Mau humor dos rios na Amazônia: impactos e soluções para a escassez de água

mau-humor-dos-rios-na-amazonia3A-impactos-e-solucoes-para-a-escassez-de-agua

O Mau Humor dos Nossos Rios (por Roberto Caminha Filho)

Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver? Nosso Brasil, de rios largos e generosos, tem enfrentado ultimamente um fenômeno estranho: o mau humor das águas. Sim, porque se os rios pudessem falar, estariam de cara fechada, emburrados com tanto descaso. No coração da Amazônia, onde a floresta deveria encontrar nos cursos d’água um refúgio fresco e constante, o que se vê é um espetáculo de secura, barcos encalhados e gente olhando pro céu, torcendo por uma chuva que insiste em não cair.

Nos municípios ribeirinhos, onde a vida depende da fluidez das águas, a estiagem prolongada não é só um contratempo: é uma calamidade. As canoas, que antes deslizavam tranquilas levando peixe, gente e esperança, agora encontram solo rachado, enquanto as populações tentam reinventar o cotidiano sem a presença do rio que sempre ditou o ritmo da vida. Mas será que podemos culpar os rios pelo seu mau humor? A resposta, claro, está na falta de planejamento. A floresta foi sendo desmatada, os cursos d’água assoreados, e o clima resolveu dar sua resposta: secura sem fim. O fenômeno é repetido, ano após ano, e o Brasil assiste com uma cara de surpresa, como se não soubesse que sem preservação, os rios não têm como retribuir sua abundância. E quem sofre com isso? As populações ribeirinhas, abandonadas entre o verde intenso da floresta e o marrom pálido da terra esturricada. Já estamos rodando de motocicleta, doze quilômetros, de uma cidade para outra, onde antes era um lago. E a vida desse lago? Para onde foram os peixes, as garças, as arirambas, as lontras? Ninguém sabe de nada, ninguém estuda o fenômeno, os institutos se calam e os governantes ficam a mercê do bom humor da NINHA.

O poder público patina entre a burocracia e a falta de verba. Discute-se o problema, formam-se comitês, divulgam-se notas, mas a água continua baixando. As estradas, quando existem, se tornam únicas alternativas de transporte, mas são precárias ou simplesmente impraticáveis. Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver? Mas nem só de tragédia vive a Amazônia. O povo da floresta é teimoso, criativo e resistente. Quando os rios resolvem fazer greve, o ribeirinho improvisa. Caminha quilômetros atrás de um poço, faz reza para São Pedro e, se nada disso resolver, inventa um jeito novo de lidar com o problema. Mas a pergunta que fica é: até quando depender da resiliência, quando o que se precisa é de ação?

Se o Brasil quiser ver seus rios voltando a sorrir, é preciso mais do que lamentos. O planejamento hídrico tem que deixar de ser discurso e virar uma realidade que todos vejam e apoiem. Não pode ficar trancado nas salas de Institutos que existem há décadas e não se sente o resultado prático das suas existências e custos. Preservação não pode ser papo de ambientalista solitário, ou de ministros com opiniões que estão muito longe do rigor da ciência, mas sim, política de estado. E, acima de tudo, as populações que vivem dessa água precisam ser vistas e ouvidas, porque são elas que sentem, na pele, o descaso, o falso discurso e o peso do abandono.

Nos Estados Unidos, país ainda irmão do Brasil, existe um programa que pode chegar até nós e resolver grande parte dos nossos problemas: O Tennessee Valley Authorithy, uma agência do Governo Americano, criado no longíquo ano de 1933, para dar vida aos americanos que viviam no Rio Tennessee e que mereciam vida melhor do que aquela que existia. No começo era para controlar as enchentes, passando imediatamente para as construções de represas e desenvolvimento da energia e do agro. A tecnologia desenvolvida para as plantações na várzea, dizem muito bem para a nossa Amazônia e os seus catorze milhões de hectares de várzea ainda improdutivas. Desde que Adão e Eva andaram por aqui, só plantamos macaxeira, melancia e mandioca. Alguns caboclos se aventuram em um roçado mais avançado e plantam abóbora, milho, mandioca e umas pimentas, logo arrasado pela seca ou pelas enchentes, quando não visitados pelo IBAMA, que sugere uma roçada para não incentivar a queima de dois hectares. Só esquecem que as populações que nos invadem e nos empobrecem, sentem a necessidade de plantar, comer, beber e progredir.

Só com a normalização do humor dos rios é que voltarei a comer sorva, cama cama, sapoti, pupunha do tamanho normal, caju e até a minha querida pimenta murupi, a original, aquela que faz a bundinha em vez da ponta, aquela que arde e tem cheiro. Todas essas frutas e o tamanho dos abacaxis e cupuaçus, ficaram diferentes do que estamos acostumados a comer. Que venham as chuvas, mas que venha também a conscientização dos eleitos, porque, sem isso, os nossos rios seguirão de mau humor, e o Brasil, sedento de soluções. Roberto Caminha Filho, economista, vive, há quatro anos, dependendo do humor dos rios.

🔔Receba as notícias do Diário do Estado no Telegram do Diário do Estado e no canal do Diário do Estado no WhatsApp