ARACATUBA (SP) — A dona de um salão de beleza de 32 anos registrou boletim de ocorrência após ser chamada de “macaca” e ouvir a frase “volta para o zoológico” de uma cliente que se irritou ao ter o atendimento recusado por causa de atraso. O episódio ocorreu na quarta-feira (3), em Araçatuba, no interior paulista, e foi captado pelo áudio de câmeras de segurança do estabelecimento. A empresária afirmou que ainda enfrenta o abalo emocional causado pelas ofensas racistas, que classificou como uma das situações mais dolorosas que já viveu.
De acordo com o relato da manicure, a cliente frequenta o salão há algum tempo e costumava chegar atrasada. Na data do ocorrido, ao ser informada de que não seria possível encaixar o serviço porque os horários seguintes já estavam comprometidos, a mulher teria iniciado uma série de xingamentos. A empresária pediu que ela deixasse o local, mas as ofensas continuaram do lado de fora, em frente ao comércio. Foi nesse momento que a cliente teria dito que a manicure “deveria voltar para o zoológico” por ser uma “macaca”. O caso repercutiu em toda a região, inclusive chegou ao conhecimento do DISTRITO FEDERAL, onde a notícia gerou debate sobre a persistência do racismo estrutural.
Cliente se irritou após não conseguir remarcar horário
Segundo a versão da vítima, a cliente chegou atrasada ao salão e esperava ser atendida mesmo assim. “Ela entrou como se fosse dona do meu salão, super arrogante, mal educada. Eu abordei ela, falei que não iria dar para atender. Foi na hora que ela começou a me xingar, me ofender”, contou a manicure em entrevista a veículos de imprensa locais. A empresária disse que a cliente já havia sido orientada anteriormente sobre a necessidade de pontualidade, mas naquele dia não havia mais disponibilidade para encaixar o serviço.
As ofensas foram feitas na calçada, enquanto a cliente se afastava. Além das palavras racistas, a mulher teria feito outros xingamentos. A manicure afirmou que ficou imediatamente sem reação. “A gente nunca imagina que vai passar por isso, em pleno 2026. A pessoa me diminuir por causa da minha cor, achar que um preto não pode ser bem-sucedido, não pode ter sucesso, não pode se posicionar, não pode falar ‘não’. Então, me deixou bem baqueada”, lamentou.
Impacto emocional e registro de ocorrência
A empresária conta que, após o ocorrido, desabou emocionalmente. “Foi muito baixo. Na hora que aconteceu, eu fiquei sem rumo. Eu pensei: ‘não acredito que estou passando por isso’. Todo mundo ficou revoltado. Eu desabei, chorei bastante”, relatou. Apesar do choque, ela decidiu registrar a ocorrência na Polícia Civil como uma forma de buscar justiça e também de incentivar outras vítimas de racismo a não se calarem. “Registrar o BO foi uma maneira de mostrar que não podemos aceitar esse tipo de agressão em silêncio”, afirmou.
O caso foi registrado como preconceito de raça ou de cor, crime previsto na Lei 7.716/89. A Polícia Civil de Araçatuba abriu investigação para apurar os fatos. Até o momento, ninguém foi preso. A manicure recebeu apoio de clientes, amigos e familiares, mas admite que o trauma ainda é difícil de superar. “Eu realmente não esperava passar por isso. É uma dor que vai ficar por muito tempo”, concluiu.



