distrito Federal, onde ele rapidamente se tornou uma figura proeminente e respeitada.
Em 2022, Ibaneis foi reeleito e conseguiu um feito admirável: retornar ao Palácio do Buriti em primeiro turno. Entretanto, sua gestão não esteve isenta de turbulências. Em 2023, poucos dias após a posse, o ex-governador foi afastado devido a uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em decorrência de alegações de omissão das forças de segurança durante os atos de vandalismo ocorridos em Brasília no início daquele ano. Meses depois, Ibaneis foi reempossado ao cargo, embora a marca de sua gestão tenha sido permanentemente afetada pelas crises que lá se desdobraram.
Reflexões sobre o Futuro
A desistência de Ibaneis de buscar uma nova candidatura ao Senado levanta questões não apenas sobre seu futuro na política, mas também sobre a preparação do espaço político para novos líderes no cenário do Distrito Federal. Embora tenha definido sua passagem pela política como uma “missão cumprida”, ainda é incerto se essa decisão significa o fim definitivo de sua carreira ou se é apenas uma pausa estratégica em um ambiente que continua a evoluir.
Para os observadores do cenário político local, a busca por um novo candidato ao Senado que possa ser tão resiliente e carismático quanto Ibaneis gera expectativa. A situação econômica e as tensões políticas nas decisões do GDF, acompanhadas da recente crise no sistema financeiro local, coloca o futuro político de Brasília em um tabuleiro dinâmico e incerto.
Próximos Passos
Com a desistência de Ibaneis Rocha, a atenção agora se volta para o Governo do Distrito Federal e suas estratégias para lidar com a crise no BRB, como também para as próximas articulações políticas que determinarão quem ocupará a vaga ao Senado. O GDF informou, por meio de nota oficial, que “acompanha a situação no BRB com atenção e responsabilidade”, reforçando a necessidade de diálogo e transparência com a população sobre os passos que serão dados para a recuperação financeira da instituição. Os próximos meses devem ser cruciais para a reconfiguração do cenário político e econômico que envolverá Brasília, especialmente com o desenrolar das novas candidaturas e a continuidade dos projetos da atual administração.


