Falta oportunidade: conheça a história de Allanzinho, o menino sem os braços que quer ser jogador
Allanzinho é um evento nos treinos do sub-15 do Goytacaz, clube de Campos dos Goytacazes, no Norte do Rio de Janeiro. O menino cumprimenta presidente, treinador e companheiros de time com a mesma intimidade e alimenta a resenha com risadas e provocações. “Olha lá, ele chegou” são os comentários, como se estivesse faltando apenas isso para começar a atividade.
Cenário desafiador para Allanzinho
Quem não está acostumado se espanta com o fato de Allanzinho não ter os dois braços. Ele naturalmente precisa de ajuda dos colegas para se vestir, calçar as chuteiras e colocar o colete sobre o uniforme. Essas tarefas costumam caber a Darlan, seu melhor amigo. Para beber água, Allanzinho consegue se virar, mas antes alguém tem que encher a garrafa para ele.
Presidente do Goytacaz, Sérgio Alves, o Serginho, se lembra perfeitamente do dia em que conheceu o jovem jogador. Foi há dois anos, quando o clube organizou as peneiras para abastecer as categorias de base com novos jogadores.
Caminho para a superação
Allanzinho respondeu jogando futebol. Quando a bola rola, tudo muda. Esse é o momento em que o menino domina o meio de campo, distribui passes, arrisca dribles e mostra o porquê de ser o camisa 10 da equipe. Ele é diferente – e por motivos que nada têm a ver com a ausência dos dois braços.
No treino coletivo que o ge acompanhou, realizado no Estádio Ary de Oliveira, o Aryzão, Allanzinho abriu o placar da atividade com um bonito gol de cobertura. No banco, algum distraído perguntou “quem fez?”. E ouviu como resposta: “o Allanzinho, claro”.
“As pessoas olham assim e acham que eu não tenho capacidade, mas é porque nunca viram eu jogar, entendeu?”, conta o jogador.
Amizade e superação
Allanzinho, hoje um adolescente, se vira muito bem. A família entra em cena nos momentos em que uma pessoa sem os braços naturalmente precisa de ajuda, como ir ao banheiro ou tomar banho. Mas o menino é capaz de fazer outra infinidade de coisas sozinho – até andar a cavalo.
Darlan dos Santos Almeida, que também tem 15 anos, é o parceiro inseparável de Allanzinho. Os dois não se desgrudam desde que se conheceram soltando pipa em uma rua no distrito de Travessão, aos seis anos. Quando estão juntos, Darlan é os dois braços do amigo.
Allanzinho, que não tem empresário, está em busca de uma oportunidade. Seu objetivo neste momento é entrar para a base de um clube médio ou grande, embora seja grato por tudo que o Goytacaz fez e faz por ele.
O presidente Serginho é um entusiasta do futebol de Allanzinho e, desde que assumiu o clube, levanta a bandeira da inclusão. Na temporada passada, o time foi campeão da Série B2 com um jogador que atuou na competição inteira com uma tornozeleira eletrônica, história que o ge contou em dezembro.
A esperança é a mesma da família humilde, que ainda procura entender o caminho que o menino deve seguir para isso. Jocinea, a bisavó, diz que Allanzinho quer jogar “numa tal de base”. Mesmo sem saber muito do que se trata, é defensora voraz do sonho do bisneto.



