Mensagens racistas escritas no mural do Pavilhão de Educação Física da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) chamaram atenção de estudantes em Bahia nesta segunda-feira (13), gerando grande mobilização e repúdio da comunidade acadêmica. O crime ocorreu no campus localizado na BR-415, entre as cidades de Itabuna e Ilhéus, regiões que têm visto um aumento no debate sobre discriminação racial e representatividade estudantil na educação superior.
Segundo relatos recebidos pela reportagem do DE, pelo menos três frases com teor abertamente racista foram identificadas logo nas primeiras horas do dia. As mensagens – “Seus macacos, parem de cortar fila”, “Só preto faz m…” e “Seus pretos f…” – chocaram alunos, professores e funcionários, reacendendo discussões sobre segurança, racismo institucional e políticas de combate ao preconceito em instituições públicas de ensino.
O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uesc agiu de forma imediata. Segundo nota divulgada à imprensa, o órgão, junto ao Centro Acadêmico de Educação Física, encaminhou denúncia formal à reitoria e à ouvidoria da universidade, exigindo providências rápidas contra o ato. Em paralelo, movimentos estudantis reforçaram pedidos de melhorias na segurança no campus, tema recorrente em assembleias, especialmente após episódios anteriores de intolerância na Bahia.
Mobilização estudantil e resposta institucional
De acordo com informações obtidas por nossa equipe, estudantes da Uesc se organizaram em abaixo-assinados virtuais exigindo investigações e punição aos responsáveis. A ausência de câmeras de segurança no local é vista por muitos como entrave para a identificação dos autores do crime, conforme explicado por líderes do DCE. “Sem registros visuais, o processo investigativo se torna mais complexo, mas não aceitaremos que o caso seja arquivado”, declarou uma representante do corpo discente à reportagem do DE.
No mesmo dia, professores e servidores técnicos também demonstraram solidariedade aos alunos afetados. Em grupos institucionais, docentes reforçaram a necessidade de debates permanentes sobre inclusão e respeito, alinhando o posicionamento da instituição às práticas de outras universidades do Nordeste que atuam contra a discriminação racial. O engajamento na pauta antirracista se reflete em projetos como semanas temáticas de conscientização em cidades como Salvador, pólo de discussões sobre igualdade racial no estado.
A reitoria da Uesc, por meio da assessoria de comunicação, confirmou que o caso está sob análise, mas, até o fechamento desta matéria, não havia divulgado pronunciamento oficial à comunidade acadêmica ou aos veículos de imprensa. O silêncio tem sido criticado por parte dos alunos e por entidades externas de defesa dos direitos humanos, que questionam o grau de prioridade dado à investigação e à prevenção de futuros episódios similares.
Contexto regional do combate ao racismo
O caso ocorrido na Uesc reforça um panorama preocupante de episódios racistas registrados em instituições públicas da Bahia nos últimos anos. Só em 2025, houve pelo menos 12 ocorrências semelhantes em universidades federais e estaduais do Nordeste, segundo levantamento de movimentos sociais. O aumento nas denúncias coincide com maior mobilização estudantil e avanços em canais de escuta e acolhimento de vítimas dentro das universidades.
Além da atuação de diretórios estudantis, cidades como Feira de Santana e Vitória da Conquista também receberam projetos de extensão focados em letramento racial e ações afirmativas. Na avaliação de pesquisadores da área, a visibilidade destes episódios é resultado, em parte, do aumento das políticas de cotas, que ampliaram a diversidade nos campi, mas, por outro lado, trouxeram desafios para ambientes historicamente marcados por práticas discriminatórias veladas.
Dados oficiais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que os registros de crimes de injúria racial em ambiente escolar cresceram 18% em Bahia no último ano. A maioria das vítimas aponta dificuldade em conseguir apoio psicológico institucional e resposta das autoridades universitárias. “Casos como o de Itabuna revelam o quanto precisamos de ações firmes e de uma nova cultura universitária de acolhimento e responsabilização dos agressores”, afirma uma integrante da Comissão de Igualdade Étnico-Racial do estado.
Desafios na investigação e importância da denúncia
Um dos maiores obstáculos apontados por especialistas da área jurídica é a investigação dos responsáveis por crimes como o registrado na Uesc. A ausência de câmeras de vigilância, recorrente em universidades estaduais, dificulta o rastreamento de suspeitos – realidade observada também em instituições de Vitória da Conquista e Feira de Santana. “Imagens ajudam não só a elucidar os fatos, mas também têm caráter preventivo, inibindo ataques”, pontuam peritos consultados pelo DE.
Apesar dos entraves tecnológicos, as denúncias formais são essenciais para a abertura de inquéritos policiais e para a mobilização da opinião pública. Nesta quarta-feira, o DCE anunciou que vem coletando depoimentos de testemunhas e encorajando novas vítimas de discriminação ao longo do curso a relatar situações semelhantes. As informações também serão encaminhadas para órgãos externos, como o Ministério Público Estadual e entidades do movimento negro.
As orientações levantam discussões: “Que mecanismos as universidades devem adotar para garantir proteção à diversidade dentro dos campi?” e “O que esperar para os próximos dias? A sociedade aguardará respostas rígidas dos órgãos competentes e da direção da Uesc quanto à responsabilização dos envolvidos, à implementação de medidas de segurança e ao fomento de uma cultura de tolerância nas relações universitárias”.
A repercussão do caso em veículos de comunicação contribuiu para que o tema ganhasse robustez: a hashtag #UescAntirracista esteve entre as mais citadas em redes sociais nesta semana, agregando declarações de apoio de ex-alunos, organizações sociais e parlamentares baianos. O movimento online repercutiu especialmente em páginas de coletivos de estudantes negros e indígenas, reafirmando a histórica luta por direitos dentro e fora dos ambientes escolares.
Exemplos recentes mostram que situações semelhantes tiveram desdobramentos importantes. Em Salvador, uma turista foi presa após injúria racial contra baianas e integrantes do bloco Filhos de Gandhy, provocando debates sobre punição à altura do crime – repercussão detalhada em matérias anteriores do DE. Já em Feira de Santana e Vitória da Conquista, medidas como câmeras extras e palestras obrigatórias foram implementadas em resposta a episódios similares.
Segundo especialistas, o envolvimento da sociedade civil é crucial no monitoramento do andamento das apurações. Está prevista para as próximas semanas uma agenda de audiências públicas, a fim de debater estratégias coletivas de enfrentamento ao racismo institucional nas principais universidades da região. Esforços conjuntos buscam ampliar a responsabilização de agressores e um ambiente universitário cada dia mais plural e seguro para todos.



