Personagem icônica de Veríssimo, ‘Velhinha de Taubaté’ surgiu na ditadura e falava de política com humor; relembre
Cronista gaúcho criou a personagem que se tornou ícone de ingenuidade política e homenagem à cidade do Vale do Paraíba. Morre, em Porto Alegre, aos 88 anos, o escritor Luís Fernando Veríssimo
Um dos cronistas mais famosos e bem-humorados do Brasil, Luís Fernando Veríssimo fez obras que atravessaram décadas e marcaram gerações — com publicações em livros, quadrinhos e jornais. Uma das personagens mais memoráveis dele leva o nome da segunda maior cidade do Vale do Paraíba: Taubaté (SP)
O escritor morreu neste sábado (30), aos 88 anos. Ele estava internado na UTI de um hospital de Porto Alegre (RS) desde o início do mês, e faleceu vítima de complicações de uma pneumonia, segundo o boletim médico – leia mais clicando aqui.
Entre seus personagens mais marcantes estão:
– Ed Mort, detetive particular atrapalhado e cínico;
– As Cobras, dupla irônica que filosofava sobre política e comportamento;
– Família Brasil, sátira da classe média;
– Analista de Bagé, psicanalista gaúcho com humor ácido;
– E, claro, a Velhinha de Taubaté, personagem que se tornou ícone nacional.
A Velhinha de Taubaté, personagem criada por Verissimo em homenagem ao Vale do Paraíba, era apresentada como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no DE”. Sentada diante da televisão, ela acompanhava governos desde João Figueiredo, tornando-se metáfora da ingenuidade política e, ao mesmo tempo, uma homenagem divertida a Taubaté (SP), cidade com uma forte veia artística no Vale do Paraíba — berço de nomes como Monteiro Lobato, Mazzaropi e Hebe, por exemplo.
A repercussão foi tão grande que Veríssimo retomou a personagem diversas vezes ao longo dos anos 80, 90 e 2000. E foi em 2005, durante o escândalo do Mensalão, que o escritor publicou o texto em que “matava” a Velhinha, ironizando a descrença diante das denúncias de corrupção e mantendo o humor característico de suas crônicas.
Em choque com os escândalos na política brasileira, a personagem faleceu enquanto assistia à televisão, sob “circunstâncias misteriosas”, segundo o escritor. A publicação foi feita no jornal Estadão. Em entrevista em agosto de 2005, o escritor classificou a morte da velhinha como algo simbólico para o momento que o Brasil vivia.
“Morreu no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como ‘a Velhinha de Taubaté’, que se tornou uma celebridade nacional há alguns anos por ser a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo. O fenômeno, que veio a público durante o governo Figueiredo, o último do ciclo dos generais, levou multidões a Taubaté e transformou a Velhinha numa das maiores atrações turísticas do estado. Além de estandes de tiro ao alvo e de venda de estatuetas da Velhinha e de uma roda-gigante, ergueram-se tendas para vender caldo de cana e pamonha em volta da pequena casa de madeira onde a Velhinha morava sozinha com seu gato, e não era raro a própria Velhinha sair de casa e oferecer seus bolinhos de polvilho a curiosos que chegavam em ônibus de excursão para serem fotografados com ela e pedirem seu autógrafo”.
Nos últimos anos, Veríssimo enfrentava problemas de saúde: tinha Parkinson, dificuldades cardíacas, colocou marcapasso em 2016 e sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2021, que afetou sua mobilidade e fala. Autor de mais de 80 obras, ele deixa a esposa, três filhos e dois netos. A despedida ocorrerá no Salão Nobre Julio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a partir das 12h deste sábado (30).