O impasse no contrato de limpeza escolar em Votorantim, no interior de São Paulo, provocou uma crise sem precedentes nas instituições de ensino do município nesta semana, culminando na saída de dezenas de funcionárias terceirizadas. A situação revoltou trabalhadores e escancarou as fragilidades dos contratos públicos, num cenário que afeta diretamente a rotina de centenas de famílias da região.
Segundo relatos colhidos pela reportagem do DE, as funcionárias da empresa terceirizada Gotalimpa Company Brasil Ltda apontam falta de transparência e pressão para pedir demissão durante o processo de transição contratual. Muitas afirmam terem sido instruídas a aceitar transferências noturnas para postos em cidades vizinhas ou abandonar imediatamente seus postos, sem garantia de direitos trabalhistas.
O imbróglio jurídico envolvendo a licitação trouxe instabilidade para as profissionais e também para as escolas públicas de Votorantim, que já vinham convivendo com problemas de atrasos salariais, descontos indevidos e instabilidade nos serviços de limpeza. A crise aumentou as discussões sobre a terceirização de serviços essenciais em cidades do interior paulista e reforçou o debate sobre a importância do trabalho decente nesse segmento.
Funcionárias denunciam demissões e falta de transparência
O edital aberto em novembro de 2025 previa a troca da empresa responsável pela limpeza nas escolas municipais, motivado, segundo a prefeitura de Votorantim, por um cenário de “ineficiência e insuficiência” dos serviços de higienização nas escolas. Contudo, o processo não se deu sem polêmicas: protestos de cerca de 40 trabalhadoras em outubro de 2025, realizados diante do prédio da administração municipal, já sinalizavam uma crise iminente por conta de atrasos em pagamentos e denúncias trabalhistas.
De acordo com relatos de ex-funcionárias ao DE, situações como ausência do pagamento de adicionais de insalubridade por atividades consideradas de risco, atrasos constantes e descontos não justificados no salário são realidade comum para quem atua neste tipo de atividade terceirizada. “Nunca ganhei adicional de insalubridade por limpar banheiro em dez anos. Apenas depois de consultar um advogado percebi que tenho esse direito”, contou uma ex-empregada que preferiu não se identificar.
A situação se tornou ainda mais delicada neste ano, quando, após o resultado da licitação, a Gotalimpa Company Brasil Ltda comunicou seu quadro de funcionárias sobre possíveis transferências noturnas para Sorocaba, município vizinho de Paulista. Quem se recusasse a aceitar as novas condições seria forçada a pedir demissão, sem aviso prévio de desligamento pela empresa, nem possibilidade de acordo. “Disseram que quem não aceitasse a transferência teria que pedir a conta, porque não iam mandar ninguém embora”, afirmou outra trabalhadora.
Licitação conturbada trava contratos e aumenta incertezas
Com atuação no município há cerca de sete anos, a Gotalimpa teve o contrato anterior encerrado em 2025, mas permaneceu prestando serviço sob um contrato indenizatório para garantir a continuidade da limpeza até o fim da licitação. Durante o processo licitatório, a empresa ficou inicialmente em terceiro lugar, mas foi chamada a assumir o contrato após desclassificações das concorrentes. No entanto, acabou ela própria desclassificada por não apresentar um software de gestão exigido pelo edital.
A empresa Ambiental Sistemas de Limpeza ficou com o primeiro lugar, porém, após recurso, a Gotalimpa conseguiu em 27 de março uma liminar que suspendeu o andamento do novo contrato, alegando não ter tido seu recurso avaliado corretamente. Assim, a troca ficou congelada e as equipes de limpeza continuaram recebendo ordens da Gotalimpa, mas já sem qualquer garantia de estabilidade ou permanência em seus postos originais.
Essa indefinição jogou as trabalhadoras num verdadeiro limbo trabalhista. Desde o início de março, muitas receberam avisos de transferência e passaram a ser contatadas pela nova empresa, Ambiental. O processo, porém, ficou “travado” à espera da definição judicial e do aval da prefeitura, aumentando ainda mais a insegurança das mulheres que dependem do emprego para sustentar suas famílias em economias locais frágeis.
