Jovem com doença rara passa em Direito na UFPR e luta pela inclusão de pessoas
com deficiência: ‘Batalhar por mim e pelos outros também’
No Vestibular 2026 da UFPR, 54 pessoas com deficiência foram aprovadas.
Universidade tem ação de inclusão focada na importância de política de
permanência dos estudantes com deficiência.
Jovem com doença rara vai estudar Direito na Universidade Federal do Paraná
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Jovem com doença rara vai estudar Direito na Universidade Federal do Paraná
Limitações físicas não foram o suficiente para segurarem os sonhos de Charleston
Júnior, de 21 anos. Aprovado no curso de Direito da Universidade Federal do
Paraná (UFPR), o futuro advogado pretende ajudar as pessoas a lutarem e defenderem os direitos que têm.
Diagnosticado com Distrofia Muscular de Duchenne, Charleston começou a
apresentar sinais da doença entre os 5 e 6 anos de idade, quando surgiram as
primeiras dificuldades motoras, como quedas frequentes, fraqueza muscular e
dificuldade para subir escadas e correr.
A doença leva à perda de força que progride de forma lenta ao longo dos anos, e
Charleston, aos 10 anos, perdeu a capacidade de andar e passou a utilizar
cadeira de rodas.
A motivação de ir para a área do Direito, no entanto, surgiu depois de um
episódio que o levou a uma reflexão sobre o próprio destino.
Após a conclusão do Ensino Médio Técnico, Charleston começou a cursar Análise e
Desenvolvimento de Sistemas, no Instituto Federal do Paraná (IFPR). Porém, em
julho de 2024, passou 22 dias internado em uma Unidade de Terapia Intensiva
(UTI) por conta da progressão da doença.
Foi depois disso que Charleston decidiu recalcular a própria rota. Inspirado
pela mãe, Alessandra Mara Rodrigues, que também é advogada, em 2025, o jovem fez
o vestibular para Direito na UFPR.
“Eu estudei sozinho mesmo, vendo videoaulas, pesquisando outras provas que já
tiveram, fazendo elas. Foi complicado, mas deu certo. Passar é uma grande
conquista”, afirmou o calouro.
A mãe foi uma das inspirações de Charleston para seguir no caminho do
Direito — Foto: RPC
A vontade de ajudar outras pessoas vem de um exemplo dentro de casa. Alessandra
é pedagoga e ex-professora da rede municipal de Colombo, na Região Metropolitana de
Curitiba.
Ela decidiu seguir pela carreira no Direito depois de enfrentar, ao lado do
filho, as dificuldades impostas pela deficiência, pela dependência de terceiros
e pela luta diária por dignidade e acesso a tratamentos.
Ao vivenciar as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e a falta de
políticas públicas efetivas, Charleston decidiu seguir o mesmo caminho da mãe,
com o objetivo de lutar por um mundo mais justo e com equidade social.
> “[Como advogado] Eu não ia só trabalhar, batalhar por mim, ia trabalhar pelos
> outros também. Tem muita gente nessa luta, mas pouca gente que está vivendo na
> pele a situação de fato. Eu acho que isso é o grande diferencial: saber o que
> você precisa de verdade, que você já sente de verdade”, defendeu Charleston.
Charleston Júnior visitou o campus da UFPR onde estudará — Foto: RPC
Dias depois da divulgação do resultado, Charleston visitou, junto com a mãe, o
prédio histórico da UFPR, que sedia o curso de Direito.
“A gente veio conhecer a universidade e estamos aí na ansiedade. Desde quando
passei estamos esperando o dia que começam as aulas”, compartilhou o calouro.
A visita serviu para ver como é o prédio, como será a locomoção dentro da
universidade e qual será a assistência necessária para o conforto e
acessibilidade do estudante.
Segundo Wagner Bitencourt, coordenador de acessibilidade da UFPR, a prática é um
protocolo seguido pela universidade, focado na importância de uma política de
permanência dos estudantes com deficiência.
No Vestibular 2026, 54 pessoas com deficiência foram aprovadas.
“Assim que a gente tem notícia do resultado do vestibular, a gente entra em
contato com todos os calouros com deficiência e tenta agendar uma conversa para
tentar entender quais são as necessidades desses estudantes e o que eles podem
precisar no decorrer do curso”.
> “A gente está em uma sociedade que é capacitista, onde o estudante costuma ser
> excluído de todos os processos. A gente tenta fazer esse movimento de trazer o
> estudante para perto, conversar com ele, mostrar que a gente entende o que é
> acessibilidade e que a gente está junto com os estudantes lutando por essa
> causa”, detalhou Bitencourt.
Para a família de Charleston, a visita trouxe tranquilidade.
“Me deu uma calma no coração, como vai ser a logística, como que é o
funcionamento da universidade federal, como foi a acolhida. Tudo foi muito
especial e nós nos sentimos muito acolhidos aqui dentro. Tenho certeza que a
carreira do Charleston está só começando”, afirmou a mãe, Alessandra Mara
Rodrigues.




