Indígenas das etnias Kayapó, Panará e Munduruku estão se unindo a um protesto contra um projeto de dragagem de rio no Pará. A manifestação reúne aproximadamente 1,2 mil indígenas de 14 povos diferentes que se opõem à dragagem do Tapajós. Os representantes dos povos Kayapó e Panará, vindos da região do Alto Xingu em Mato Grosso e do Pará, se uniram ao protesto que bloqueia o acesso ao porto da multinacional Cargill em Santarém, no oeste do Pará.
Esse movimento, que teve início em 22 de janeiro, é liderado por indígenas das regiões do Baixo e Médio Tapajós e já conta com a presença de aproximadamente 1,2 mil pessoas. Até o momento da publicação desta reportagem, o DE não havia recebido retorno da Cargil e do Ministério de Portos e Aeroportos em relação ao posicionamento sobre o assunto. Recentemente, indígenas Munduruku do Alto Tapajós aderiram à mobilização, que visa à revogação do Decreto 12.600/2025, o qual autoriza a concessão de hidrovias à iniciativa privada.
Os indígenas alegam que o referido decreto foi publicado sem licença ambiental e sem consulta livre, prévia e informada, conforme determina a Convenção 169 da OIT. Eles acreditam que tal medida pode transformar os rios em hidrovias voltadas ao escoamento de commodities, trazendo impactos socioambientais para as comunidades. O temor é que a privatização dos rios pelo governo acelere a pressão sobre seus territórios.
Além disso, os indígenas alertam que a dragagem do rio não afeta apenas o meio ambiente, mas também coloca em risco o modo de vida tradicional das comunidades ribeirinhas e aldeias da região. Nesse contexto, a Cargill, uma multinacional do agronegócio, com atuação no escoamento de grãos pelo rio Tapajós, em Santarém, tem sido alvo de críticas por parte dos manifestantes. A dragagem do rio pode impactar todo o seu leito, afetando principalmente cidades do oeste do Pará, como Santarém, Belterra, Aveiro, Itaituba, Trairão e Jacareacanga, bem como a população ribeirinha e o bioma local.
Um levantamento realizado por engenheiras e pesquisadoras do Grupo de Trabalho Infraestrutura indicou uma série de problemas no edital do projeto, incluindo a ausência de licença ambiental. O contrato prevê três anos de dragagem e tem um orçamento duas vezes maior do que o da dragagem realizada em 2025. Outro ponto de preocupação é a expansão dos trechos a serem dragados, abrangendo áreas próximas a Itaituba, como Santarenzinho, onde existem urnas funerárias e sítios arqueológicos importantes.
Uma carta pública divulgada durante o ato dos indígenas do Baixo Tapajós apresenta as reivindicações dos manifestantes, destacando o Rio Tapajós como um território vivo e sagrado essencial para a alimentação, a cultura, a espiritualidade e a identidade dos povos originários. O Decreto nº 12.600, que prevê a concessão de hidrovias à iniciativa privada, tem sido alvo de críticas, pois, segundo os indígenas, trata o rio como uma mercadoria, ignorando os direitos dos povos tradicionais e ameaçando seus territórios.
Os manifestantes enfatizam que o Tapajós é parte integrante de seu corpo coletivo, defendendo que proteger o rio é defender a vida. Diante dos potenciais impactos da dragagem do rio Tapajós, a mobilização dos indígenas tem ganhado cada vez mais apoio e visibilidade, promovendo um debate relevante sobre a preservação ambiental e a proteção dos direitos das comunidades tradicionais. Este movimento evidencia a importância de ouvir e respeitar as demandas das populações locais em projetos que possam afetar diretamente suas vidas e territórios.




