VITÓRIA (ES) — O desaparecimento de um acervo de valor inestimável do Palácio das Mangabeiras azedou de vez a relação entre a política mineira e o patrimônio cultural. Um biombo raro de Di Cavalcanti, que já foi achado em outro palácio, é apenas a ponta de um iceberg de 294 peças que sumiram sem deixar rastros oficiais.

A Polícia Federal foi acionada após a deputada Bella Gonçalves (PT) protocolar uma notícia-crime contra o ex-governador Romeu Zema (Novo) e seu sucessor, Mateus Simões (PSD). A denúncia escancara um suposto crime de peculato e dano ao patrimônio histórico.

O foco da VITÓRIA é entender como um palácio projetado por Oscar Niemeyer, que já foi o lar de governadores, teve seu acervo dilacerado sem um inventário público. A ausência de transparência é tamanha que a própria gestão estadual admite que os documentos são restritos “a servidores autorizados”.

O sumiço de um biombo de R$ 1 milhão e a biblioteca desmontada

Uma das obras mais valiosas do Palácio das Mangabeiras, um biombo de quatro metros de Emiliano Di Cavalcanti, foi encontrado pela imprensa em pleno Palácio da Liberdade. Já a coleção de livros da antiga biblioteca do governador foi parar na Biblioteca Pública Estadual, mas sem um registro claro de como e quando isso aconteceu.

Durante uma fiscalização da Comissão de Cultura da ALMG em 2026, os parlamentares encontraram apenas cinco itens originais no casarão: uma mesa de centro, duas poltronas, um sofá e um piano. Centenas de peças, como pratarias, louças e obras de arte, simplesmente não foram localizadas.

Obra de Tarsila e Di Cavalcanti danificadas? Secretário admite descaso

Em depoimento à Assembleia, o secretário de Estado de Cultura, Leônidas Oliveira, afirmou que, em 2020, encontrou 44 obras guardadas de forma “inadequada” pela Polícia Militar, cobertas apenas por tecidos. Segundo ele, o biombo de Di Cavalcanti “craquelou” e várias outras peças foram danificadas durante remoções e armazenamento.

A notícia-crime pede que a PF assuma a investigação porque o Palácio integra o conjunto paisagístico da Serra do Curral, tombado pelo IPHAN. O documento solicita perícia técnica nas obras danificadas e a oitiva do secretário e de dirigentes da Codemge, a estatal que hoje administra o imóvel.

Governo de Minas nega omissão e diz que acervo está “cadastrado”

Em nota, o governo estadual afirmou que todos os bens do início da gestão Zema, em 1º de janeiro de 2019, estão inventariados e com a localização registrada nos sistemas oficiais. A administração garante que parte do acervo foi destinada a equipamentos públicos para preservação e que o biombo de Di Cavalcanti está em exposição desde abril.

O Palácio das Mangabeiras deixou de ser residência oficial em 2019 e passou a abrigar eventos privados, como a Casa Cor. A Polícia Federal não comenta investigações em andamento, mas o Tribunal de Contas de MG já analisa a representação. O mistério sobre o paradeiro das centenas de peças continua.