“Geraes”, álbum lançado há 50 anos por Milton Nascimento, se alinha com o aguçado orgulho latino do Brasil em 2026. Milton Nascimento posa com a camisa que estampa o desenho feito pelo artista para a capa do álbum “Geraes” (1976) — Foto: Divulgação.
Na década de 1970, Milton Nascimento alicerçou obra que sempre buscou a conexão do Brasil com os países latinos da América hispânica em movimento de integração que, 50 anos após as ações de Milton, vem alcançando amplitude mundial em 2026 com o enfrentamento de Donald Trump pelo astro porto-riquenho Bad Bunny através da música.
No álbum “Clube da Esquina” (1972), antológico disco-manifesto da turma mineira liderada por Milton, artista de origem acidentalmente carioca, o cantor e compositor já havia se ambientado na atmosfera hispânica de “San Vicente” (Miltin Nascimento e Fernando Brant), canção afiada por lâmina ibérica com toque andino.
Sucessor do álbum “Minas” (1975) na discografia gravada por Milton para o Brasil, o álbum “Geraes” expandiu em 1976 o movimento de integração do Brasil com os países vizinhos da América do Sul e, 50 anos depois, se afina com o orgulho latino do país, aguçado pela consagração mundial de Bad Bunny e pela passagem do cantor de Porto Rico por São Paulo (SP) neste fim de semana.
Uma das vozes referenciais da América Latina desde a década de 1960, a cantora argentina Mercedes Sosa (1935 – 2009) participa do álbum “Geraes” na regravação de “Volver a los 17” (1966), canção emblemática da compositora chilena Violeta Parra (1917 – 1967), cuja obra foi um dos esteios da resistência do povo latino-americano às ditaduras que dominavam a maioria dos países do Continente nos anos 1970, unindo na luta o Brasil com os países vizinhos Argentina e Chile.
Do Chile, a propósito, Milton importou o grupo Água – quarteto formado por Nano Stuven (flauta), Nelson Araya (violão), Oscar Perez (tiple) e Polo Cabrera (charango e percussão) – para tocar nas músicas “Caldera” (então inédito tema instrumental de Nelson Araya, integrante do grupo de folk), “Minas Geraes” (Novelli e Ronaldo Bastos) e “Promessas do sol” (Milton Nascimento e Fernando Brant).
Gravado no Rio de Janeiro (RJ) nos estúdios da EMI-Odeon, gravadora então sob a direção artística de Milton Miranda, o álbum “Geraes” teve produção orquestrada por Mariozinho Rocha sob a supervisão musical do próprio Milton Nascimento.
Em “Geraes”, Milton assina somente quatro músicas – “A lua girou”, “Circo marimbondo” (com letra de Ronaldo Bastos) e “Menino” (outra parceria com Bastos), além da já mencionada “Promessas do sol” – entre as 12 faixas, atuando sobretudo como intérprete de repertório afinado com as intenções do artista. Ainda assim, cabe ressaltar que “A lua girou” é, a rigor, tema folclórico adaptado e arranjado por Milton para o álbum.




