Quem foi Maria Quitéria, baiana pioneira do Exército brasileiro há 200 anos
Com cabelo raspado e roupas emprestadas do cunhado, Maria Quitéria se transformou no soldado Medeiros e se alistou no Exército Brasileiro em 1822. Mesmo após ter tido a identidade revelada, a baiana permaneceu na tropa e, por dois séculos, foi a única soldado mulher de que havia registro na história do Brasil.
Na última semana, ela ganhou a companhia de outras 1.010 mulheres que se formaram como soldados do Exército e incorporaram às fileiras em março em todo o país. O grupo pôde ingressar oficialmente nas Forças Armadas após o alistamento voluntário feminino ser permitido, pela primeira vez, em janeiro de 2025.
Este ano trouxe ainda outro marco à instituição: a primeira mulher a ser indicada como general, o cargo mais alto da Força Terrestre. Antes de ser nomeada, o nome da coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho será submetido à aprovação do Presidente da República.
Subvertendo a ordem
Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.
Com ajuda da irmã, “o soldado Medeiros” – personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa – se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas na guerras pela independência do Brasil, em 1822.
A baiana se destacou em três batalhas: em Pirajá, na defesa de Ilha da Maré e na de Piatã, todas ambientadas em Salvador. Na batalha de Piatã, Maria Quitéria entrou em uma trincheira, rendeu os soldados portugueses e os levou, sozinha, para o acampamento.
O feito a rendeu uma condecoração e o reconhecimento pelo então imperador Dom Pedro I, que a entregou a insígnia de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro” – uma honraria em reconhecimento ao serviço dos súditos que contribuíram com a nação e demonstrar o alto grau de estima e consideração do monarca.
Da honraria ao esquecimento
Mesmo com o reconhecimento dos colegas e com a honraria entregue pelo próprio imperador, Maria Quitéria não passou a compor a corte, nem ganhou um cargo importante. Após a morte do pai, ela se casou, teve uma filha e passou a viver no anonimato em Salvador.
Para Sílvia Duarte tenente-coronel do Exército, doutora em Educação, Arte e História da Cultura e estudiosa do tema mulheres nas Forças Armadas, há um paradoxo em como Maria Quitéria foi recompensada, quando comparada a figuras masculinas que também lutaram pela Independência do Brasil.
A morte de Maria Quitéria sustenta o paradoxo apontado pela tenente coronel: aos 61 anos, ela foi enterrada em uma cova rasa, como indigente, em um cemitério que era vizinho à Igreja de Santana, na capital baiana.
Em Salvador, a primeira estátua da heroína só foi inaugurada em 1953, mais de 160 anos depois de sua morte. O reconhecimento pelo Exército aconteceu em 1996, quando ela passou a ser Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro (QCO) – a escola que forma Oficiais para o Exército, em Salvador, abriu as portas ao serviço militar feminino a partir de 1992 e essas mulheres foram incorporadas aos quartéis no ano seguinte, 1993.
Além disso, nenhum quartel do país leva o nome de Maria Quitéria – o que é comum entre seus ‘pares’ homens. No Rio de Janeiro, fortes homenageiam Duque de Caxias e General Osório, por exemplo. Em Salvador, o 19º Batalhão de Caçadores é chamado de Batalhão Pirajá em homenagem à Batalha de Pirajá, episódio marcante na luta pela Independência.
Para a historiadora Márcia Suely, o apagamento da memória da heroína está associado à subversão que ela provocou na sociedade da época.
Apesar disso, na Bahia há uma tentativa de resgate dessa memória, com estátua e honrarias que levam o nome dela.
As que vieram depois
A tenente coronel Sílvia Duarte entrou no Exército no ano em que Maria Quitéria se tornou Patrona do Quadro Complementar de Oficiais, em 1996, por meio de um concurso público. Depois de 30 anos de serviço, ela vê a inclusão cada vez maior das mulheres como algo gratificante.
Após o ingresso de Maria Quitéria no Exército, em 1822, houve um hiato de 123 anos até que as mulheres fossem aceitas como enfermeiras. O ingresso foi uma questão de necessidade: elas atuaram no front da Segunda Guerra Mundial, na Itália.
Mesmo com os últimos avanços, ainda há muito a se conquistar. O processo de admissão das mulheres no Exército Brasileiro ao longo da história é considerado bem mais lento quando comparado a outras democracias ocidentais, como Estados Unidos, França, Canadá e Reino Unido, que aceitam alistamento voluntário feminino há décadas.
Recrutas pioneiras
A soldado Luana Fatchinetti, de 18 anos, faz parte da primeira turma de soldados do Exército. Ela já pensava em prestar concurso para seguir carreira militar, quando o alistamento voluntario feminino foi anunciado. Com o apoio da mãe, que sonhava em ser enfermeira da Marinha, se inscreveu no processo.
Para a soldado Luana, a experiência tem sido cheia de aprendizados e indica uma oportunidade de mudança de vida para as mulheres.
Para o Coronel Cleidson Vasconcelos, chefe da Seção de Comunicação Social da 6ª Região Militar, em Salvador, o interesse das mulheres pelo serviço voluntário superou a expectativa – mais de 30 mil mulheres se alistaram. Foram 33.720 candidatas, sendo 2.230 na Bahia.
O alistamento voluntário feminino fica aberto entre janeiro e junho, mesmo período do alistamento masculino – que é obrigatório.
Para se inscrever, as voluntárias precisam completar a maioridade no ano de inscrição, além de residir em algum dos municípios que possuem Organização Militar e que foram contemplados com a iniciativa pioneira. Mais informações estão no site do Alistamento.