Prejuízos para a comunidade escolar e perspectivas para os próximos dias
A crise agrava preocupações na rede municipal de ensino de Votorantim, principalmente em um momento de retomada das aulas presenciais. Sem profissionais suficientes, o serviço de limpeza foi prejudicado, colocando em risco a higienização de ambientes frequentados por crianças, professores e servidores. O tema já mobiliza pais, sindicatos e lideranças locais, especialmente diante do histórico recente de atrasos e problemas salariais que marcam a terceirização de serviços públicos.
De acordo com levantamento do DE, diversos estabelecimentos relataram falta de profissionais de apoio desde a segunda semana de abril. Com o aviso prévio chegando ao fim para muitas trabalhadoras em 10 de abril, há incerteza sobre o início da atuação da nova contratada. “Pediram para aguardar, disseram que a prefeitura ainda não deu uma data de início. Enquanto isso, seguimos desempregadas”, relatou uma ex-funcionária.
O que esperar para os próximos dias? Enquanto a decisão judicial não é expedida, tanto a Gotalimpa quanto a Ambiental aguardam posições oficiais da prefeitura para definir o futuro das contratações. Por fim, as trabalhadoras querem solução rápida para voltar ao emprego e evitar maiores prejuízos para a rotina das escolas. A situação expõe a necessidade de revisões nos critérios de licitações e de um olhar atentivo à precarização de contratos em áreas essenciais no setor público.
O que dizem os envolvidos no impasse em Votorantim?
Questionada pelo DE sobre a decisão de trocar a empresa responsável pela limpeza, a Prefeitura de Votorantim não respondeu até o fechamento da reportagem. O órgão foi procurado desde 28 de março para justificar as mudanças contratuais e atualizar as informações sobre os contratos emergenciais, mas mantém silêncio sobre o tema, alimentando a insatisfação de funcionárias e da comunidade escolar.
A Gotalimpa Company Brasil Ltda, por sua vez, comunicou, por meio de sua assessoria jurídica, que seguirá prestando serviços nas escolas de Votorantim até que haja decisão judicial definitiva sobre o mandado de segurança. Segundo nota enviada ao DE, a empresa garante que “sempre pautou pela observância das relações de trabalho” e mantém ativo o canal de diálogo com as equipes que atuam nos postos, mas se recusou a informar o número de funcionárias que pediram demissão, classificando a informação como “questão interna funcional”.
Já a Ambiental Sistemas de Limpeza e Conservação Ltda, que conquistou a posição de vencedora na licitação contestada, também foi procurada para comentar a expectativa de início dos trabalhos e explicar como pretende contratar as ex-funcionárias prejudicadas, mas não se manifestou até a última atualização. Especialistas em direito administrativo consultados destacam que situações como essa são cada vez mais comuns em licitações envolvendo serviços terceirizados em cidades do interior, indicando necessidade de maior fiscalização e transparência.
No contexto regional, casos de terceirização problemática têm sido discutidos também em outras cidades. Experiências recentes mostram que, sem acompanhamento rígido dos contratos e fiscalização dos direitos trabalhistas, serviços essenciais como a limpeza escolar podem ser fonte de insegurança tanto para os trabalhadores quanto para as comunidades que deles dependem. O episódio de Votorantim serve de alerta também para outros municípios de São Paulo, onde processos semelhantes podem estar em andamento.
Como conclusão, o impasse na limpeza escolar de Votorantim é reflexo de dinâmicas maiores, associadas à terceirização de serviços, à falta de diálogo entre poder público e prestadores, e a um modelo de contratação que frequentemente coloca os trabalhadores em situação de vulnerabilidade. Enquanto a Justiça não se manifesta definitivamente e a Prefeitura não detalha suas decisões, centenas de famílias seguem aguardando para saber quando as escolas terão limpeza regularizada e as profissionais poderão recuperar seus empregos e direitos, fundamentais para a economia local e o bom funcionamento da rede de ensino.



