Mercado não tem medo de crise, tem medo do escuro
Um ditado conhecido no mercado financeiro brasileiro diz que “o mercado não tem medo de crise, tem medo do escuro”. Ele descreve bem o momento atual. A forte volatilidade dos ativos financeiros a cada anúncio de Donald Trump sobre as tarifas ou as guerras (Ucrânia e Gaza) indica essa dificuldade de dar preço ao tamanho do risco que o americano está impondo ao mundo.
Pela segunda semana consecutiva as previsões do Boletim Focus do BC vieram inalteradas. Apenas um ajuste marginal para IPCA deste ano, de 5,65% para 5,68%, apareceu na cartela com estimativas até 2028. A paralisia se dá em momentos de incompreensão do que se passa e suas consequências.
Aqui no Brasil ninguém é capaz de ter uma visão confortável sobre o que será o governo Lula nesta segunda metade do mandato. O “escuro” brasileiro também tem promovido vai-e-vem da bolsa de valores e do dólar. Não há movimentos disruptivos, mas a volatilidade em excesso assusta e expulsa do mercado de capitais muito investidor que não quer pagar para ver no que vai dar. O índice Ibovespa flutua na casa dos 125 mil pontos e a moeda americana fica entre os R$ 5,70 e R$ 5,80, numa acomodação sem compromisso com a piora ou a melhora do cenário.
A principal dúvida no Brasil é sobre a resistência de Lula a um quadro de menor crescimento, maior inflação e juros. O petista vai entender que precisa acomodar a atividade econômica para ajudar o Banco Central a reduzir a inflação, ou vai pisar no acelerador? Os sinais são de que Lula vai pisar no acelerador. A escolha por Gleisi Hoffmann para a articulação política foi a acelerada mais recente. A chegada da petista ao Palácio do Planalto foi lida como uma afronta a Fernando Haddad e seu arcabouço fiscal – que já andava ameaçado antes de Hoffmann chegar.
A tentativa de controlar preços dos alimentos e os pedidos do presidente para distribuir dinheiro na praça com liberação do FGTS, antecipação das aposentadorias, criação do crédito consignado privado e o plano de isentar de IR quem ganha até R$ 5 mil provocam uma onda grande o suficiente para fazer a pulga saltar atrás da orelha dos agentes econômicos. Dos Estados Unidos, quanto mais ameaçador Trump parece, mais ele gosta. Brincando de marionetes, o presidente americano não se dá conta de que, de tanto balançar os países e a economia internacional, ele pode provocar um enorme nó nos fios que penduram as relações comerciais e a geopolítica num equilíbrio muito frágil.
Os mercados ficam aliviados quando uma luz no fim do túnel aparece, o que poderia ser o caso agora se fosse possível compreender minimamente as consequências das escolhas de Trump, Putin, Xi Jinping, Lula e companhia relevante. Como o fim do túnel parece muito distante, o ideal é que alguém ache rapidamente o interruptor que acenda a luz em todo percurso.